Opiniao

A bela e mística solidão do campeão

A celeuma da final do US Open de 2018, entre Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos, já não faria sentido com estas novas regras

Wimbledon, a final de 1980, John McEnroe acabou de vencer o tie-break do século por 18/16 e salvou 5 match-points pelo caminho. Bjorn Borg estava por baixo, mas no quinto set elevou a percentagem de primeiros serviços, subiu muito mais à rede e venceu o seu quinto e último título de Wimbledon por 8-6 no set final.

Open da Austrália, final de 2009. Roger Federer tinha ganho nas meias-finais a Andy Roddick por 6-2, 7-5 e 7-5 no dia 29 de janeiro. Rafa Nadal só jogou a sua meia-final no dia seguinte e superou Fernando Verdasco por 6-7, 6-4, 7-6, 6-7 e 6-4. Cinco horas e 40 minutos! A final jogou-se no dia 14, Nadal está mais cansado e teve menos tempo para recuperar, mas ao longo da final, ganha por 7-5, 3-6, 7-6, 3-6 e 6-2, surpreendeu com alterações táticas, para ele inovadoras na altura, como, por exemplo, jogar mais em cima da linha de fundo e roubar tempo a Federer.

Poderia trazer aqui outros exemplos, com diversos protagonistas, mas estes dois ilustram um dos aspetos que mais me fascina no ténis: o ‘mano-a-mano’ entre dois guerreiros.

No court estão sós, mesmo que rodeados por milhares de espetadores e televisionados por milhões. Estudaram aquele confronto detalhadamente com as suas equipas técnicas, mas naquele momento a solidão é total.

A dimensão mental do duelo ganha uma relevância descomunal. Naquelas duas finais os vencedores não foram os que jogaram melhor. Ganharam os que mostraram mais força de vontade e, sobretudo, os que souberam tomar as melhores decisões nos muitos momentos de crise com que se depararam, sob enorme pressão.

O circuito WTA já autorizava que os treinadores viessem ao campo uma vez em cada set, a pedido das jogadoras. Em 2020 permite que as jogadoras e os treinadores possam conversar brevemente, sempre que quiserem, desde que a jogadora esteja perto do local onde o treinador se senta. E também passa a ser possível o envio de mensagens verbais ou gestuais para o campo.

A enorme celeuma da final do US Open de 2018 entre Serena Williams e o árbitro português Carlos Ramos já não faria sentido ao abrigo destas novas regras, porque o treinador Patrick Mouratoglou já não estaria a violar qualquer norma.

Note-se, no entanto, que esta nova regra só é aplicável em torneios do circuito WTA. Não está em vigor nem no ATP Tour nem nos torneios do Grand Slam.

Há muitas vantagens em permitir a comunicação entre uma jogadora e um treinador durante os encontros. Para a semana explicá-las-ei. Mas há uma certa beleza e, principalmente, uma pureza e uma crueza dos místicos mano-a-mano que se perdem.