Opiniao

Uma luz negra acendeu em Ebbets Field

Jack Roosevelt Robinson cruzou a ‘color line’  no dia 15 de abril de 1947. ‘Baseball’s finest moment!’, escreveu Dick Young

Se havia algo que amofinasse Jackie, isso era a mania que alguns branquelas pascácios tinham de lhe atirar amendoins no tempo em que ia para o complexo desportivo da John Muir High School, em Pasadena, na Califórnia, dedicar-se à prática de qualquer desporto que lhe desse na gana, do ténis ao basquete, do futebol americano ao salto em comprimento e, sobretudo, ao basebol. Quinto filho de uma equipa de agricultores, Jack Roosevelt Robinson tinha um fortíssimo sentido de dignidade. Tal como Theodore Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos do qual ganhara o nome do meio e que morrera precisamente 25 dias antes de Jackie vir ao mundo, a 31 de janeiro de 1919.

A verdade é que a história do racismo na América não se reduz, como eles gostam de dizer, a ‘peanuts’. Há pouco mais de 50 anos ainda os motins, os assassinatos, as revoltas e os ataques repugnantes de uns biltres escondidos cobardemente debaixo de capuzes e que se autodenominavam Ku Kux Klan, eram tão banais que não mereciam mais do que notas de rodapé.

Não é espantar que, em julho de 1944, Robinson tenha recebido uma ordem brusca de um condutor de autocarro: tinha de abandonar imediatamente o lugar fronteiro onde se tinha sentado e ir para o fundo do veículo, para o assento dos pretos. Abespinhou-se com a vileza. Recusou-se a obedecer e a tranquibérnia rebentou à medida da sua paciência.
Nessa altura, Jackie era segundo-tenente do 761st Black Panthers Tank Battalion estacionado em Fort Hood, no Texas. A Polícia Militar meteu-se ao barulho. Foi acusado de insubordinação e levado a Tribunal Marcial carregado de imputações, entre as quais a de embriaguez, coisa infame para quem nunca tocara numa gota de álcool. Do mal o menos: o processo manteve-o detido enquanto os seus companheiros de batalhão foram dar com os costados nas praias da Normandia. Safou-se com uma condenação leve: foi colocado em Camp Breckinridge, no Kentucky, como treinador de atletismo de um grupo de jovens soldados.

Toda a prole do casal Jerry e Mallie Robinson teve queda para o desporto. Matthew McKenzie, que todos conheciam por Mack, irmão de Jackie, ganhou a medalha de prata dos 200 metros nosJogos Olímpicos de 1936, em Berlim, só superado porJesse Owens.O ultimogénito tinha jeito para tudo e mais um par de botas mas escolheu os sapatos de gáspeas ao contrário do basebol. E manteve-se suficientemente agressivo com todas as atitudes que considerava racistas, o que lhe valeu uma série de chatices com as autoridades.

Os Dodgers de Brooklyn têm um nome irónico. No início chamavam-se Brooklyn Grays, mas quando os velhos trolleys puxados a cavalos passaram à história e foram substituidos pelos elétricos, que deslizavam excitantemente pelos carris da cidade, ganharam a alcunha de Trolley Dodgers, os esquivos, ou os enganadores. A equipa de basebol foi-lhes na peugada.

Wesley Branch Rickey era um dirigente com coragem. Resolveu ir buscar Jackie ao Kansas City Monarchs, que jogava nas ‘negro leagues’, às quais os jogadores de pele escura estavam confinados, e dar-lhe o posto de primeiro-base dos Dodgers. Conhecendo o seu feitio espalha-brasas, sentou-o na sua frente e perguntou-lhe se estava preparado para enfrentar as provocações de um público essencialmente branco capaz, até, de lhe atirar amendoins. Robinson amofinou-se mais uma vez: «Are you looking for a Negro who is afraid to fight back?». E ouviu uma resposta serena: «No, I want a Negro with guts enough not to fight back». Apertaram as mãos e assinaram contrato.

Jack Roosevelt Robinson cruzou a ‘baseball color line’ no dia 15 de Abril de 1947, tornando-se no primeiro afro-americano a jogar na Major League Baseball. Aguentou como pôde toda a raiva que lhe era dirigida, sobretudo quando os Dodgers tinham de se deslocar aos estados sulistas e ouvia os próprios adversários mandarem-no de volta para os campos de algodão. Manteve-se satisfatoriamente contido para atingir uma qualidade incomum. Em 1950 foi convidado a fazer de si mesmo no filme de Alfred E. Green, The Jackie Robinson Story, com Ruby Dee, a poetisa, e o incansável Miner Watson. Entretanto, Buddy Johnson já tinha feito sucesso com uma canção que seria, em seguida, gravada por Count Basie: «Did you see Jackie Robinson hit that ball?/It went zoomin’ cross the left field wall/Yeah boy!/Yes, yes. Jackie hits that ball».

Parece que a vaidade lhe subiu à cabeça. Tornou-se cada vez menos sociável. Dick Young, famoso jornalista do New York Daily News escreveu: «O problema de Jackie é que sente que tudo o que lhe acontece de mau acontece por ser negro». O mesmo Dick que assistiu à sua estreia pelos Dodgers e se deixou emocionar até às lágrimas: ‘Baseball’s finest moment’. Uma luz escura acendera-se essa tarde no estádio de Ebbets Field.

afonso.melo@newsplex.pt