Sociedade

‘Saúde Sobre Rodas’: jovens querem levar fisioterapia às regiões ‘mais esquecidas’

Beatriz e Roberto querem proporcionar cuidados de fisioterapia às aldeias. Já foram reconhecidos pela farmacêutica Angelini. Agora precisam da ajuda das câmaras municipais da Póvoa de Varzim e de Vila do Conde.

‘Saúde Sobre Rodas’: jovens querem levar fisioterapia às regiões ‘mais esquecidas’

Saúde Sobre Rodas: Um projeto social é o nome da iniciativa que valeu a Roberto Machado e a Beatriz Miranda o prémio para universitários da farmacêutica Angelini. Na passada quinta-feira, os recém-licenciados em Fisioterapia pela Escola Superior de Saúde Santa Maria, no Porto, viram a sua ideia da criação de uma unidade móvel para prestação de cuidados de fisioterapia nas regiões mais esquecidas ser reconhecida.

No entanto, a mesma nasceu em setembro de 2019, quando os então finalistas tiveram de realizar o trabalho final. Roberto, de 23 anos, arrancou com o primeiro molde, e Beatriz, de 22, viria a juntar-se a ele. «Juntámos o útil ao agradável», começaram por explicar os jovens, que contaram com a orientação da professora Daniela Simões, que os incentivou a participarem no certame – a 11.ª edição dos Angelini University Awards – cujo mote, para este ano, passava por ‘menos dor, mais vida’.

Os princípios basilares

«Queríamos levar a fisioterapia ao domicílio, mas não gostávamos da ideia de invadir a habitação dos utentes para realizar as sessões», adiantou a atual fisioterapeuta do Matosinhos Futsal Clube que, com o apoio do colega, que desempenha as mesmas funções no Ginásio Clube Vilacondense, percebeu que seria preferível «ter uma carrinha em que fosse possível prestar os cuidados aos utentes» dos subúrbios de Póvoa de Varzim e de Vila do Conde. A escolha destas cidades não foi feita em vão pois, segundo Roberto, «são duas câmaras municipais muito ligadas à promoção do envelhecimento ativo e ao aumento da qualidade de vida dos habitantes». Os vencedores não pretendem esquecer «a parte mais isolada, que é a das aldeias» e, por isso, «a população-alvo é a do interior, aquela que é mais desfavorecida, que não tem tanto acesso às unidades de saúde nem consegue deslocar-se facilmente até às mesmas». Deste modo, os meios essencialmente urbanos receberiam a intervenção dos fisioterapeutas numa fase posterior à do arranque do projeto.

A origem do nome

O conceito que engloba a intervenção comunitária por meio da prestação de cuidados de saúde primários numa unidade móvel já foi aplicado em variadas autarquias portuguesas. Por exemplo, em setembro de 2004, o município do Seixal apostou no apoio social a crianças, jovens e mulheres (sobretudo em situações de risco), tal como grávidas. Tal aconteceu «com uma equipa multidisciplinar, composta por técnicos de saúde e da área social, que se desloca a bairros carenciados, utilizando para tal uma unidade móvel especialmente apetrechada para o efeito», como é possível ler no site oficial da Rede Portuguesa de Municípios Saudáveis, e que atua em diferentes áreas, como a saúde infantil ou a vacinação.

Por um lado, em outubro de 2017, o Saúde Sobre Rodas foi adaptado por três médicas dermatologistas de Coimbra que promoveram, semanalmente, a prestação de cuidados dermatológicos a pessoas sem-abrigo. Por outro lado, em abril do ano passado, a aquisição de uma carrinha, «que irá percorrer o território do Baixo Guadiana quinzenalmente promovendo a importância da vacinação, alertando e sensibilizando sobre doenças sexualmente transmissíveis, promovendo o planeamento familiar» foi o projeto vencedor do Orçamento Participativo Jovem. Neste projeto, com aplicação prevista nas zonas mais remotas e rurais do Baixo Mondego, estariam integrados um enfermeiro, um médico e um psicólogo.

Deste modo, Roberto e Beatriz trilham o seu caminho no sentido de seguir as pisadas da Santa Casa da Misericórdia de Borba, que em outubro do ano passado, através da Mais Próximo – Unidade Móvel de Fisioterapia e Animação, foi pioneira na prestação de sessões de fisioterapia, numa carrinha ou no domicílio, a 40 utentes.

O que seria feito?

O reconhecimento académico e, consequentemente, laboral, assim como o prémio de 7 mil euros – 2 mil foram entregues à docente responsável pela orientação e 2500 a cada um dos estudantes empreendedores –, levaram a que Roberto e Beatriz se focassem na transição do projeto do papel para a realidade.

Têm consciência de que os trabalhos somente poderão ser planeados quando avaliarem «as idades e as patologias» dos futuros utentes. Contudo, consideram a título de exemplo que «as classes conjuntas para a inclusão social, nas aldeias mais isoladas», podem constituir uma aposta certeira. «Queremos implementar o projeto da forma mais segura possível, tendo em conta as necessidades da população», avançaram ao SOL em entrevista telefónica, esclarecendo que, em primeira instância, o Saúde Sobre Rodas teria como colaboradores os próprios fundadores e, após a sua consolidação, «e de acordo com as necessidades e o feedback dos utentes», existe a vontade de formar uma equipa multidisciplinar.

O papel do poder local

Com o intuito de estudar as preocupações e as necessidades dos utentes com os quais trabalharão, Beatriz e Roberto criaram questionários online. Uma das conclusões passou pelo facto de que os rastreios de medicina dentária, as consultas médicas e os cuidados de psicologia e enfermagem são identificados como lacunas pelos inquiridos e fortemente pedidos pelos mesmos.

«Por isso é que queremos trabalhar com outros profissionais de saúde, mas sem as autarquias, sem elas como clientes, não haverá viabilidade financeira», contou Roberto, cuja área predileta é a fisioterapia músculo-esquelética – que visa a prevenção e tratamento de problemas dos ossos, músculos, tendões, ligamentos, articulações, cartilagens e outros tecidos –, enquanto Beatriz aprecia a vertente cardiorrespiratória, mas não deixou de evidenciar que ambos não se importariam de explorar a geriatria.

Os constrangimentos da pandemia

«Não está a ser fácil, não há muitas oportunidades, pedem experiência e não aceitam quem começa o percurso agora. Esperemos que tal mude, que olhem para nós de outra maneira», expressaram os formados em Fisioterapia, que lamentam a existência da pandemia de covid-19, embora a encarem como «uma janela de oportunidade» para levar a unidade de saúde móvel a bom porto. Afinal, com o mote ‘não invadir a casa dos utentes’, esta intervenção poderá contar com adesão por permitir, entre outros, o distanciamento social ou o cumprimento de normas de segurança e higiene. Porém, antes de partirem para a implementação do Saúde Sobre Rodas, pretendem «ganhar mais experiência, conhecer melhor o mundo do empreendedorismo» e perceber aquilo que têm pela frente. «Não queremos arriscar sem estarmos devidamente prontos», afirmaram.

Que impacto?

A linha de pensamento dos profissionais de saúde, que iniciam a sua carreira, vai ao encontro daquela que é preconizada pela Associação Portuguesa de Fisioterapeutas (APFisio). No passado dia 12 de novembro, a APFisio realçou que, na primeira vaga da pandemia, cerca de 73% dos fisioterapeutas interromperam a sua atividade presencial e, destes, apenas cerca de 60% recorreram a estratégias de telefisioterapia para manter o acompanhamento dos doentes. Também importa mencionar que 20% das instituições onde eram prestados serviços de fisioterapia não permitiram ainda o regresso dos fisioterapeutas.

A associação evidenciou igualmente que a suspensão da atividade presencial pode conduzir a que muitas pessoas vejam «os seus cuidados nesta área bastante comprometidos, com todas as consequências conhecidas para a sua funcionalidade e prognóstico de recuperação».

Por estes motivos, Roberto e Beatriz agradecem à farmacêutica Angelini «a iniciativa porque mostra que a fisioterapia está a crescer a olhos vistos mesmo em tempos tão conturbados».

 

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