Internacional

Arábia Saudita e a limpeza da casa real

Com o rei Salman envelhecido, o seu herdeiro, Mohammed Bin Salman, prendeu o tio e os primos, os únicos que poderiam desafiar a sucessão.

O príncipe herdeiro da coroa saudita, Mohammed bin Salman (MBS), deixou bem claro que não aceita dissidências na sua corte, nem sequer da parte dos seus poderosos primos e tios. Afinal, o seu pai, o rei Salman bin Abdulaziz Al Saud, já tem 84 anos, e MBS prepara-se para lhe suceder. Consolidou o seu poder ao mandar deter o irmão mais novo do pai, Ahmed bin Abdul Aziz, e os dois filhos deste, os príncipes Ahmed e Mohamed bin Nayef, até agora considerados intocáveis – aliás, Mohamed foi o príncipe herdeiro até 2017, quando foi afastado por decreto real.

À primeira vista, parece um mau momento para Bin Salman pôr ordem na casa real. Por um lado, a intervenção saudita no Iémen, em que MBS teve um papel decisivo, não está a correr nada bem: os rebeldes houthis tomaram várias cidades na fronteira com a Arábia Saudita ainda esta semana. Por outro, o receio do Covid-19 levou ao cancelamento das peregrinações a Meca – a fonte de legitimidade para a casa Saud, como guardiões dos lugares sagrados – pouco antes do Ramadão. Piorando a situação, Ríade e Moscovo não se entenderam e a Arábia Saudita retaliou inundando o mercado petrolífero, levando o preço do petróleo, principal fonte de rendimento saudita, aos níveis mais baixos desde a primeira Guerra do Golfo (ver texto ao lado).

Contudo, o motivo para esta guerra do petróleo e a purga real pode muito bem ser o mesmo, considera Ana Santos Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-NOVA), especializada no Médio Oriente. «O que ele tem feito são iniciativas de afirmação de poder, de que é ele quem determina o futuro da Arábia Saudita», a nível interno e externo, assegura a investigadora.

É que a possível chegada de Bin Salman ao trono – o Middle East Eye avançou que pretende fazê-lo antes de novembro – seria tudo menos típica: o príncipe herdeiro tem 34 anos, e há quase cinco décadas que ninguém da sua dinastia é coroado antes dos 60 anos. «Isto exige alguma afirmação, é um fator que para ele pode mostrar fragilidade», explica Ana Santos Pinto. Além de que a longevidade de um governante jovem põe em causa a complexa rotação do poder entre fações da corte real.

 

Filhos e netos de Ibn Saud

De fora, não é fácil perceber o funcionamento interno da Arábia Saudita, onde as decisões são tomadas num contexto de feudos familiares e divisões tribais. A estimativa é que a família real saudita, extremamente prolífera, tenha uns 15 mil elementos, dois mil dos quais têm um poder económico significativo, dividindo entre si as receitas do petróleo. Mas esta divisão é mediada por um grupo muito restrito, que por sua vez divide entre si o poder político. Os mais poderosos são descendentes dos chamados sete sudairi, filhos de Abdulaziz ‘Ibn Saud’, fundador da Arábia Saudita – hoje apenas restam o rei Salman e Ahmed bin Abdul Aziz, detido a semana passada.

«O regime vive desta dimensão de divisão de poder», assegura Ana Santos Pinto, explicando que «os príncipes vão circulando, e a importância das pastas que lhes são atribuídas varia consoante a sua lealdade ao rei».

Historicamente, o ramo sudairi descendente de Ahmed Abdul Aziz está associado às pastas do interior e das secretas – «são os que teriam maior legitimidade para desafiar o príncipe herdeiro», diz a investigadora do IPRI-Nova – e não aceitaram que MBS passasse à frente de Mohamed bin Nayef na sucessão. «O rei Salman convocou Ahmed todos os anos ao palácio, para o convencer a aceitar a subida do filho ao trono», contou uma fonte na corte à Al Jazira. «Mas Ahmed recusou».

 

O velho rei e um bom amigo na Casa Branca

Como em qualquer sucessão dinástica, o timming é essencial. É mais fácil para MBS chegar ao trono com o velho rei vivo, a apoiá-lo, e com um aliado na Casa Branca – o príncipe herdeiro goza de uma excelente relação com a Administração de Donald Trump. «O príncipe Mohammed sente que se não tomar o trono durante o reinado de Trump, nunca terá hipótese», continuou a fonte da Al Jazira. Pode ser uma janela de tempo apertada: Trump pode não ser reeleito em novembro. Caso o próximo Executivo seja democrata, as ações de Bin Salman tornam muito mais difícil para este justificar a manutenção longa aliança entre os EUA e reino saudita.

Inicialmente, MBS foi apresentado como modernizador, prometendo diversificar a economia saudita com o seus plano Vision 2030 e dar direitos às mulheres  Rapidamente mostrou o seu rosto autoritário, mal chegou ao poder: prendeu e torturou quase 400 dirigentes, sauditas no luxuoso Ritz-Carlton de Riade, foi acusado de mandar raptar o primeiro-ministro libanês Saad Hariri e de orquestrar o brutal homicídio do jornalista Jamal Khashoggi – visto como apoiante da fação do tio de MBS, Abdul Aziz.

Tudo isto mostra «uma certa impulsividade» no homem que se propõe a centralizar em si o poder da Arábia Saudita, considera Ana Santos Pinto. Até aqui, esse poder sempre foi repartido entre príncipe regente e rei – um pouco como entre primeiro-ministro e Presidente em Portugal – mas isso mudaria com MBS no trono. «Bin Salman está a preparar essa transição, e a pensar como garantir essa legitimidade, sem um golpe ou um desafio», explica a investigadora. É que no reino saudita «o príncipe regente até se pode mudar, mas o Rei não».