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Fora de tom

Uma mudança de tom não acontece por acaso. A missão de equilibrar as medidas de controlo da propagação da pandemia com a necessidade de manter o país a funcionar é desgastante. A imposição de utilização da aplicação e os processos de fiscalização do seu cumprimento são sinais preocupantes.

O coronavírus está para ficar. Praticamente todos os especialistas concordam que teremos uma segunda vaga e nem sabemos se não é o que já está a acontecer. É unânime que só com uma vacina conseguiremos debelar o problema. Até lá, restam-nos as já sobejamente conhecidas medidas de prevenção da transmissão do vírus.

A estratégia de comunicação dos órgãos responsáveis pela gestão da crise, DGS e Ministério da Saúde à cabeça, é de uma importância fundamental para o controlo da pandemia. São estas entidades que todos os dias nos dão a conhecer a evolução da pandemia, que nos explicam como devemos proceder de forma segura e responsável. A ideia do briefing diário tem funcionado bem para a comunicação social, para a população em geral nem tanto. Se nos primeiros dias e ao longo do confinamento contávamos os minutos para a conferência de imprensa diária, hoje já são poucos os que assistem em direto ao discurso da Dra. Graça Freitas, que com o tempo foi ganhando trejeitos de homília e perdeu muita da relevância que tinha. Hoje são os profissionais de informação que difundem as notícias sobre a pandemia, como é suposto acontecer.

As instituições públicas têm de existir e cumprir o seu dever. Um deles é comunicar para estabelecer uma relação com os cidadãos. É aqui que muitas falham. Desta vez a falha vem de onde menos se esperava, de um membro do Governo particularmente capaz nos temas da comunicação. António Costa erra quando impõe a obrigatoriedade da utilização da aplicação StayAway Covid, piora o quadro quando logo de seguida diz que não gosta de ser autoritário. Nem todas as pessoas a querem, há até quem nem sequer possa instalar a aplicação.

Além da questão legal e até moral da medida, cuja clarificação é absolutamente fundamental, há um problema de comunicação associado. Quando queremos que alguém faça alguma coisa e nos encontramos numa posição de poder, podemos seguir uma de duas estratégias: a da força ou a da argumentação. Se estamos numa posição de força, como um governo em estado de calamidade está em relação aos seus cidadãos (e bem), podemos impor medidas. Mas se essas medidas não forem entendidas pelas pessoas como necessárias, exequíveis e justas – neste caso falamos de um mecanismo de proteção da infeção – dificilmente o comportamento será apreendido de uma forma duradoura, ou seja, acaba-se a pressão e deixamos de utilizar. Por outro lado, quando conseguimos perceber exatamente o que nos está a ser pedido e as vantagens que isso terá para nós e para os outros, há uma muito maior probabilidade de adotar o novo comportamento. A cultura do medo não costuma dar bom resultado, sobretudo quando se pede o esforço de todos para um bem comum. Soma-se a questão de ser extremamente injusto comunicar, com este tom, para uma população que foi exemplar na adoção de comportamentos de redução do risco de contágio.

É provavelmente aqui que falha a estratégia de comunicação do governo, que mesmo assim está longe de ser uma estratégia falhada. Há contradições desde o início da pandemia, recordo as discussões e opiniões sobre o esdrúxulo conceito de distanciamento social, descodificado como o impedimento de reunir grupos de pessoas e não estar em cima uns dos outros na fila do supermercado. Hoje já somos especialistas no distanciamento social e na colocação de máscaras sem embaciar as lentes dos óculos (pelo menos alguns). Temos o direito de saber o que se passa e para o que nos devemos preparar.

Uma mudança de tom não acontece por acaso. A missão de equilibrar as medidas de controlo da propagação da pandemia com a necessidade de manter o país a funcionar é desgastante. A imposição de utilização da aplicação e os processos de fiscalização do seu cumprimento são sinais preocupantes. Pode ser só pouca paciência para informar e explicar a importância da aplicação, pode significar uma tremenda falta de sensibilidade para compreender a relação dos cidadãos com os seus direitos ou a existência de problemas mais graves que não permitem dedicar muito tempo a esta questão. São todos sinais preocupantes, emitidos por quem tem de inspirar calma, serenidade e respeito pelos outros.

Tal como nos habituámos a novos comportamentos, muitas pessoas já andam de máscara na rua e dentro de um espaço fechado andam todos, também nos podemos habituar a usar a aplicação. Explicar a importância de uma aplicação e da máscara não é a mesma coisa, mas as pessoas precisam de conhecer o papel que cada uma desempenha no combate à pandemia. Se já tivessem percebido a importância da aplicação, teríamos muito mais pessoas a usar. E ninguém tinha de obrigar ninguém a nada.