Desporto

1981. O galinho assassino

Em Tóquio, para a Taça Intercontinental, o Flamengo de Zico desfez o Liverpool de Dalglish (3-0). Hoje (17h30) há desforra. Com Jesus.

Ganhou a alcunha de Galinho. O Zico, isto é. Galinho de Quintino, nome do bairro dos subúrbios do Rio de Janeiro onde passou a infância e deu, pela primeira vez, pontapés numa bola de futebol. Quintino Antônio Ferreira de Sousa Bocaiuva, jornalista e político brasileiro, figura maior da implantação da República, primeiro ministro das Relações Exteriores do Brasil liberto do Império.

O bairro Quintino Bocaiuva fica para norte, é interseccionado pela linha principal da Estrada de Ferro Central do Brasil, local cinzento pejado padarias, botequins, ‘lanchonetes’ de esquina, fábricas de cartão, papelão e gesso. A violência instalou-se com o decorrer dos anos. Mas os habitantes do bairro não desistem de puxar as cadeiras para os passeios em frente às portas e bater-papo bebendo cachaça e cervejinha gelada. As crianças brincam na rua e jogam peladas nos baldios. Foi aí que Arthur Nunes Coimbra, sexto filho do emigrante português de Tondela, José Antunes Coimbra, e de sua esposa amantíssima, Matilde da Silva, abriu os olhos para o mundo pelas 7 horas da manhã do dia 3 de março de 1953.

Ao contrário dos irmãos mais velhos, era assim para o enfezado.Magrinho, magrinho, não tardou a ser o Arthurzinho ou o Arthurzico.

Simplesmente Zico, como sua tia Ermelinda resolveu tratá-lo, levava um jeito danado para a bola. Edu, seu irmão, foi contratado pelo América do Rio. Outros, como Antunes e Nando, ficaram-se por clubes amadores. Arthur ia ensaiando dribles no Juventude de Quintino. E marcava golos. Uma vez marcou dez numa vitória do Juventude por 15-3. Celso Garcia, repórter de rádio, amigo dos Coimbra, muito lá de casa, levou-o ao Flamengo. Ficou. Tinha 14 anos.

Tóquio

No dia 13 de dezembro de 1981, o Galinho de Quintino estava em Tóquio. Cumpria dez anos desde que ganhara os galões de titular no Flamengo, depois de ter entrado em campo num jogo frente ao Vasco da Gama e ter oferecido a Fio Maravilha o golo da vitória (2-1). Tinha sido sujeito a um plano de fortalecimento muscular: ganhara 11 centímetros de altura e 16 quilos de peso. Ou seja, estava pronto.

E de que maneira!

Em 1974, a sua categoria foi premiada com a camisola número dez. O número dos craques. O seu estilo era empolgante, tinha arrancadas devastadoras, dribles de deixar adversários de olhos trocados, e um pontapé capaz de colocar a bola de forma milimétrica nos ângulos das balizas contrárias, sobretudo na conversão de livres diretos.
1978 atirou-o para o topo do futebol do mundo. Era inconfundível na sua estética e dominava-o uma confiança que o aproximava do impossível. Uma tarde, em Cádiz, foram rabos e orelhas aoBarcelona de Cruyff, Neeskens, Krankl e Rexach: marcou os dois golos da vitória (2-1) que garantiu a conquista do troféu Ramon Carranza. Em 1980 vi-o no Torneio do Algarve e todos os seus movimentos puxavam o olhar como se tivessem imã. No ano seguinte ganhou a Copa Libertadores. Em 1982 vi-o outra vez, em Lisboa e em Coimbra, preparando o Mundial de 1982, em Espanha, onde, lado a lado com Sócrates, Falcão, Éder, Toninho Cerezzo, Júnior, Óscar, Leandro e Luizinho atingiram a perfeição que Paolo Rossi estilhaçou.

Mas antes disso prodigalizara, contra o Liverpool, em Tóquio, um momento de suprema magia. A Taça Intercontinental opôs, no Estádio Olímpico, os campeões da América do Sul e da Europa. BobPaisley, o gorducho bonacheirão que treinava os ingleses, admitiu desde logo que conhecia pouco ou nada sobre os ingleses. E acrescentou: «Não estou preocupado. Andamos há dez anos a jogar taças internacionais. Não vamos ter medo do Flamengo, como devem calcular».

Uma soberba que custou caro.

Havia nos jogadores brasileiros uma dor por dentro. A dor da morte do seu treinador, Cláudio Coutinho. E uma ânsia de, por causa disso, serem ainda melhores do que eram. Melhor do que Júnior? Do que Leandro? Do que Mozer? Do que Andrade, Adílio e Tita? Melhor do que Nunes e Zico? Tarefa muto difícil.

A degola
Logo aos treze minutos, Zico colocou a bola de forma primorosa na frente de Nunes que, isolado frente a Grobelaar, lhe fez um chapéu de abas curtas. O Galinho seria assassino e de uma forma requintada. A relva estava amarelada de seca. Paulo César Carpegiani sabia da consistência da equipa do Liverpool e da forma enérgica como costumava abafar os adversários, através de um pressing poderoso e muito alto. Assim tinham conquistado três Taças dos Campeões nos últimos cinco anos. Além do mais tinham jogadores de imensa qualidade, de Kenny Dalglish a Graemme Sounnes, de Samy Lee a Johnstone e ao impressionante Terry McDermott. Rush ficou de fora. Ninguém os esqueceu; ninguém os esquecerá.

45 minutos de arte
Desde o Santos que tinha uma linha avançada que parecia a letra de um samba, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe, que uma equipa brasileira não ganhava a Intercontinental, ou a Toyota como também era chamada por causa do patrocinador.

Nessa tarde gélida do Japão, Zico levou o Flamengo às costas até uma exibição que Pelé não desdenharia de assinar.
34 minutos: McDermott faz falta sobre Tita à entrada da grande área de Grobelaar. Zico marca com a sua corriqueira infalibilidade. Todos seguem a bola na sua trajetória para o golo que viria a caminho.Mas o guarda-redes do Liverpool tem uma defesa fantástica, socando a bola para a frente. Lico faz a recarga, mas desta vez é Thompson, no seu jeito desengonçado de girafa, a desviar sobre a linha. Perante a insistência derradeira de Adílio é que não há nada a fazer. 2-0. Os homens do lado de lá da Mancha não estavam habituados a ser tratados daquela forma. Eram campeões perdidos em campo, sem resposta para o futebol de tabelinhas em progressão constante dos brasileiros. Há quem diga que foi o jogo mais brilhante da história centenária do Flamengo...

41 minutos: Zico, Zico e sempre Zico! Desmarca Nunes e ambos repetem o lance do golo inicial, 3-0. Uma maldição parece cair do céu de Tóquio sobre os tão confiantes ingleses. Os adeptos cariocas exigem a goleada. Mas a segunda parte gasta-se em pormenores de divertimento com muito de egoísta, a arte da fírula, do faz que vai mas não vai, da recreação quase infantil com a bola em tratos de malabarista. Ninguém é capaz de deitar um pingo escuro de dúvida no mérito alvo e brilhante do Flamengo. O Liverpool mergulhara num pesadelo...