Opiniao

Ganhando à morte por um golo

Pichon-Rivière aprendeu com o poema La Balle de Rilke a trazer o futebol para as suas aulas de psicanálise.

Enrique nasceu no seio de uma família curiosa. A mãe, Josephine, trouxe-o ao mundo em Genève, numa altura em que o pai, Alphonse, já tinha tido outros três filhos e duas filhas de um casamento anterior, por acaso com a irmã de Josephine que, também por acaso, era igualmente sua prima direita (da irmã, não do marido), e no meio disto tudo já não sou capaz de jurar que o acaso tenha tido alguma coisa a ver com o assunto.

Deu-se o parto em junho de 1907, uma época em que o grande poeta Reiner Maria Rilke, um dos nomes fundamentais da literatura alemã estava por Paris, inquieto como sempre, ele que já viajara pela Rússia, pelaEspanha e pela Itália, e escrevia muito em francês. Aqui já dou de barato que o acaso tenha feito Rilke observar uns garotos a jogar futebol nos Jardins do Luxemburgo e isso lhe tenha sugerido um poema sobre as correrias dos meninos: «Encore indécise, qui, quand elle monte/comme si elle l’avait élevé avec elle/ravit et libère le jet – et s’incline/et suspend et d’en haut aux joueurs/d’un coup indique une nouvelle place/les ordonnant comme pour une figure de danse». Chamou-lhe La Balle e, aceitemos que, também por acaso, vinte cinco anos mais tarde, Enrique Pichon-Rivière, entretanto a estudar medicina em Rosario, Argentina, país para onde Alphonse e Josephine tinham emigrado, se deixou de tal forma fascinar pelos versos de Rilke que um dos temas da sua tese em psicologia e psicanálise se intitulou: ‘La Pelota’, sob a derivação de ‘A Bola é o Conteúdo de uma Mensagem’.

Antes de se tornar numa personagem de referência e num professor distinto, ElFrancesito, como os amigos lhe chamavam, tratou de fundar um clube na cidadezinha de Goya, onde passou grande parte da infância: Futbol Club Benjamín Matienzo. Por via da sua personalidade imponente, não se contentava em ser o ideólogo da equipa como fazia questão de ser o melhor jogador e o que marcava mais golos. Os camaradas achavam-lhe graça. Alimentavam-lhe a vaidade. Goya fica na margem leste do RioParaná e tem fama de produzir um dos queijos mais mal cheirosos do mundo. Benjamín Matienzo foi o pioneiro da aviação na Argentina e morreu ao tentar atravessar os Andes num pequeno Neuport 28, um brinquedo que se despenhou numa montanha a 4000 metros de altura. Sobreviveu à queda mas não ao frio. Encontraram os seus restos quebradiços como um bloco de gelo. Desafiava o mundo com uma frase que Enrique também adotou: «Hay que tener calle!». Nós, por cá, preferimos dizer: ter mundo. El Francesito tratou de reforçar o lema quando começou o seu trabalho de professor de comportamentos junto de uma comunidade de mulheres polacas de Rosario que se dedicava à prostituição no bordel mais requisitado da cidade: «Hay que tener calle, hay que tener noche y hay que tener cancha». A rua, a noite e os campos de futebol foram seus mestres. Mas, diz a vã filosofia, às vezes não se pode confiar nos mestres...

Para o professor Pichon-Rivière, o futebol representava uma forma lúdica de vida, sábia, sagrada e ao mesmo tempo profana, merecendo a mesmíssima atenção do que a arte ou a sua ciência de investigação. Fez questão de juntar ao seu currículo o curso de antropologia e defendeu que a esfera é provavelmente o mais antigo dos símbolos que a Humanidade tentou dominar. Promovia desafios entre os seus doentes esquizofrénicos e, numa das suas obras, chamada, aqui de certeza não por acaso, Ganándole por un Gol a la Muerte, dissertou sobre as memórias mais distantes: «Não me esquecerei nunca que por entre todas as coisas fascinantes que vieram connosco da Europa, primeiro num navio, depois num comboio e, finalmente, numa charrette, vinha uma bola de couro. Ela tornou-se no deslumbramento de todas as crianças locais, sobretudo dos de origem guarani, com os quais compartilhei as aventuras da infância e a doçura das duas línguas, o francês e o guarani».

Enrique criou o hábito de organizar anualmente um jogo entre mestres e alunos da Asociación Psicoanalítica de Buenos Aires. Logo no primeiro deles, a poucos minutos do fim, arrancou um penálti forçado com o resultado em zero-a-zero. Com o seu bigode branco de catedrático, pegou na bola e foi calmamente ter com o guarda-redes seu discípulo. Discorreu sobre o caráter amistoso do confronto, da democracia saudável entre os corpos docente e discente, e propôs-lhe: «Yo voy a patear. ¿Cuál es tu mejor lado?». E o jovem, na sua boa-fé: «El derecho». «Bueno», concluiu o Francesito, «yo pateo a la derecha, vos atajás, el partido termina, y vamos todos a comer un asado». 

O árbitro apitou, o keeper lançou-se confiado para a direita e Don Enrique chutou para a esquerda. Irritado com o golo sofrido e com a derrota, o moço espinafrou-se. Então, o mestre terminou a lição: «Hoy se trataba de ganar. Y siempre se puede aprender una lección: Nunca confíes en tus maestros». 

afonso.melo@newsplex.pt