O Mundo em Calções

O urubu do Frangueiro de Pádua

Zvonko Monsider fugiu da Jugoslávia de Tito e aprendeu com Guttmann a ser um trota-mundos. Mas era perseguido por uma sombra.

Os brasileiros gostam de dizer que sobre a trave de cada baliza pousa um urubu. Negro, tétrico, espera que os guarda-redes se tornem cadáveres, mesmo que cadáveres adiados. Todos os guarda-redes morrem de vez em quando atacados por outra ave, o frango. Sim, o frango não voa, mas pode ser assassino. Quando é assassino em série, como nos filmes, chamam-lhe peru. E o urubu lá no alto, pousado na trave, atraindo a infelicidade na sua pose soturna de velho juiz conselheiro.

Zvonimir Monsider era um daqueles guarda-redes capazes de fazer a felicidade de qualquer urubu. Chamavam-lhe Zvonko, como diminutivo, mas não havia nada de diminuto nele. De tempos a tempos, a imprensa apelidava-o de Tigre, e aí o urubu ficava longe e era apenas ele, Zvonko, e a sua pequena glória. Em 1950, Zvonko Monsider estava em Pádua. O seu treinador era um húngaro trota-mundos:_Béla Guttmann. Diziam que era um mago. Com Guttmann até o o pobre Pádua podia sonhar em ser campeão de Itália. Lutou por isso, ombro a ombro com a Juventus e o Torino, durante a maior parte do campeonato de 1949-50. Mas até os magos têm as suas fraquezas. Uma série de oito derrotas consecutivas fizeram Guttmann cair do plinto da estátua que estavam dispostos a erguer-lhe nessa cidade do Veneto que disputa com Lisboa o orgulho de ser dona de um frade franciscano que andou com o menino-Deus ao colo. Pior: acusaram-no de ter recebido luvas no negócio de empréstimo feito pela Lazio e que trouxera Zvonko de Roma. O mago foi proibido de treinar durante seis meses pela federação italiana e rumou ao ainda mais modesto Triestina. Monsider só jogou sete vezes pelo Pádua. Saiu com Guttmann e foi para a Hungria, para o Hungaria, levando atrás de si a fama de frangueiro. O Frangueiro de Pádua.

Armando Nogueira é um dos grandes cronistas da língua portuguesa. Um daqueles cronistas solitários como um guarda-redes que tem um urubu pousado na trave sobre a sua cabeça. Nessa solidão de cronista, escreveu: «Diante do olhar pretensamente isento do cronista, desfilam o lírico, o patético, o cômico, o grotesco, o trágico, o sublime. Na batalha do esporte, o homem ama, glorifica, odeia, castiga e perdoa. O que me fascina no futebol é a incerteza do jogo. E tudo que é jogo é lúdico. Tudo que é lúdico é poético».