Viagens na minha Terra

Pedras Salgadas e Vidago, porque a felicidade existe

Sílvio Cervan recorda as férias da infância nas Pedras Salgadas, onde aprendeu a andar de bicicleta e a cavalo, e o Vidago, onde deu os primeiros passos como golfista, e onde passou o passado mês de agosto. Dois destinos que, advoga, continuam a ser obrigatórios...

por Sílvio Ceevan

A vida dá muitas voltas, mas voltamos sempre física e emocionalmente aos sítios que nos deixaram (as) marcas.

Desde que nasci, os meus avós maternos faziam férias (termas) nas Pedras Salgadas.

Eram 21 dias (ou 15) de pura terapia, e, mesmo os avós mais austeros quebravam nos mimos com tanta oferta de prazeres.

Aprendi a soletrar, com livros infantis lidos nos bancos daquelas sombras paradisíacas.

Aprendi a andar de bicicleta naquele parque, entre a entrada junto à Fonte Preciosa e a saída junto à Fonte D. Fernando.

Aprendi a andar a cavalo, montando o Teimoso, no hipódromo das Romanas.

Aprendi a nadar na piscina das Pedras, agora inexplicavelmente destruída.

Aprendi a trepar às arvores em muitas das que estão espalhadas pelo frondoso parque das termas.

Joguei minigolfe milhares de vezes e fugi para Vidago para ter as minhas primeiras experiências de golfista de algibeira.

Passear de barco no lago ou simplesmente mergulhar com o Pai na piscina eram rotinas apreciadas.

Até nos torneios de sueca termais, o meu parceiro era o Padre de Fão, que ajudaria na batota da noite a diminuir os pecados do dia.

Ainda hoje, no topo desses pecados, daqueles que justificam o risco, está a subir à amoreira de Bornes e comer as melhores amoras do mundo, mesmo com a certeza que quando chegava à Sala de Jantar do Grande Hotel tinha descompostura pela sujidade dos polos cheio de nódoas saborosamente vermelhas daquelas amoras de pecado. O arregalar de olhos sorridente do avô ou o abanar de cabeça da mãe, nunca foram travão para tamanho prazer.

Cada ano chegado era um novo mundo de coisas a descobrir, ou simplesmente outra vez as mesmas maravilhas até porque o quarto tinha que ser o 214.

Subir à Padrela para ver Gaviões com o Tio Fim-Zé, ou descer a Monteiros para ver a nascente do Rio Avelames. Fugir dos pais, para apagar o incêndio até às costas do Hotel Palace em Vidago como se aprendiz de bombeiro se tratasse. Tudo acontecia no sítio onde aconteciam as coisas.

Aquilo sim, era viver. Havia coisas todos os anos. Sempre fantásticas, sempre diferentes ou sempre fantasticamente iguais.

As natas do café Avenida estavam longe de ser as melhores, mas no intervalo duma partida de ténis ou de um mergulho na piscina foram até hoje as que melhor me souberam.

Deixar a bicicleta, ou sair do court de ténis e parar na D. Fernando, na Preciosa ou na Pedras Salgadas pedir um copo de água ‘milagrosa’ a sair da fonte, de forma não autorizada, em troca de um sorriso cúmplice são ilicitudes que deixam saudades.

Era o sobrinho da médica, e isso retirava ilicitude às irregularidades médico-termais.

Aquele borbulhar não era transparente era transcendente. Aquele PH era superlativo.

Os anos passaram e não houve um somente até à morte aos 99 anos do meu avô, que Pedras Salgadas ou Vidago não fizessem parte do meu destino obrigatório.

É lá que se descansa, é lá que nos cansamos com qualidade e é lá que tudo acontece como nós sonhamos.

Descobri naqueles bancos de jardim os 40 volumes de mistério da Agatha Christie, muitos dos clássicos, como anos mais tarde estudei para exames de faculdade. Sempre com sucesso, porque existir ali é dos melhores sucessos a que se pode aspirar.

No último ano passado festejei o meu aniversário, com os amigos de uma vida, escolhi o Hotel Palace em Vidago, porque estava a festejar a vida que tive, a vida que valeu a pena, a vida como ela é.

O embaixador Seixas da Costa, amigo daqueles que ainda aprecia o que é bom e não desiste do que vale a pena, tem lutado para que muita desta alma não desapareça nas mãos de um mundo de muitos cifrões e de alguns aldrabões.

Aqueles dois parques termais, separados por 10 minutos de caminho, são ainda hoje refúgio obrigatório.

Adivinhem, pois, em tempo de pandemia, para onde fugi uns dias em agosto, no medo do conhecido vírus?

Pois o quinino da água tónica que acompanha o gin naquela piscina de Vidago mantém longe qualquer covid mais atrevido. Pois até o ténis a mais de 35 graus parecia saudável e passear de bicicleta com a minha filha devolve-nos o direito a eternidade.

E depois há sempre o Restaurante Carvalho a 15 minutos na velha estrada para nos dar o melhor arroz de fumeiro do mundo, entre tantas outras delícias gastronómicas.

Ernest Hemingway diz que, em África uma coisa é verdade ao amanhecer e mentira pelo meio dia, para mim aqueles parques, aquele espaço é a verdade em absoluto.

Talvez porque aquelas terras sejam na essência como o magnífico granito que produzem autênticas e únicas verdades.