Internacional

Delphine Boël. A filha ilegítima que se tornou princesa aos cinquenta

Passados sete anos de luta em tribunal, Delphine Boël conseguiu ser reconhecida como filha do ex-monarca belga Alberto II e ganhou o título de princesa. Mas este não um caso único. Ao longo dos anos, foram muitos os que vieram a público alegar ter sangue real a correr nas veias. Algumas histórias confirmaram-se, outras nem por isso, e outras nunca chegaram a ser verificadas.

Os escândalos e revelações dos últimos anos têm contribuído para deitar por terra a ideia de que os membros da realeza têm casamentos perfeitos. A verdade é que muitos reis ‘saltam fora da cerca’ e são conhecidos vários casos de traição nas famílias reais. Mas, apesar de os triângulos amorosos já serem polémicos, é quando as histórias se transformam em quadrados familiares, com filhos bastardos ao barulho, que se instala o verdadeiro caos.

O caso mais recente tem como protagonista a artista plástica Delphine Boël. A primeira referência a uma filha ilegítima de Alberto II, que reinou os belgas entre 1993 e a sua abdicação em 2013, surgiu numa biografia não autorizada da sua mulher, a rainha Paola, publicada em 1999. Seis anos depois, em 2005, a artista vinha a público identificar-se como a bebé referida na biografia, algo que o ex-monarca negou sempre. Alberto II nunca admitiu ter tido qualquer descendente fora do casamento, reconhecendo apenas que a sua união com Paola sofrera uma crise nas décadas de 60 e 70. 
Depois de ter abdicado do trono a favor do seu filho Filipe, corria o ano de 2013, Alberto perdeu a imunidade perante a Justiça belga – o Rei está escudado de qualquer responsabilidade jurídica – e Delphine viu finalmente uma oportunidade para forçar o ex-monarca a realizar um teste de ADN.

Em maio de 2019, depois de ter passado o prazo para submissão da amostra de ADN, a Justiça belga foi dura: por cada dia que o alegado pai negasse submeter-se ao teste, deveria pagar 5 mil euros. Alberto não teve como escapar, e a amostra de ADN recolhida veio comprovar as afirmações de Delphine desde 2005. A reação chegoua 27 de janeiro de 2020, num comunicado emitido pelos seus representantes: Sua Majestade o Rei Alberto II tomou conhecimento dos resultados da amostra de ADN a que se dispôs por solicitação do tribunal re recurso de Bruxelas. As conclusões científicas indiquem que é o pai biológico da senhora Delphine Boël».

Delphine foi o fruto de uma longa relação conjugal de Alberto com uma baronesa, Sybille de Sélys Longchamps. Embora a baronesa tivesse garantido ao real amante não ter de se preocupar uma vez que ela não podia ter filhos, em 1968 acabou mesmo por engravidar. Assumida pelo barão, só aos 15 anos Delphine soube, pela mãe, quem era o seu verdadeiro pai. A revolta começou logo aí, mas a luta pelo reconhecimento só pôde começar muito mais tarde, depois de Alberto abdicar.

A epopeia judicial durou sete anos. A artista plástica é agora reconhecida não só como filha do antigo Rei mas também como princesa dos Belgas. Apesar de o título «não substituir o amor de um pai, oferece um sentido de justiça», disse o advogado da artista, Marc Uyttendaele, em declarações à France-Press. Uyttendaele afirmou também Delphine Boël está feliz por ser tratada «em pé de igualdade com os seus irmãos e irmãs» e por este «longo e doloroso processo» ter chegado ao fim.

Delphine recebe o título Saxe-Coburgo Gotha, mas não vai desempenhar qualquer papel na monarquia belga. Diz que não espera mais nada e não pede mais nada. E rejeita até receber o tratamento real a que tem direito. 

Os Bastardos Oficiais da Monarquia Portuguesa

As infidelidades no casamento e os filhos ilegítimos foram uma realidade sempre presente na monarquia portuguesa. Dos 32 reis que Portugal teve, seis não tiveram filhos, segundo os testemunhos históricos. Dos restantes 26, apenas dois não tiveram filhos bastardos: D. Manuel I e D. José I. Ao contrário do que vem acontecendo em tempos mais recentes, os reis portugueses reconheciam os filhos ilegítimos e não deixavam de lhes atribuir cargos importantes e de ter com eles uma relação próxima. Um filho ilegítimo na realeza «era sinónimo de saúde e de vigor do rei», dizem Ana Cristina Pereira e Joana Pinheiro de Almeida no livro Traições, Poder e Bastardos Reais (ed. Manuscrito), que traça o percurso dos filhos fora do casamento dos Reis de Portugal. Perante a corte, o filho bastardo era para todos os efeitos um infante.

Ao contrário das amantes, cujo nome muitas vezes não ficou para a História, alguns filhos bastardos chegaram mesmo a ter um papel de destaque. O maior exemplo é o de D. João I, filho bastardo de D. Pedro I com Teresa Lourenço, que assumiu o trono depois da crise de 1383-1385, dando início à dinastia de Avis.

Mas houve muitos outros bastardos ilustres. Jorge de Lencastre (1481-1550), filho ilegítimo de João II com Ana de Mendonça, foi o 2.º Duque de Coimbra desde 1509, grão-almirante de Portugal, 13.º Mestre da Ordem de Santiago e 9.º Administrador da Ordem de Avis.

Também os filhos bastardos do sexo masculino de D. João V de Portugal (1706) são um bom exemplo. Foram designados como Meninos de Palhavã – residindo no palácio com o mesmo nome, hoje a embaixada de Espanha – num documento assinado no ano de 1742 e publicado em 1752, após a sua morte. O Rei garantia que eram os três de «mulheres limpas de todo sangue infecto», pelo que pedia ao príncipe herdeiro para favorecer os irmãos. D. António (1704-1800) doutorou-se em Teologia e tornou-se Cavaleiro da Ordem do Nosso Senhor Jesus Cristo. D. Gaspar tornou-se arcebispo de Braga. E D. José exerceu o cargo de Inquisidor-Mor do Reino.


Alberto do Mónaco. Veterano a lidar com filhos ilegítimos
Alberto do Mónaco, atualmente com 62 anos, sempre deu que falar. Filho de Grace Kelly e Rainier, o ‘príncipe playboy’, como foi apelidado durante muitos anos, só decidiu dar o nó aos 53 anos, com a atleta olímpica sul-americana Charlene Wittstock, 20 anos mais nova, com quem teve os gémeos Jaime e Gabriela, de cinco anos. 

Mas, muito antes do nascimento dos gémeos, o príncipe já tinha que lidar com a existência de dois filhos. Alberto foi pai pela primeira vez no ano de 2003, fruto de uma relação com uma assistente de bordo. Nicole Costa fez a revelação numa entrevista onde falou do namoro de cinco anos com o príncipe e do filho de dois anos, Alexandre. Não foi uma surpresa para o pai, que sabia da existência do menino e até se encontrava com ele em privado. Nicole disse, na altura, que não iria admitir que o seu filho fosse «um segredo» e que vivesse «escondido». 


No ano seguinte, Alberto do Mónaco reconheceu a paternidade da criança. «Assumo inteiramente as minhas responsabilidades e assegurarei a parte que me cabe na educação desta criança, preocupado com o seu futuro e com a proteção do seu direito a uma juventude normal, protegida da curiosidade dos media», declarou à revista Le Monde 2.
O jovem não faz parte da vida da família real, ainda assim pai e filho mantém uma relação de alguma proximidade. Ainda que por pouco tempo, Alberto esteve presente no crisma do rapaz há dois anos, e até discursou durante o evento. «Sabem, mesmo nos domingos tenho compromissos oficiais. Lamento muito, mas obrigado a todos por estarem aqui, obrigado. Peço que se levantem e levantem os seus copos pelo crisma de Alexandre. Estamos todos a esperar que tenha uma vida longa e saudável», desejou o príncipe.

Mas Alexandre não é o seu único filho ilegítimo. Jazmin Grace, de 28 anos, é a filha mais velha do monarca. A jovem é fruto de uma relação com Tamara Rotolo, uma empregada de mesa que conheceu na Riviera francesa, em julho de 1991. Ao início, Alberto negou ser o pai da criança, mas em 2006, quando a menina tinha 14 anos, decidiu reconhecer a paternidade e dar-lhe o seu nome.

Hoje em dia, Jazmin mantém com Alberto uma relação muito próxima – e, ao contrário do irmão, é uma figura presente em muitos eventos reais. 

Mas já este ano Alberto voltou a ver-se envolvido em mais um caso polémico, quando uma mulher de nacionalidade brasileira veio reclamar que o príncipe é o pai da sua filha, nascida a 4 de julho de 2005. A mulher, que preferiu manter o anonimato, solicitou a um tribunal em Milão que o chefe do pequeno principado seja submetido a uma prova de ADN.

De acordo com o advogado da queixosa, a mulher espera chegar a um acordo com Alberto e que o caso não vá a tribunal.

Apesar de não terem direitos sobre o trono, os filhos ilegítimos de Alberto herdarão parte da fortuna pessoal do progenitor.

Juan Carlos.‘O homem das 500 amantes’
Pilar Eyre, autora do livro La Soledad de la Reina – Sofia: Una Vida, chamou-lhe ‘o homem das 500 amantes’. Conhecido pelas suas escapadelas de mota, o Rei emérito Juan Carlos teve sempre uma vida extraconjugal ativa viu-se envolvido em vários escândalos relacionados com filhos fora do casamento.

Cerca de 20 pessoas reclamaram, ao longo dos anos, a paternidade de Juan Carlos, mas Justiça espanhola não deu oportunidade a nenhuma delas de confirmar as suas suspeitas. «A pessoa do rei é inviolável e não está sujeita a responsabilidade!», pode ler-se na Constituição do país. 

Quando Juan Carlos abdicou do trono, muitos dos que dizem ser seus filhos viram uma oportunidade para reclamar a sua paternidade. Mas a Justiça espanhola continua a proteger o Rei emérito.

Os casos de Albert Solà Jiménez e Ingrid Sartiau são dos que mais têm dado que falar em Espanha nos últimos anos. Albert, que nasceu em 1956, afirma há anos ser o filho primogénito do pai de Felipe VI. Os diversos pedidos à Justiça nunca foram correspondidos.

Nascido em 1956 em Barcelona, Albert Solà Jiménez foi de imediato retirado à mãe, levado para Ibiza e entregue mais tarde a uma família na capital da Catalunha. Anos mais tarde, decidiu começar uma investigação por conta própria, com recurso a detetives privados. Concluiu que a sua mãe biológica pertencia a uma família de banqueiros. Segundo Albert, ela «foi o primeiro amor» de Juan Carlos, quando este tinha 17 anos. 

Há alguns meses, Albert publicou o resultado de testes de ADN que foram realizados em 2007 para verificar sua compatibilidade genética com o Rei e que mostravam total compatibilidade entre ambos. No entanto, como os testes foram aparentemente realizados a partir de um copo e sem permissão real, o Supremo Tribunal Federal não os aceitou como prova.

O homem afirma ainda ter evidentes parecenças com Juan Carlos e partilha com frequência montagens fotográficas para o mostrar. «Não sou eu que acho. Historiadores, jornalistas, pessoas que encontro na rua, todos dizem isso», afirma. 
Também a cidadã belga Ingrid Sartiu afirma ser filha do Rei emérito. Nascida em 1966, a mulher descobriu a verdade ao ver com a sua mãe, Liliane, um documentário sobre a família real espanhola. 

O Rei emérito e Liliane conheceram-se na Costa del Sol, em 1965, e a relação durou apenas três dias. A mulher era governanta da família dos príncipes de Merode, na Bélgica, que estavam hospedados no mesmo hotel que Juan Carlos, então um jovem príncipe.

Em 2015, quando Ingrid deu início ao processo, o Tribunal Supremo de Justiça Espanhol considerou que existiam provas suficientes para que Juan Carlos fosse submetido a um teste de ADN. Porém o ex-monarca fez saber que se recusa a fazer tal exame, algo que o seu estatuto lhe permite. O procurador deu-lhe razão e opõe-se agora à realização do teste. 
Ingrid apresenta semelhanças físicas com Juan Carlos, mas garante que as semelhanças entre os dois não se ficam por aí. «Comprei livros e revistas sobre o Rei e descobri que ele adora cavalos e cães, tal como eu. Ele fez aviação, como eu. Eu quero, realmente, ter um relacionamento com ele e conhecê-lo, mas não crio muitas ilusões, pois ele pode ter um pouco de raiva de mim», afirmou.

Com a impossibilidade de verificar se o Rei emérito é o seu pai biológico, Albert e Ingrid encontraram-se para realizar um teste de ADN. O resultado mostrou que existem 91% de probabilidades de serem filhos do mesmo pai. 

Até à data, Juan Carlos e a Casa Real espanhola fecharam-se em copas, evitando emitir qualquer comentário acerca das polémicas sobre os possíveis filhos bastardos do Rei.


Carlos e Camila. Quem é o segundo na linha de sucessão ao trono?
O affair entre o príncipe Carlos e a atual duquesa britânica Camila Parker Bowles já era amplamente conhecido e comentado durante o casamento do herdeiro do trono britânico com a princesa Diana. Mas recentemente surgiu um novo dado:a possibilidade de existência de um filho do casal. 

Simon Dorante-Day tem 53 anos, nasceu no Reino Unido, vive atualmente na Austrália e alega que os seus pais biológicos são o filho da Rainha Isabel II e a duquesa de Cornualha. A situação está a ser discutida no Supremo Tribunal da Austrália, três anos depois de Simon ter pedido a abertura de um processo. 

Se a história vier a comprovar-se, pode mudar toda a dinâmica da família real e mesmo o futuro de Inglaterra: se Simon for filho de Carlos, torna-se o segundo na linha de sucessão ao trono. 

O alegado filho do príncipe Carlos nasceu em abril de 1966, em Portsmouth, Reino Unido, quando Carlos e Camila eram adolescentes: ele tinha 18 anos e ela 17. Simon foi adotado aos 18 meses por Karen e David Day. À revista New Idea, contou que a sua avó, «que trabalhava para a Rainha», lhe disse «muitas vezes» que era filho da duquesa da Cornualha e do príncipe Carlos. 

Simon tem várias teorias sobre a família real inglesa. Afirma que a princesa Diana sabia da sua existência e que iria falar de si aos tabloides antes de morrer num acidente de carro e que a saída de Harry e Meghan Markel da família real britânica foi propositada para encobrir a polémica, depois de o seu caso ter sido aceite pelo tribunal australiano. 
O alegado fílho do príncipe Carlos tem uma página no Facebook onde faz várias publicações relacionadas com a família real britânica e autointitula-se príncipe Simon. Uma das mais polémicas foi quando publicou uma fotografia sua na adolescência ao lado de Camila, onde são evidentes as semelhanças entre ambos. 

Até à data, a família real ainda não fez nenhum comentário sobre a situação apesar de o próprio Simon já ter enviado uma carta a Carlos e Camila a apelar à realização do teste de ADN. Só assim, alega, conseguirá encontrar «paz».