Quatro irmãos em quatro países

‘La pasta’ não pode faltar

O isolamento social começa a ser longo, mas nós vamos arranjando forma de nos entreter e, acima de tudo, de preservar a nossa sanidade mental. São cada vez mais frequentes os episódios caricatos. Alguns, no mínimo, originais. O mais peculiar dos últimos dias é protagonizado por casais a passear na rua completamente nús, tendo como único acessório a máscara. 

por Joana Moreira da Cruz

O primeiro-ministro Giuseppe Conte anunciou que o país dará início à fase 2 no dia 4 de maio. A partir dessa data, as pessoas terão mais liberdade nas deslocações, sempre com máscara e luvas, não podendo, no entanto. sair da região onde residem. As únicas exceções são por motivos laborais ou de saúde. As empresas e fábricas do norte do país vão reabrir também nessa data. Apesar da pressão feita por parte dos pequenos comércios, até nova ordem, estes permanecerão fechados. Quanto à escola, só mesmo em setembro.

O isolamento social começa a ser longo, mas nós vamos arranjando forma de nos entreter e, acima de tudo, de preservar a nossa sanidade mental. São cada vez mais frequentes os episódios caricatos. Alguns, no mínimo, originais. O mais peculiar dos últimos dias é protagonizado por casais a passear na rua completamente nús, tendo como único acessório a máscara. Sim, sim, leram bem! Quando a Polícia lhes pede os documentos os vizinhos à janela gritam: 

- Documentos, quais documentos?! Não vêm que eles estão nUs? Não têm sítio para guardar o cartão de identidade!

Não me vou alongar nos detalhes sórdidos nem escrever os palavrões lançados às autoridades. Parece uma cena de uma comédia italiana bem apimentada. Entre risada, gritaria e incredulidade fico sem saber se estes atos são uma provocação ou fruto da situação ‘anormal’ que vivemos.

Os homens precisam de estar ocupados e sentir-se utéis. E eu consigo sempre ter ideias para pôr o meu marido a trabalhar! Mas desta vez a iniciativa foi dele. Decidiu arranjar a pérgula da varanda e eu concordei. Primeiro passamos a lixa nas traves de madeira e depois pusemos o verniz, em duas camadas. Ficou como nova! Agora dá gosto sentar-me na cadeira de baloiço a olhar para a pérgula. 

A varanda dá para um pátio interior onde se alinham as garagens, uma para cada condómino. Há dias que venho a reparar em crianças, cerca de oito, que chegam ao pátio ao fim da tarde. Trazem raquetes e bolas. Jogam, brincam, divertem-se. Descontraídas e despreocupadas. Ocupam o espaço outrora vazio. Começo a conhecer alguns rostos e até os nomes que vou ouvindo ecoar. Não são sempre as mesmas crianças todos os dias. Parece que se organizam para evitar serem demasiadas ao mesmo tempo. Até agora nunca houve briga nem zaragata. De repente, senti uma vontade de ser criança de novo. De jogar ao ‘Mata’, à ‘Linda Falua’, ao ‘Macaquinho do Chinês’ ou à ‘Mamã dá licença’. 

Desde que ficámos em isolamento sou sempre eu quem vai às compras. Antes não gostava muito e adiava a ida ao supermercado. Conseguia sempre arranjar maneira de cozinhar com os poucos alimentos que tinha em casa. Mas agora até isso mudou. Fico desejosa por ter um motivo para sair. Ir às compras passou a ser quase tão bom como ir ao cinema. Vou uma vez por semana de carro. Levo máscara e luvas. Espero à porta a minha vez para poder entrar e guardo a distância. Uma vez dentro da loja, encontro tudo o que preciso, desde fruta e legumes frescos até peixe ou carne. Por enquanto, não falta nada. 

Esta semana, quando estava na fila da caixa vejo, à direita, umas cordas de saltar penduradas Nem hesitei! Tirei uma. Depois voltei para trás e fui buscar outra para o meu marido. Assim que cheguei a casa e mostrei as cordas, e o meu marido apressou-se a perguntar:

- ‘La pasta’?

Claro que não me tinha esquecido. Nenhum italiano que se preze sobrevive sem massa. Pendurei a minha corda na porta da cozinha e olhei para ela a pensar ‘será que ainda sei saltar?’

Na manhã seguinte, logo após o pequeno-almoço, estava pronta para descer ao pátio com a corda na mão. Feliz como nos tempos de escola quando a campainha tocava para o recreio. O pátio estava deserto. A princípio, saltava timidamente. Fui ganhando confiança e percorri o pátio na diagonal, sempre aos saltos. A corda de sisal é resistente e eu gosto do barulho que faz ao bater no chão. Vi uma criança que me espreitava pela vidraça. 

Aquele lugar aos poucos ganhou uma nova dimensão. Deixou de servir apenas de acesso às garagens e passou a ser palco de pura diversão. Vou voltar. Está combinado!