Sociedade

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa adquire 55% das ações do Hospital da Cruz Vermelha

Foi uma "solução encontrada a muito custo", declarou Francisco George, justificando a cedência do hospital com a incapacidade de pagar à banca os empréstimos de 27 M.E. A Cruz Vermelha Portuguesa tem um passivo acumulado de 40 M.E.


“Eu sei que estamos na hora de trabalho, mas senti a necessidade de vos informar globalmente de que há uma operação iminente de transação das ações da Cruz Vermelha Portuguesa [CVP] para a Santa Casa da Misericórdia”, começou por anunciar Francisco George, Presidente Nacional da CVP, na reunião extraordinária de trabalhadores desta quinta-feira.

Evocando o "direito de informar e de ser informado", o médico especialista em Saúde Pública recordou desde os primeiros instantes que haverá uma Assembleia Geral da Sociedade de Gestão no decorrer desta sexta-feira e que, "se os despachos dos bancos de transação chegarem a tempo", a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa [SCML] comprará 55% das ações da Sociedade de Gestão da CVP ainda esta semana. “Isto não é novo. Tem sido dito desde há um ano e meio”, prosseguiu o dirigente, esclarecendo que após “muitas reuniões, encontros, desencontros, opiniões” e entre "outras soluções, piores para todos" foi tomada a decisão que é considerada "melhor".

Relativamente ao papel da CVP "no hospital que tem o seu nome", George explicou que se mantém a sociedade de gestão, o funcionamento do hospital e "não há nenhuma alteração", assegurando que os funcionários não sentirão qualquer diferença "porque a transação vai ser absolutamente serena e tranquila". Antecipando eventuais questões, George lançou a pergunta: "Vamos ficar com o setor social mais robusto e perguntarão: porquê?". De seguida, elencou os motivos que levaram a direção a avançar neste caminho, mencionando "a pujança" das instituições de saúde de cariz privado, o nascimento do Hospital CUF Tejo a 28 de setembro deste ano e o crescimento do Hospital dos Lusíadas.

Nas palavras de George, a que o SOL teve acesso através de um áudio concedido por um membro presente na reunião, o motivo apontado para esta mudança é a situação financeira que “desde 2014 tem vindo a descer” porque "uma coisa é descer a 60 km/h, outra é a 120km/h" e esta "descida que teve várias velocidades", sendo que a CVP tem um passivo superior a 40 M.E. e uma dívida bancária de cerca de 27 M.E., “e acontece que não tem estes montantes disponíveis”, como foi referido por Francisco George. "Por isso é que procurou um parceiro, também do setor social, que pudesse investir imediatamente 15 milhões de euros", afirmou, destacando que "a vocação não vai ser alterada" e adiantando que se pretende uma potenciação entre os equipamentos de saúde da CVP e da SCML, nomeadamente em áreas como a da Medicina Dentária e do Internamento. 

"Pela primeira vez, o relatório de contas da Cruz Vermelha vai ser negativo para acolher os 55% correspondentes à questão da exploração do hospital", continuou George, deixando claro que acredita que esta mudança de panorama será benéfica para o Hospital da CVP, [HCVP] para quem lá trabalha, para Lisboa, para o setor social "e naturalmente para o país", rematando que "ninguém perde". Importa lembrar que, no relatório de contas da Parpública - "sociedade de capitais exclusivamente públicos, criada no final de 2000 com a missão de constituir um instrumento do Estado no âmbito da gestão de ativos mobiliários e imobiliários", como é possível ler no seu site oficial -, no ano passado, o HCVP teve quase 4 milhões de euros de prejuízo em 2019, "o pior resultado da sua história" e acumulava uma dívida total (passivo corrente e não corrente) de quase 44 milhões de euros. É de realçar que a Parpública injetou, em 2019, 2 milhões de euros no HCVP para tentar dar resposta a situações como o pagamento de salários.

O antigo diretor-geral da Saúde clarificou que se manteve no cargo de Presidente Nacional da CVP "na perspetiva de concluir esta operação", que "não foi fácil". Assumindo a presidência da instituição desde 23 de novembro de 2017, o profissional que foi condecorado com o grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 2006, salientou que este exercício "nunca foi escondido. Foi motivo, aliás, já de informações públicas". Por outro lado, realçando a "solução encontrada a muito custo", George lembrou que foi exatamente por esta negociação estar em curso que se manteve no cargo mesmo quando "muitos dos colegas" pretendiam que saísse. "Fico satisfeito por termos chegado a este ponto. Entregamos o hospital, na sua maioria acionista, à Santa Casa que é um parceiro do setor social com grande robustez financeira", argumentou, garantindo que a SCML se comprometeu a investir os 15 milhões de euros anteriormente referidos.

"Queria agradecer a presença de hoje, queria agradecer terem esperado por este momento. Houve, infelizmente,  colegas que não esperaram, que se foram embora, não acreditando que viriam melhores dias. Vamos ter melhores dias", foi desta forma que George iniciou a reta final do seu discurso, justificando que "isto tem tudo a ver com o apoio financeiro que a Cruz Vermelha não tem para fazer funcionar o hospital". Apesar da negociação que se encontra em curso, George asseverou que "o hospital não está à venda, nunca esteve, faz parte do património dos ativos principais da CVP", adicionando que "a sociedade de gestão pagará uma renda, a acordar, CVP. Portanto, a CVP, passará sem interrupções a receber uma renda do inquilino que tem o mesmo nome, que poderá ser 'HCVP gerido pela SCML', uma coisa deste tipo", confessando que existirão duas etapas e a primeira diz respeito à venda de 55% das ações.

"Queria mais uma vez agradecer àqueles que me acolheram, apoiaram, que estiveram sempre confiantes. E àqueles que não estiveram confiantes, queria agradecer porque, enfim, isto faz parte da vida. Uns estão de um lado, outros estão de outro", admitiu antes de lembrar que "a missão da CVP na gestão termina, na propriedade do hospital continua" e que a direção está sempre pronta "para a interação". Depois de agradecer ao conselho de administração, aos colegas do corpo clínico, aos enfermeiros e a todos os funcionários, evidenciando que não tem "absolutamente nada a dizer de ninguém", declarou que considera que "o conselho cumpriu a missão que tinha abraçado". Questionou a audiência acerca de eventuais dúvidas, mas nenhum dos funcionários presentes interveio.

Recorde-se que o processo de venda da gestão do Hospital da CVP à SCML teve início no verão passado. Em julho deste ano, a Assembleia Geral (AG) da CVP deu luz verde à transação. À época, quando George foi mandatado para assinar a venda das ações e para entrar em acordo com a SCML sobre um contrato de arrendamento, contou com cem votos a favor, quatro abstenções e nenhum voto contra dos membros da AG. Nesse mesmo mês, a situação financeira da Sociedade de Gestão Hospitalar da Cruz Vermelha era considerada "insustentável".