O Mundo em Calções

É assim que o Destino bate à porta

Carpentier era um dândi. Depois de terminar a carreira, distrubuia fotos suas com a frase: «Georges homme du monde»

Quando Carl meteu na cabeça que iria desposar Johanna Reiss, o irmão, Ludwig, ficou furibundo. Na Viena de 1806, Johanna era tida como uma flausina, o tipo de mulher que nenhum homem de bem queria ter dentro do seu círculo familiar. E Ludwig era um homem de bem. Já Carl, bom..., Carl era um parlapatão. Chegou a oferecer ao Teatro de Viena uma série de composições musicais da autoria de Ludwig e este, como é óbvio, não achou piada à trampolinice. Mas já deve ter sorrido de íntima satisfação quando, cinco anos depois, Carl apresentou queixa à polícia declarando que a mulher o roubava. A coisa foi feia. Meteu facadas e tudo. E Johanna foi condenada a um mês de prisão domiciliária.

Enfim, todas as famílias têm os seus podres e precisam de viver com eles. O problema de Ludwig e de Carl é que usavam o nome de van Beethoven. E quando um Beethoven vem à baila ouvem-se ao longe os acordes – Tan-Tan-Tan-Tan – da Quinta Sinfonia. Acordes que Ludwig definiu desta forma muito simples: «É assim que o Destino bate à porta».

O Destino deu a Carl e Johanna um filho: Karl. O tempo apaziguou a relação entre os irmãos ao ponto de Carl ter decidido que, perante a iminência da sua morte, devastado que estava pela tuberculose, desejava ver o rapaz ser entregue aos cuidados de Ludwig, retirando-o da perversa influência materna, matéria que deixou explícita no seu testamento. Johanna não era decididamente boa rês. E, não o sendo, deitou mão ao documento, alterando-o por via de uma imitação manhosa da letra do marido. O assunto foi parar à barra do tribunal. O juiz, que talvez não prezasse muito o futuro do jovem Karl, embirrou bastante com Ludwig, interpretando como arrogância a sua crescente anacusia. Ao ponto de o questionar: «Diga-me lá, este van que tem no nome é sinal de nobreza familiar?». Ao que o divino surdo respondeu, apontando para a testa: «A minha nobreza está aqui!».

Ludwig van Beethoven podia ser um homem de meias palavras. Mas não as desperdiçava.

Beethoven nasceu em Bona, no tempo do Sacro Império Romano, mas cedo se instalou em Viena, uma cidade conhecida pelos seus excessos de vaidade. Algo que dificilmente combinava com o seu profundo desdém pela autoridade e pelos estatutos sociais. Um inglês, David Roberts, escreveu um livro bastante fantasioso, mas sem dúvida estimulante, traçando um paralelo entre a sua personalidade e a de William Shakespeare: Ghosts and Heroes. Não vou imitar Woody Allen - «Estou a fazer um curso intensivo sobre literatura. Li Guerra e Paz: é sobre a Rússia» – mas diria que, basicamente, o autor advoga a ideia de que tanto William como Ludwig tiveram a percepção da importância que as suas obras iriam ter no futuro da Humanidade.

Se há figura do boxe sobre a qual gosto de escrever, essa é Georges Carpentier, o primeiro francês a ser campeão do mundo de pesos-pesados. Ele também tinha uma noção muito firme do que viria a representar para o futuro da França e para a sua imagem de potência desportiva. Só que, ao contrário de Beethoven, era um cultivador da vida social e utilizava-a como ascensor. Isto apesar de ser um chti, isto é, um daqueles tipos que fala achim, sotaque particular da Picardia onde o francês e o alemão se misturaram e fazem com que não seja fácil compreender o que dizem. A menos que se seja de Viseu e se perceba claramente que «Ch’est ti qui a fait cha?» significa «C’est toi qui a fait ça?».
Não era por isso que Carpentier deixava de dominar perfeitamente o inglês. E os ingleses, que por uma questão atávica, desprezam toda a gente, a começar pelos franceses a quem apelidam de froggies pelo facto de considerarem a rã um alimento, gostavam de Carpentier. Deram-lhe a preciosa alcunha de Gorgeous George. Apreciavam a sua forma cuidada de vestir e a orquídea que trazia invariavelmente à lapela. Além disso tinha o hábito de despachar com facilidade todos os seus adversários britânicos, de Percy Wilson a Jim Campbell, de George Randall a Jack Daniels.
Carpentier foi um dândi. Sobre ele escreveram esta frase definitiva: «Não foi um pugilista. Não foi um campeão de boxe. Foi ‘Le Boxeur’». E com maiúsculas. Depois de terminar a carreira, íntimo de Charlie Chaplin, de Aga Khan, de Santos-Dumont, de Nijinski, de La Rochefoucauld, Minstinguett e de Augustina Carole Otero, La Belle Otero, distribuía fotografias suas, de fato e gravata, florzinha ao peito, e a definição de si próprio: «Georges Carpentier, homme du monde». Como se dissesse: «A minha nobreza está aqui». 


afonso.melo@newsplex.pt