Uma Páscoa à porta fechada em tempos de pandemia

O Papa Francisco, numa homilia de Páscoa em direto, lembrou os mais vulneráveis e não poupou críticas aos poderosos.

Em tempos de pandemia, esta foi uma Páscoa de isolamento, até para o Papa Francisco. O ano passado, cerca de 70 mil pessoas assistiram à sua bênção Urbi et Orbi – este ano, a Praça de São Pedro estava vazia. Ainda assim, o Papa não estava completamente sozinho: pela primeira vez, os cerca de 1,3 mil milhões de católicos pelo mundo fora puderam assistir à sua missa pascal na internet, onde foi transmitida em direto.

Face ao alastrar da covid-19, o sumo pontífice quer um outro tipo de contágio, o “contágio da esperança”. Apelou a um “cessar-fogo mundial e imediato” e à redução ou anulamento das dívidas de países mais pobres. Mas Francisco não hesitou em ser duro, apontando a mira aos poderosos: pediu solidariedade à União Europeia numa altura em que os países do sul, mais afetados por esta crise, querem emissão de dívida europeia – os chamados coronabonds – e os pacotes de ajuda existentes são considerados insuficientes. 

“Entre as muitas áreas do mundo afetadas pelo coronavírus, penso de forma especial na Europa”, declarou o Papa. Após a ii Guerra Mundial, este continente “conseguiu levantar-se de novo, graças a um concreto espírito de solidariedade”, lembrou Francisco, para quem é urgente que “estas rivalidades não voltem a ganhar força”.

Recorde-se que na quinta-feira, dias antes do discurso do Papa, Bruxelas anunciou um pacote de resgate de 500 mil milhões de euros para os países europeus mais afetados pela pandemia. Pode parecer um montante estrondoso, mas foi uma solução de compromisso: os Países Baixos abdicaram da “vigilância económica” que exigiam aos países do sul – vistos como preguiçosos por muitos holandeses – e países como Itália, Espanha ou Portugal abdicaram, por agora, da exigência dos coronabonds. Mas o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, já avisou que “vai lutar até ao fim”.

 

Desiguais perante o horror “Nestas semanas, as vidas de milhões de pessoas subitamente mudaram”, afirmou o Papa Francisco. “Para muitos, ficar em casa foi uma oportunidade de refletir, de se afastar do passo frenético da vida, de ficar com os seus entes queridos”, assegurou. “Para muitos, contudo, este é também o tempo de se preocuparem com um futuro incerto, com empregos que estão em risco”, lamentou.

O sumo pontífice não esqueceu os mais vulneráveis perante a covid-19, “aqueles que vivem nas periferias, os refugiados e os sem-abrigo”. Se a pandemia põe em risco todos os seres humanos, alguns sofrem mais que outros. “Quão difícil é ficar em casa para aqueles que vivem em casas pequenas e precárias ou não têm teto”, lembrou o papa.

Não que as disparidades no que toca à covid-19 sejam apenas económicas: nos EUA, que se tornaram o novo epicentro da pandemia, com mais de 545 mil casos registados e 21 mil óbitos, verificou-se que as mortes têm sido desproporcionais em termos raciais, devastando a comunidade negra. Entre os motivos avançados para esta tendência estão a prevalência de doenças como a diabetes, um fator de risco para a covid-19, e a falta de acesso à saúde.

“É quase como se pudéssemos ter previsto que quando uma praga como esta chegasse, iria desproporcionalmente afetar aqueles que já estão sob o cerco da violência económica”, lamentou o reverendo Marshall Hatch, de Chicago. Esta Páscoa, já perdeu a irmã e o melhor amigo, contou à BBC. O seu bairro, West Garfield Park, predominantemente negro, tem uma esperança média de vida 16 anos inferior a outro bairro, maioritariamente branco, a menos de 5 quilómetros de distância.

 

“Deus vai proteger-nos” Se esta Páscoa a quarentena foi cumprida à risca no Vaticano, esse não foi o caso de muitas congregações cristãs noutros cantos do mundo.

“As pessoas continuam a vir rezar nestes tempos difíceis. Se elas acreditarem, serão salvas”, garantiu Caio Miranda, dirigente da Igreja Universal do Reino dos Céus, ao Financial Times. Tinha um terminal de multibanco na mão, pronto para receber as doações dos fiéis que foram à missa no Templo de Salomão, em São Paulo. Foi uma das muitas cerimónias religiosas consideradas essenciais pelo Presidente Jair Bolsonaro – para fúria de governadores brasileiros.

Entretanto, nos EUA, esforços para proibir cerimónias religiosas presenciais também têm saído gorados. Oito estados classificaram-nos como serviços essenciais, enquanto,, noutros as restrições foram simplesmente desafiadas. “Deus vai proteger-nos de todo o mal e doença”, assegurou o reverendo Tony Spell, da Igreja Tabernáculo da Vida, no Louisiana, à Reuters – esperava que milhares de pessoas estivessem presentes na sua missa de domingo, apesar da proibição de encontros com mais de 50 pessoas.