Opiniao

Satanás e a importância de um nome

Tuffy gostava de irritar os seus companheiros da defesa, Grane e Del Debbio, e entregava de propósito a bola aos adversários

Do lado de cá ou de lá do espelho, já não me recordo, a Alice doCarroll perguntava: «Que importância tem um nome?». Ora, que diacho, pensemos em Napoleão. Se não se tivesse chamado Napoleão como poderia ter sido tão absolutamente napoleónico? Ainda por cima Bonaparte! Alguém de bom senso acredita que um fulano chamado monsieur Denichot poderia ter sido responsável pela Revolução Francesa? Estão a ver a História, assim mesmo, com maiúsculas, recordar para todo o sempre a dolorosa derrota de monsieur Bernard Denichot na Batalha de Waterloo? Ou Ludwig van, o Grande Surdo, a dedicar a sua terceira sinfonia, a heróica Heróica, ao mesmo monsieur Denichot? Pois não... pois não...

Defendo a mesmíssima teoria no que respeita a Tuffy Neugen embora Deus me livre de vir para aqui compará-lo a Bonaparte. Mas é preciso começar por dizer que era guarda-redes, a mais ingrata de todas as funções. Nelson Rodrigues, mestre da crónica que dramatizou o futebol como ninguém, tinha uma bela opinião sobre a matéria: «O problema do arqueiro não se resume ao desgaste físico. Não. Ele sofre um constante, um ininterrupto desgaste emocional. Debaixo dos três paus, parado, dá ideia de um chupa-sangue que não faz nada, enquanto os outros se matam em campo. Ilusão! Na verdade, mesmo sem jogar, mesmo lendo gibi, o goleiro faz mais do que o puro e simples esforço corporal. Ele traz consigo uma sensação de responsabilidade que, por si só, exaure qualquer um. Amigos, eis a verdade eterna do futebol: – o único responsável é o goleiro, ao passo que os outros, todos os outros, são uns irresponsáveis natos e hereditários. Um atacante, um médio e mesmo um zagueiro podem falhar. Podem falhar e falham vinte, trinta vezes num único jogo. Só o arqueiro tem que ser infalível. Um lapso do arqueiro pode significar um frango, um gol, e, numa palavra, a derrota». 

A vida de Tuffy Neugen também teve muito de dramática e ele mesmo era um dramaturgo tão bom como Nelson Rodrigues. Equipava-se todo de preto, da camisola às meias e ganhou a alcunha de Satanás. Veem? Em Tuffy não era apenas o nome que tinha importância. Até a antonomásia era supinamente importante. Sim, Tuffy Neugen não era nenhum monsieur Denichot!

Juntava-lhes um feitio levado da breca e um descaramento tão divino como o do Alencar do Eça. Em 1927, já era uma imponente estrela do Corinthians, juntou-se ao seu camarada Luís Macedo Matoso, mais conhecido por Feitiço, que jogava no Santos, e juntos trataram de avacalhar publica e insistentemente a figura de Washington Luís, o último presidente da Velha República brasileira, apeado pela revolução de Getúlio Vargas. Entre outras faceirices tratavam-no por Doutor Barbado, coisa que o advogado de Batatais não encarava com ligeireza. Lá está: a importância dos nomes! Washington Luís foi o criador do Serviço de Inteligência, assim uma espécie de PIDE, e não hesitou a largar os seus cachorros às canelas da dupla, infernizando a vida de Tuffy e Feitiço, assunto que valeu ampla divulgação nacional.

O nome de Tuffy é tão irregular como muito do que sucedeu ao longo da sua carreira: aparece escrito como Neugen, como Neujen e como Neujm, assim um bocado à vontade dos jornalistas que o seguiram de perto desde a primeira vez que ocupou o lugar na baliza da Associação Atlética das Palmeiras, um já extinto clube de São Paulo tão elitista que entre 1902 e 1915 só aceitava jogadores que também fossem estudantes de Engenharia ou de Direito. Tuffy podia não ser nenhum monsieur Denichot mas também não tinha pretensões a magistrado. E era um bocado abandalhado. Gostava de andar com a barba por fazer, uma exibição de preguiça matinal que os italianos transformariam numa moda, e deixou crescer aquilo que os brasileiros chamam de costeletas: umas patilhas a caminho de serem suíças. Tuffy Neugen morreu cedo, com apenas 37 anos, vítima de uma pneumonia dupla. Tinha pendurado as luvas há pouco tempo, ele que foi o primeiro guarda-redes do Brasil a usá-las. Também foi, juntamente com Friedenreich, Formiga e Ministrinho, um dos primeiros jogadores a entrar num filme sobre futebol - Campeão de Futebol - falado em português. Formou com os centrais Grane e Del Debbio uma tripla famosa, mas gostava de espinafrar os colegas entregando de propósito a bola aos avançados contrários para poder brilhar com saídas arrojadas. O povão delirava. Certa vez, num jogo frente ao Guarani, enquanto Lolico corria para bater um penálti, saiu da baliza, deixando-a vazia, e foi roubar o chapéu a um espetador que gritava palavrões atrás de si. Com que então, a Alice tinha a lata de perguntar: «Que importância tem um nome?». Vejam esta equipa do Santos e escolham de que lado querem ficar: Tuffy, Camarão, Araken, Siriri, Ballio, Feitiço, Alfredo, Osmar, Bilu, Marba e Evangelista. Nem o Alfredo destoa.
afonso.melo@newsplex.pt