Conta-me como vai ser

O antes e o depois da pandemia

Assistimos já a uma diminuição acentuada do consumo e à falta de liquidez das empresas, ingredientes principais numa recessão económica.


Uma das principais locomotivas da população ativa e da sociedade, senão mesmo a principal, a faixa etária que se situa entre os 40 e os 50 anos, enfrenta, em pouco mais de uma década, duas terríveis crises económicas à escala global: em 2008, rebentou a crise do subprime (a falência do gigante bancário Lehman Brothers e a nacionalização das agências de crédito imobiliário Fannie Mae e Freddie Mac foram marcos decisivos), e agora, o mundo debate-se com a pandemia à escala global provocada pela covid-19, sem que se perceba muito bem neste momento qual a dimensão da derrocada económica que temos pela frente.

Com a falência de um dos principais bancos de investimento do mundo, e o efeito dominó que teve em todo o sistema bancário global, os governos dos países desenvolvidos anunciaram medidas de estímulo às economias e injeções de capital, ao mesmo tempo que os bancos centrais reduziram as taxas de juro para incentivar a atividade económica. Portugal, e outros países europeus, viveria depois a crise das dívidas soberanas, mas graças ao empenhamento de muitos agentes económicos e da sociedade em geral – e aqui não posso deixar de incluir os contabilistas certificados e grande parte do tecido empresarial – assistimos ao renascimento da nossa economia.

Essa evidência está igualmente bem patente nos três principais âmbitos de atividade dos contabilistas certificados, sendo inegável o contínuo crescimento deste setor. De acordo com os dados disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2014, os serviços de contabilidade totalizavam cerca de 786 milhões de euros, a prestação de serviços de consultoria fiscal, 107 milhões e a consultoria de gestão de empresas 1 977 milhões de euros. Em 2018, esses números subiram, respetivamente, para 916, 155 e 2 386 milhões de euros. Em quatro anos, os serviços prestados maioritariamente por contabilistas certificados, apresentavam um significativo aumento de 16,96 por cento, equivalente a cerca de 586 milhões de euros, bem superior a outros setores da economia nacional.

A importância do trabalho dos contabilistas certificados foi cada vez mais reconhecida pelos empresários e pela sociedade em geral. A informação para a sustentabilidade do negócio e para o planeamento estratégico da empresa e a segurança que estes profissionais acrescentam em matéria de impostos e tratamento de obrigações fiscais, representa uma mais-valia inquestionável para qualquer atividade económica.

Não temos ainda dados de 2019, um ano de crescimento para a nossa economia, mas eis que, chegados a 2020, somos confrontados com uma realidade brutal: a pandemia global causada pela covid-19. Em termos económicos, assistimos já, à escala planetária, a uma diminuição acentuada do consumo e à falta de liquidez das empresas, ingredientes principais numa recessão económica. Os governos e bancos centrais têm anunciado medidas draconianas e as empresas preparam-se para o embate que será tão menor quão melhores e mais rápidas forem anunciadas e implementas medidas de resposta aos problemas que já começamos a enfrentar.

Apesar de atual crise ser intrinsecamente diferente da de 2008 e da crise da Zona Euro, não devemos esquecer o passado e as lições aprendidas. Devemos focar-nos nas medidas que motivaram o crescimento económico, mas não podemos descurar igualmente aquelas que acentuaram problemas sociais e políticos para que, neste capítulo, a história não se repita. Fundamental será ainda não esquecer os profissionais que acompanharam e orientaram as empresas durante a retoma económica: os contabilistas certificados.

A centralidade crescente que estava a ser dada à contabilidade e à prestação de contas no contexto das organizações, bem como o seu papel no âmbito da responsabilidade social e ambiental, não deve, em momento de pré-crise, crise e pós-crise, ser esquecido. Pelo contrário, a contabilidade e os seus profissionais têm de ser ouvidos e respeitados, acarinhados e responsabilizados naquelas que são as suas funções, permitindo que os empresários se foquem no crescimento das empresas.

Não tenhamos dúvidas: a simbiose entre medidas governamentais, empresas e contabilistas certificados tem de ser plena. Só com a contribuição harmoniosa destes agentes ultrapassaremos esta crise e retomaremos ciclos de prosperidade.

por Paula Franco
Bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados

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