Opinião

Bom dia, senhores ministros

Quando, há uns 60 anos, o Benfica foi buscar o treinador que tinha sido campeão pelo Futebol Clube do Porto, quem se mudou para Lisboa foi o Sr. Bélla Guttmann que, tanto quanto se sabe, se fez acompanhar apenas pela Sra. Guttmann. Simples, fácil… e barato.

Hoje, é tudo muito diferente. O que os grandes clubes contratam é um coletivo, que junta treinadores adjuntos, preparador físico, médico, fisioterapeuta, analistas de desempenho, assessores de imprensa e tutti quanti. Afinal, o que sobra para o treinador? Lá está… o treinador dá a cara e sabe que será despedido se os resultados não aparecerem.

No topo das grandes organizações, privadas e públicas, as exigências são paralelas. Sondados ou convidados formalmente, os escolhidos só dão o SIM depois de aceite um rol de exigências quanto à ‘sua’ equipa: restantes dirigentes, chefe de gabinete, secretárias, motoristas, técnicos com valências específicas, assessor de imprensa, consultor de imagem, especialista de contrainformação, para atuar nas redes sociais. E ainda… a agência de comunicação do presidente. Não há erro na formulação: as agências de comunicação não servem as organizações, cuidam da imagem do presidente.

Também não é avisado prescindir dos consultores externos. Quem cair no erro de o fazer, tem-nos à perna. Como mínimo, será rotulado de ‘incapaz de acompanhar as novas tendências’, um mimo que será subtilmente passado ao mercado e aos jornais.

Nos tempos em que havia dinheiro para tudo, as encomendas aos consultores e às agências de comunicação eram garantia de boa imprensa… e o preço para se ter setas para cima, fotos nas capas das revistas, prémios nacionais e internacionais. Veio a crise, há menos dinheiro, mas os maus hábitos mantêm-se.

Como as revoluções, as crises arrastam o estranho fenómeno da substituição dos gabinetes e da emergência das ‘pessoas de confiança’. Entre 1974 e 1980, foi o saneamento de uma Função Pública indolente, mas sabedora, logo rotulada de ‘fascista’ para justificar a substituição por um séquito de funcionários dos partidos, familiares e amigos dos governantes, que entravam para os gabinetes com garantia de colocação nos serviços do Ministério quando o Governo caísse. O vício enraizou-se e dá agora pelo simpático nome de familygate.

Temos agora um Governo recauchutado, o XXII da era constitucional. Com uma multidão de secretários de Estado, e equipas técnicas e não técnicas a gosto, pergunta-se: e os ministros? Que fazem? Melhor, que sabem fazer?

E aqui, ocorre a história do vendedor de papagaios.

«O da esquerda, custa 5.000 euros, fala inglês, francês e alemão; o da direita, 10.000, sabe tudo sobre política e economia, e é de grande utilidade para assessorar o dono». «E o do meio?», perguntou o interessado. «20.000 euros! Não faço ideia das competências, nunca o vi fazer nada, mas, quando os destapo pela manhã, os outros dois viram-se para ele e dizem: Bom dia, senhor ministro».