Sociedade

Covid-19. E depois do negativo?

Mesmo depois de lhes ser dada alta para covid-19, Ana, Madalena e António continuaram a sentir-se doentes. O cansaço é a principal queixa mas a ansiedade também consta na lista.

Até hoje, perto de 200 mil portugueses já testaram positivo para a covid-19. Mais de 3000 morreram devido às complicações que a pandemia lhes trouxe. Aqueles a quem o vírus infetou podem ficar com mazelas permanentes, tanto físicas como psicológicas. Para que se evitem complicações graves, é necessário um acompanhamento cuidado mesmo depois de o teste dar negativo. Mas isso nem sempre acontece.

 

Oito meses de complicações

Ana Loura é o exemplo disso. Tem 58 anos e vive em Santa Maria, nos Açores. A 17 de fevereiro apanhou um voo para ir ao evento Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, onde marcou presença o escritor Luís Sepúlveda, que acabou por morrer vítima de covid-19 a 16 de abril. Apesar de não ter contactado com o escritor – «para desgosto meu, que gosto muito dele», admite – Ana esteve perto de um amigo comum. Mas não acredita que tenha sido contagiada no evento. «Antes já me sentia meia adoentada» – na altura pensou que se trataria da rinite alérgica.

Quando veio para o continente, ficou a tomar conta da mãe, de 94 anos, mas pelo fim de fevereiro essa tarefa tinha-se tornado impossível devido às febres altas e ao cansaço. Dia 1 de março ligou à saúde 24 – esperava ser contactada pelo delegado de saúde ainda no próprio dia. Esse telefonema não aconteceu, o que a obrigou a ligar de novo, passados dois dias. O contacto com o delegado de saúde só se concretizou a 5 de março. «Pode estar descansada, não é covid», garantiu-lhe o delegado. Aconselhou-a a dirigir-se às urgências do Hospital mais próximo, mas que não referisse «que esteve nas Correntes d’Escritas porque se não eles vão complicar a coisa, vão acionar o procedimento covid e não é covid». No dia seguinte foi analisada na Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde. A médica pediu-lhe que fizesse uma TAC, mas foi para casa com «antibióticos, anti-inflamatórios e cortisona, tudo muito mais forte do que aquilo que me tinham receitado da primeira vez», conta Ana Loura. «Dia 8 de março estava a morrer». No dia 11 de março de manhã voltou a ser atendida na Santa Casa devido aos 40 graus de febre e ao mal-estar extremo que sentia. Atendeu-a a médica que lhe tinha pedido o exame dias antes. «Disse:_‘Venha comigo’, e levou-me para um quartinho e vestiu-me aqueles fatos que toda a gente conhece. Nessa altura, caí na realidade. Toda a gente dizia que não e ela dizia que talvez». Na madrugada do dia seguinte foi transferida para o Hospital de São João e recebeu o seu primeiro teste positivo. Contactou o delegado de saúde para o informar que, afinal, estava positiva, ao que ele respondeu «segundo os critérios, não era considerada doente de covid».

Depois de ter sido detetada com o novo coronavírus, Ana ficou nos cuidados intensivos durante 6 dias e no internamento durante outros 23. A açoriana confessa que no hospital «foram impecáveis até ao dia em que me quiseram mandar para casa». Nesse dia, duas semanas depois de estar internada, recusou. Tinha a mãe em casa, ainda infetada, e a filha «a cuidar em exclusivo da minha mãe». Outro problema foi o facto de os voos para os Açores estarem suspensos. Só teve oportunidade de ir para casa em junho. E só nesse mês, também, lhe marcaram a primeira consulta de acompanhamento, dois meses depois de ter estado internada. Quando se queixou da dificuldade em respirar e do cansaço, disseram-lhe que era tudo normal e que passaria com o tempo. «Não auscultaram nem nada». Na altura de marcar finalmente o voo de regresso a casa, voltou a realizar um teste à covid que deu novamente positivo. «Entrei em pânico, porque ninguém explica nada a ninguém. Ninguém me disse ‘Olhe que, apesar de estar curada, existe a probabilidade de, durante um tempo, virem testes positivos’. Caiu-me o mundo em cima. Isto aconteceu a um domingo, dia 14 de junho, só que ao domingo ninguém atende o telefone a ninguém, está tudo a festejar o domingo nas suas casas». Com a ansiedade de regressar a casa a crescer cada vez mais, contactou a delegação regional de saúde. A resposta do delegado de saúde permanece em conformidade com aquilo que já tinha dito antes: «Oh, minha senhora, isso não é nada, você está curada, isso são resquícios, no teste tanto deteta quando o vírus está vivo como quando está morto». Em conformidade, foi passado a Ana um documento a dizer que estava curada, para que ela o enviasse para o governo regional dos Açores de modo a poder ir para casa. Mas o documento não foi aceite e a açoriana viu-se obrigada a esperar mais 14 dias no continente. Só com o teste negativo na mão, pôde finalmente voltar para os Açores. Mas nem por isso a situação se resolveu por completo. Acreditava que, depois daquilo por que tinha passado, iria imediatamente ter acompanhamento médico. Não foi o que aconteceu. «Quis marcar uma consulta no meu médico de família, mas vi-me grega», lamenta. O médico não tinha conhecimento de que tinha estado infetada, «a informação da minha infeção não estava no meu cadastro». Marcou por sua conta uma consulta no pneumologista porque o cansaço persistia. O médico de família acabou por contactá-la, aconselhando-a a realizar exames. «Apesar de ele ter dito que é urgente, estou há 10 dias à espera». Ana Loura deu pela primeira vez positivo para covid-19 no dia 12 de março. Quase 8 meses depois continua com complicações relacionadas com o vírus, tanto no que toca à saúde como ao acompanhamento médico.

 

Acompanhamento de luxo

O caso de Madalena Moraes, de 26 anos, é diferente. Estava emigrada na Escócia quando foi infetada. Trabalhava há pouco mais de um mês em hotelaria e ao chegar ao escritório «os técnicos queriam medir a febre a todos os empregados». Naquele dia 9 de março o termómetro indicou 38 graus de febre, mas sentia-se bem. Fez o teste e «por precaução» foi imediatamente mandada para casa. Cinco horas depois recebeu o resultado: estava positiva. «Vi-me completamente sozinha num país estranho com todos os meus sonhos a irem por água abaixo», confessa Madalena.

Na altura em que foi infetada ainda não se ouvia falar muito acerca do vírus porque ao «Reino Unido as coisas chegaram muito mais tarde e a Escócia não foi muito afetada, havia uma média de 200 casos por dia, por isso não foi nada descontrolado». A partir do momento em que testou positivo admite que recebeu «um acompanhamento, como se pode chamar, de luxo». Sempre em casa, foi seguida por um médico e por uma enfermeira que lhe estavam exclusivamente dedicados. «Eles estavam sempre disponíveis e eram simpáticos, nunca os senti como uns robôs médicos».

Apesar de inicialmente não apresentar queixas, rapidamente a situação piorou. «Comecei só com febre. Passado menos de uma semana, sentia-me já constipada e cansada. Passei a dormir 17 horas por dia. Começaram a vir as faltas de ar ao ponto de ter de levar oxigénio de 6 a 8 horas por dia, mas não estava a dar resultado. Tive de começar a fazer oxigénio intravenoso». Madalena continuava sem apresentar melhorias e por isso foi obrigada a usar um dilatador de pulmões. «Durante duas ou três semanas, dormia sentada por causa do peso dos pulmões». Confessa que chegou a acreditar «que alguma coisa não ia correr bem». Além da falta de oxigénio, Madalena tinha também febres muito altas. A jovem sabe que se a situação tivesse acontecido em Portugal não teria tido o mesmo acompanhamento. «Eles tentaram evitar ao máximo levar toda as pessoas para o hospital».

Ao todo Madalena esteve cerca de dois meses internada. Nunca saiu de casa e a disponibilidade dos profissionais de saúde que a acompanharam foi essencial: «Houve uma vez que eu a meio da noite me senti muito mal, chamei a mesma enfermeira e quase no mesmo minuto ela estava lá em casa», recorda.

À chegada a Portugal, em julho, a maior diferença que sentiu foi «em termos de preocupação». As pessoas usavam máscara na rua e tinham cuidado. Na Escócia «as pessoas não estavam nem aí, nem sequer usavam máscara, faziam ajuntamentos à mesma», afirma Madalena.

Depois de ter ficado tanto tempo fechada em casa, admite que ao sair «ficava em pânico em sítios que estivessem cheios de pessoas e tive de trabalhar muito isso para conseguir voltar ao normal».

Além dos ataques de pânico, Madalena ficou com fibroses nos pulmões, o que a impede de levar uma vida igual à que tinha antes de ser infetada. Isto faz com que se sinta constantemente cansada e com falta de ar: «Antigamente andar cinco quilómetros era uma coisa fácil, atualmente já é muito cansativo», confessa.

 

Meio ano de internamento

António Rodrigues esteve cerca de um mês e meio positivo para covid-19. Tem 53 anos e foi internado no Hospital de Braga a 26 de março. Só saiu de lá a 16 de outubro. Nessa altura, apesar de já estar curado do vírus, continuava doente. Passado um dia de ser internado, foi imediatamente ligado a um ventilador e colocado em coma induzido. O período em que esteve entubado deixou António com sequelas, tanto físicas como psicológicas. Conta ao b,i. que chegou «a dizer à mulher que eles me tinham abandonado». «A minha cabeça não estava boa», continua António, «foi por causa do coma, mas depois pedi-lhes desculpa».

Quatro testes e um mês e meio depois, a 15 de maio, vê o seu primeiro teste negativo. Mas não sai do hospital. Viu-se infetado por uma bactéria que lhe causou múltiplas lesões, tendo inclusivamente sido posto em isolamento. Os sete meses internado no Hospital de Gaia deixaram António com dificuldades motoras: «Todo o meu lado esquerdo está afetado. Mal consigo mexer o braço e não sinto os dedos dos pés». O pulmão também «não funciona a 100%» mas sente que, aos poucos, está melhorar.

Neste momento, António está a recuperar numa Clínica de Reabilitação em Gaia. Não tem dúvidas: «A minha melhoria também se deve ao pessoal médico, foram muito prestáveis».

Tanto António, como Ana e Madalena foram infetados há mais de meio ano e ainda hoje sofrem com as mazelas.