Sociedade

O banco já não é de candé, mas não está vazio

Bruno Candé foi alvejado em plena Avenida de Moscavide. Quatro ou cinco tiros. Caiu do banco e a Pepa fugiu.

Naquele banco, em plena Avenida de Moscavide, costumava sentar-se um homem. Era assim praticamente todos os dias. Ao lado, um rádio para ouvir música e à sua frente, no chão, deitava-se a cadela Pepa, uma labrador preta. Também era hábito ir buscar cerveja ao café de sempre, a uns passos dali. Bruno Candé tinha 39 anos e acabou por morrer naquele banco, passavam poucos minutos da uma da tarde, no dia 25 de julho. 

Ao primeiro tiro, o corpo que estava sentado caiu de imediato no chão e a Pepa fugiu, correu assustada em direção a casa, no Casal dos Machados. Seguiram-se mais três ou quatro tiros, o suficiente para que todas as pessoas que estavam naquela que é a avenida mais movimentada de Moscavide se juntarem ao pé do banco onde foi cometido o homicídio. "Foi questão de segundos, nós ouvimos um tiro que não parecia de uma pistola normal, olhámos e vimos o tal velhote com a arma apontada ao rapaz, que nós já não conseguíamos ver, porque ele estava já caído no chão. E é então que o homem acaba por descarregar o resto dos tiros. Foram quatro ou cinco tiros", descreveu um dos comerciantes. 

O corpo de Bruno ainda mexia quando o homem que disparou os tiros sobre si fez o que quem estava ali considerou ser de maior frieza: "Quando faz aquele trabalho, mete a pistola no bolso do lado esquerdo e segue no passeio como se nada fosse com ele". "É um animal, isto não se fazia nem a um animal, muito menos a um ser humano", diz a mesma pessoa que, por segurança, pediu para não ser identificada.

Os funcionários da ourivesaria Brasil e da pastelaria Flórida foram em direção ao homem de 78 anos quando perceberam que este se preparava para tirar novamente a arma do bolso. Imobilizaram-no chão e ataram-lhe as mãos com o seu próprio cinto. "Ele ainda desamarra uma vez o cinto e eles voltam a amarrá-lo", completou uma das testemunhas. Os agentes da PSP e o INEM chegaram e só aí é que, dizem os que lá estiveram, tiveram consciência de que Bruno Candé estava morto. "Juntaram-se ali muitas pessoas e começaram a chamar ao velho assassino e nomes para dentro do carro e ele ainda começou a fazer gestos para provocar essas pessoas. O agente, para evitar essa situação, pôs-se a tapar o vidro daquele lado para acalmar a situação", descreveu. O homem foi levado pela PSP, o corpo de Bruno foi levado pelo INEM e a avenida esteve interdita ao trânsito até ao final da tarde.  

 

Desavenças ou cor da pele?

O cenário em que ocorreu o homicídio de Bruno Candé, pai de três crianças, ator na companhia Casa Conveniente, tendo participado também numa novela exibida em 2015, ficou marcado pela frieza de um homem de 76 anos que todos dizem não conhecer. O autor dos disparos passava de vez em quando, na rua, mas não falava com ninguém, dizem os comerciantes. 

As motivações estão, no entanto, a colocar as opiniões nos extremos. Uns dizem que Bruno Candé foi morto por motivos racistas, outros rejeitam essa ideia. O caso foi entregue à Polícia Judiciária que está a investigar o crime, tendo já sido ouvido o autor dos disparos, que negou motivos racistas. No entanto, a hipótese de se tratar de um crime racial não foi afastada pelos inspetores. O homem de 76 anos está a aguardar julgamento em prisão preventiva – medida decretada pelo Tribunal de Loures esta segunda-feira – e, além do crime de homicídio, deverá responder também pelo crime de posse de arma ilegal.  

Há um facto com o qual todos aqueles que conheciam Bruno concordam: o seu amor pela cadela Pepa. "Tratava-a como se fosse filha dele, não deixava que ninguém lhe desse comida, nem gostava que lhe fizessem festinhas sem pedir autorização. E a cadela não o largava", diz uma das testemunhas do caso. Uma das teorias descritas pelas pessoas que passam os seus dias ali e estavam habituadas a ver Bruno sentado, todos os dias, no mesmo banco, passa pelas desavenças entre os dois. O funcionário de uma das lojas contou ao SOL que tudo começou exatamente por causa da cadela do ator: "O homem deve ter batido no cão algum dia e disse-lhe que não podia ter ali a cadela". As desavenças terão começado a partir daí, com trocas de palavras entre os dois. O proprietário de um dos cafés defende mesmo que Bruno "assinou a sentença de morte quando respondeu ao outro". 

A família de Bruno Candé, em comunicado, explicou que "o seu assassino já o havia ameaçado de morte três dias antes, proferindo vários insultos racistas". Os insultos racistas são, aliás, confirmados por quem convivia naquela rua com Bruno. Uma das testemunhas que garante que a vítima nunca arranjou confusão, "mesmo quando bebia uns copos a mais", contou que dias antes do homicídio, o homem de 76 anos terá insultado Bruno com palavras como "volta para a tua terra" e terá insultado a sua mãe. Além de o ameaçar dizendo que tinha uma arma do Ultramar. "Era um homem mau, e se o Bruno fosse branco e tivesse óculos, ele ia chamar-lhe caixa de óculos e matava-o na mesma. Houve racismo, mas não o matou porque era preto", disse uma mulher que costumava falar com Bruno todos os dias e ouviu da sua boca os relatos dos insultos que sofrera. "Ele morreu e isso é que é muito triste. Acho que existe muito aproveitamento que vai desaparecer daqui a uns dias. E, olhe, ele continua morto", acrescentou. 

 

"Não sabíamos que era ator"

Esta semana, o assunto não mudou na Avenida de Moscavide. Quem viu Bruno a morrer não consegue esquecer e quem não viu, pergunta como é que aquilo aconteceu. E descobrem-se outras coisas. Ninguém sabia que Bruno era ator. "Ele vinha aqui todos os dias e nós não sabíamos que ele era ator, nunca disse nada, nunca. Ele não queria ser conhecido por isso, acho que ele queria ser só o Bruno", disse uma das testemunhas. O ator de 39 anos vivia agora no Casal dos Machados, mas já tinha passado pela Zona J, em Chelas. E, como explicou a família em comunicado, há dois anos sofreu um acidente de bicicleta, por atropelamento, tendo ficado com marcas do lado esquerdo do corpo e com um atestado de incapacidade. "Há também quem diga que ele já se tinha metido em confusões antes, se é verdade ou não, não sei, mas aqui nunca cometeu crime nenhum", contou uma das pessoas que viu Bruno morrer. O banco onde se costumava não está vazio. Quem passa, para e fixa o olhar e são muitos os que têm ido deixar flores.