Politica

Rio ignora críticos

Presidente do PSD desvaloriza críticas internas e não a fecha porta ao Chega. Ventura lança condições para um acordo a seguir às eleições.

Rui Rio ignorou as críticas internas por causa da aproximação ao Chega e não tenciona mudar de estratégia. Continua a não fechar a porta a entendimentos com o partido de André Ventura, apesar da polémica com o acordo nos Açores, com a convicção de que as divergências à esquerda podem conduzir a eleições antecipadas e abrir a porta a uma geringonça de direita. 

A polémica estalou com o entendimento nos Açores, mas Rui Rio nunca fechou a porta ao Chega. Nas eleições internas, no início deste ano, em que disputou a liderança com Luís Montenegro e Pinto Luz, o líder do PSD não descartou uma aliança «se se forem moderando». 

Numa entrevista à TSF, Rui Rio considerou que «é um bocadinho exagerado classificarmos o Chega de fascista ou de extrema-direita».

A vitória nas eleições internas contra os passistas trouxe-lhe a paz interna, mas a perceção de que o PSD passou a estar disponível para se sentar à mesa com André Ventura reavivou as divergências. Na contestação a um eventual entendimento estão três ex-ministros de Pedro Passos Coelho– Jorge Moreira da Silva, Miguel Poiares Maduro e Paula Teixeira da Cruz.

Pacheco Pereira, que integra o Conselho Consultivo criado há uns meses, Luís Marques Mendes, ex-presidente do partido, e José Eduardo Martins, ex-secretário de Estado do Ambiente, também se insurgiram contra a aproximação ao partido de André Ventura. 

O ex-ministro do Ambiente e antigo vice-presidente do partido Jorge Moreira da Silva pediu, esta semana, a realização de um congresso extraordinário para clarificar a política de alianças. 

O social-democrata defendeu, num artigo no Público, que «estamos perante uma alteração radical do posicionamento ideológico e programático do PSD e uma traição ao seu quadro de valores e princípios».

A direção do PSD desvalorizou as críticas. Rui Rio, numa entrevista à TVI a meio da semana, voltou a admitir dialogar com o Chega a seguir às eleições legislativas. O líder do PSD admitiu, porém, que «vai ser muito difícil» porque pode existir a tentação de «pedir coisas inaceitáveis».

A hipótese de repetir no Continente o acordo feito nos Açores divide o PSD. Guilherme Silva, ex-líder parlamentar, considera que é prematuro discutir eventuais acordos, mas lembra que «o Tribunal Constitucional permitiu a constituição do Chega e há eleitores que votam nesse partido». 
O histórico social-democrata desdramatiza um acordo com André Ventura desde que seja feito com «cuidado» e «fique claro que o PSD não abdica dos seus princípios». 

PSD ‘está a incorporar as causas do Chega’, diz Ventura

André Ventura assistiu à entrevista do líder do PSD e está convencido de que Rui Rio está a aproximar-se do Chega. «Mostrou que é o PSD que está a incorporar algumas das causas do Chega, como a redução do número de deputados e a luta contra a subsidiodependência», afirma, em declarações ao SOL, o líder do Chega. «O Chega dá as boas-vindas ao PSD a estas causas de todos os portugueses», acrescenta.

André Ventura diz que só depois das eleições legislativas é possível avaliar se há condições para entendimentos entre os dois partidos. Garante, porém, que o Chega vai colocar algumas condições e exigir mudanças na justiça e no sistema político. 

«Só na real possibilidade de fazer mudanças estruturantes no sistema político, fiscal e de justiça português é que o Chega equacionaria qualquer plataforma de entendimento pós-eleitoral com o PSD», afirma André Ventura.