Cultura

Plácido Domingo. Tenor assume responsabilidade e pede desculpa às vítimas

O tenor lamentou o “sofrimento” que causou às mulheres que o acusaram de assédio sexual e diz estar agora empenhado em contribuir para uma mudança de paradigma no mundo da ópera.

Depois de meses a negar veementemente as acusações de assédio sexual por parte de várias mulheres de que era alvo, Plácido Domingo mudou ontem radicalmente de comportamento e assumiu “todas as responsabilidades” pelos seus erros. O tenor afirma que depois de ter passado meses “a refletir sobre as acusações que várias colegas apresentaram” começou a ver a história de outro prisma, e que por isso diz agora entender que “algumas mulheres podem ter medo de se expressar abertamente, pelo temor de que as suas carreiras sejam afetadas” e que respeita que “estas mulheres finalmente se tenham sentido à vontade para falar”. “Quero que saibam que sinto muito pelo sofrimento que vos causei. Aceito a total responsabilidade pelas minhas ações”, acrescentou.


A mudança de atitude foi expressa num comunicado divulgado pela agência Europa Press, que por sua vez foi enviado pelos representados legais do artista de 79 anos. No texto, Plácido Domingo expressa ainda a sua vontade de contribuir agora para uma mudança de paradigma, dizendo-se “empenhado em promover uma mudança positiva na indústria da ópera, para que ninguém mais tenha que passar por uma experiência assim”. E é este o seu atual “desejo fervoroso”: o de contribuir para que o mundo da ópera se torne num lugar mais “seguro”. Plácido Domingo diz ainda esperar que o seu exemplo “estimule outros”.


O inesperado pedido de perdão surge um dia após ser conhecido o veredicto do júri do julgamento Harvey Weinstein: o antigo produtor norte-americano, que foi também o nome a espoletar o movimento #metoo, foi acusado de um crime de agressão sexual e de violação.


O tenor lírico e maestro espanhol tinha sido inicialmente acusado por nove mulheres de assédio sexual, praticado entre 1980 e 2002, numa investigação publicada pela Associated Press (AP) em agosto do ano passado. Na reportagem, outras 30 mulheres que se cruzaram com o espanhol durante a sua carreira e confirmam histórias controversas, relatando até que no meio da ópera existia uma espécie de código implícito entre colegas, que se iam avisando mutuamente para nunca ficarem a sós com o tenor, mesmo que isso implicasse uma simples viagem de elevador, e que recusassem convites para jantar com o mesmo. Entre as nove primeiras vítimas a chegar-se à frente, a única a dar a cara foi a soprano Patricia Wulf, hoje com 61 anos. 


Depois, outras 11 mulheres juntaram-se ao coro de acusações. Entre os episódios relatados, contavam que Plácido Domingo as tinha beijado à força, acariciado e agarrado sem autorização. Em alguns casos, após terem negado manter relações sexuais com o maestro espanhol, sofreram represálias profissionais. Segundo a investigação da AP, este era, aliás, um comportamento padrão de Domingo, que beneficiava profissionalmente as mulheres com quem se envolvia e punia aquelas que recusavam os seus avanços. “As alegações destas pessoas anónimas, que remontam a situações com mais de 30 anos, são profundamente graves e, tal como foram apresentadas, imprecisas”, respondeu, na altura, aquele que é um dos cantores de ópera mais famosos do mundo.

Pouco depois, abandonou em outubro a direção da Ópera de Los Angeles, cargo que ocupava desde 2003, e cancelou alguns concertos agendados. Voltou novamente aos palcos em Espanha em dezembro do ano passado, para uma série de atuações em Valência. Por essa altura, deu uma entrevista ao El País em que repetiu: “Nunca ataquei uma mulher”.