Opiniao

A recordação de um privilegiado

A recordação que dele conservo é a de uma pessoa bondosa, serena, sem se lamentar do que lhe tinha acontecido, aceitando a decisão dos médicos e cumprindo com rigor tudo o que lhe era proposto. Homem corajoso e inteligente, enfrentou de olhos nos olhos a doença que o atingiu e nunca voltou as costas às ‘exigências’ dos tratamentos, por vezes bem difíceis de suportar.

Conheci-o pessoalmente já na fase final da sua vida pelo facto de escrever no SOL e de a minha amiga Carolina ter feito a ponte entre nós. Algumas vezes foi pedida a minha colaboração profissional, e orgulho-me de ter dado um modesto contributo para o ajudar naquele problema arrastado, cujo desfecho se adivinhava aos olhos dos que iam carregando o peso daquela situação delicada. Eu, que acompanhei de longe alguns passos da sua vida pública como jornalista de excelência, deputado conceituado e até realizador de cinema, era agora chamado a intervir, como médico, junto de quem sempre admirei como figura pública de referência. A vida tem destas coisas.

«Jornalista marcante, irreverente e criativo», como foi designado, ficou conhecido pelos magníficos artigos que escreveu como ‘cronista de alma e coração’, que mexiam connosco e nos obrigavam a refletir. E se dúvidas houvesse quanto à grandeza deste génio do jornalismo, as declarações dos colegas, amigos e personalidades que com ele privaram desfizeram-nas por completo.

Marcelo Rebelo de Sousa referiu expressamente que «ele marcou a vida de todos os que consigo se cruzaram», e Luís Marques Mendes, no comentário semanal da SIC, terminava a sua intervenção lembrando que partira alguém a que o país «muito ficou a dever».

A recordação que dele conservo é a de uma pessoa bondosa, serena, sem se lamentar do que lhe tinha acontecido, aceitando a decisão dos médicos e cumprindo com rigor tudo o que lhe era proposto. Homem corajoso e inteligente, enfrentou de olhos nos olhos a doença que o atingiu e nunca voltou as costas às ‘exigências’ dos tratamentos, por vezes bem difíceis de suportar.

Sempre que estava comigo, nunca me falou da evolução da doença e apenas se preocupava em saber se me estava a dar trabalho, pois «não queria incomodar ninguém». Um exemplo nos dias de hoje, onde tudo se põe em causa e a confiança quase desapareceu.

Marcou-me particularmente o comportamento da sua família e a forma extraordinária e zelosa como sempre cuidou dele. De todas as vezes que me desloquei à sua residência pude comprovar que, na verdade, ele era mesmo um privilegiado por estar cercado de amor e dos cuidados dos que lhe eram queridos. E sublinhava que a sua ‘história’ não podia servir de exemplo para ninguém, visto dispor de condições que a maioria das pessoas não tinha. E, em minha opinião, o ‘privilégio’ não se devia às condições materiais mas ao suporte familiar, o que é cada vez mais raro nos nossos dias.

Com a experiência que já tenho, reconheço que não são muitas as famílias que aceitam o desafio de tratar no seu próprio domicílio um doente com uma doença prolongada, conscientes do desfecho que se avizinha. Não é fácil resistir ao argumento da falta de condições técnicas e humanas que um serviço destes exige, é certo; mas ocorre-me a seguinte pergunta: as famílias de hoje recorrem a instituições e delegam nelas os cuidados a prestar aos familiares por não terem possibilidades de o fazer ou por isso ser mais cómodo?

O artigo que escreveu sobre o confinamento, publicado no SOL ao lado das opiniões de outras figuras públicas, surpreendeu-nos a todos por ser diferente e muito original. Em vez de focar a angústia e o drama que se viviam na altura, conseguiu ver naquele momento um lado mais positivo do problema, enaltecendo a face romântica da vida. Gostei!

Fez questão de me convidar, a mim e à minha mulher, para jantarmos em sua casa – convite que aceitámos com o maior gosto. Fomos recebidos pelo casal e pela irmã Carolina, de uma dedicação sem limites. Mesmo muito doente, ele estava feliz, sorridente, acolhedor. Foi a última vez que o encontrei. Partia poucas semanas depois. Na sua casa. No seio da família. O verdadeiro privilégio.

Um pouco por tudo isto, creio que foi gerindo a sua vida de acordo com os seus ideais. Família fantástica, vida profissional deveras gratificante, e um testemunho a servir de exemplo para as novas gerações. Citando Virgínia Woolf, «a vida é um sonho, é o despertar que nos mata».

À sua família, o meu respeito e a minha homenagem. Ao homem que sempre foi, só posso dizer: «Obrigado, Vicente Jorge Silva».

(À memória de Vicente Jorge Silva)