Sociedade

Vida Selvagem. 150 anos depois, é seguro dizer: há ursos-pardos na Galiza

As imagens de um urso-pardo a vaguear por vários locais do Parque Natural O Invernadeiro, na Galiza, foram captadas pelas câmaras de uma produção cinematográfica. Há 150 anos que não era avistado um exemplar na zona.

Quando a equipa do filme Montanha ou Morte (Montaña ou Morte) montou arraiais no Parque Natural O Invernadeiro, na Galiza, já lá vão dois anos, estava longe de imaginar que as suas câmaras iriam captar um momento inédito. O protagonista inesperado desta história foi um urso-pardo, com uma idade estimada entre três a cinco anos, que apareceu a vaguear placidamente pelo dito parque e acabou por aparecer nas rodagens da película dirigida pelo cineasta Pela del Álamo.

Foi a primeira vez , em 150 anos, que foi avistado um exemplar, escreveu o jornal galego Diario de Pontevedra, que avançou a notícia no passado dia 1 de maio. «O exemplar é o primeiro a ser filmado na zona e provavelmente o primeiro que transita nesta comarca nos últimos 150 anos», confirmou a equipa do filme, que agora está em fase de pós-produção, ao mesmo jornal. O animal terá viajado entre a serra do Courel e até Ourense, diz o parque, que garante que o urso-pardo, um macho, passou este inverno por ali. «Após anos de trabalho, a preservação do espaço protegido de O Invernadeiro permitiu que o urso-pardo encontrasse um habitat adequado», acrescentam num comunicado citado pela mesma publicação. 

As imagens captadas pelas câmaras que tinham sido instaladas para captar cenas da vida selvagem da montanha acabaram por tornar-se numa parte central da película e num documento histórico. 

Desde 1973 que os ursos são espécies protegidas em Espanha, e sobrevivem em pequenas bolsas da população no norte do país, especialmente na Cordilheira Cantábrica, onde há cerca de três centenas de ursos, embora também subsistam exemplares nas Astúrias e nos Pirenéus.

O facto de o exemplar filmado ser um jovem macho coaduna-se com o comportamento típico da espécie - as fêmeas são filopáticas – reproduzem-se próximo ou no sítio onde nasceram. Já os machos têm tendência para a filopatria, ou seja, para se dispersarem, como terá acontecido agora com o urso filmado n’O Invernadeiro, próximo da fronteira com Portugal.

Uma presença cada vez mais próxima 

Em fevereiro do ano passado, Carlos Aguiar, professor da Escola Superior Agrária de Bragança, publicou no Facebook uma fotografia do que aparentava ser a pegada de um urso. A imagem captada na região do Barroso, Trás-os-Montes, suscitou dúvidas. Três meses depois, em maio, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) confirmou a presença de um urso-pardo no Parque Natural de Montesinho, em Bragança. O animal que chegou a ser avistado deixou outras provas da sua presença, entre as quais pêlo e dejetos. E ‘visitou’ ainda várias colmeias da região, perto da fronteira espanhola, tendo consumido mais de 50 quilos de mel.

O urso-pardo, que terá atravessado a fronteira no final de abril, permaneceu até maio do lado de cá. Contudo, o ICNF não conseguiu confirmar se a pegada captada em fevereiro pertencia ao mesmo exemplar cuja presença foi depois confirmada em maio, explicou na altura Armando Loureiro, diretor do Departamento Norte do ICNF, ao jornal i. «O ICNF não confirmou da outra vez que, de facto, aquela fosse uma pegada de urso. Podia ser e nós não conseguirmos confirmar materialmente que fosse», disse, acrescentando que, nos próximos dez anos, é provável que estes episódios se tornem mais frequentes.

A espécie é considerada extinta em Portugal desde 1843, ano em que o último exemplar foi abatido no Gerês, relata o livro Crónica da Extinção do Urso-Pardo em Portugal (Bizâncio, 2017), um trabalho de investigação de Paulo Caetano, jornalista na área do ambiente e de Miguel Brandão Pimenta, especialista da área da conservação da natureza e autor do projeto do Centro de Recuperação da Fauna do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Segundo os autores, as montanhas do Gerês foram, efetivamente, o último habitat em que a espécie se reproduziu em Portugal. A presença de animais cada vez mais perto da fronteira é encorajadora mas não significa, ainda assim, que a espécie vá voltar.