Internacional

Etiópia. Um mosaico de etnias que está a estilhaçar

Abiy Ahmed, que o ano passado ganhou o prémio Nobel da Paz, lançou as suas tropas sobre Tigré, contra o antigo partido governante. Mas a promessa de uma vitória rápida pode não passar de propaganda, asseguram analistas. E, no resto do país, aumenta a tensão étnica, alertou ao SOL um médico tigrínio.

Mekelle, capital dos dirigentes tigrínios que desafiam o Governo central etíope, será cercada por tanques e devastada por bombardeamentos de artilharia. Os civis que se escondam ou se revoltem contra os rebeldes, porque «depois disso, não haverá misericórdia», ameaçou esta semana um porta-voz das forças armadas de Abiy Ahmed, que ganhou o prémio Nobel da Paz em 2019. Agora, o primeiro-ministro da Etiópia está num braço de ferro com o seu velho camarada, Debretsion Gebremichael, líder da Frente de Libertação do Povo Tigré (TPLF, em inglês), o partido que dominou o país durante décadas. O povo tigrínio «está pronto para morrer», prometeu Gebremichael, que promete tornar Tigré «um inferno para os seus inimigos». Entretanto, o Governo federal anunciou a queda de Mekelle, mas sabemos pouco do que se passou. Foi imposto um pesado manto de silêncio sobre o conflito, com a internet e todas as comunicações cortadas, os observadores internacionais impedidos de entrar na região, sem qualquer corredor humanitário estabelecido, dezenas de milhares de pessoas a fugir pela fronteira com o Sudão e ambos os lados a trocar acusações de atrocidades - a Amnistia Internacional registou o massacre de uns 600 civis em Mai Kadra, que foram esfaqueados, mutilados e queimados vivos por milícias tigrínias.

«A ideia de que é possível controlar o Tigré, de que os civis se vão retirar e deixar o TPLF nas mãos do exército federal é uma fantasia, pura propaganda governamental. O risco aqui é de uma guerra que não é uma guerra relâmpago», alerta o antropólogo Manuel João Ramos, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE, que fez muito trabalho de campo em Tigré e na vizinha região de Amara. «Temos militares veteranos e muito bem treinados do lado do TPLF - eu vi ao vivo o poder das forças de segurança tigrínias, são uns 30 a 60 mil, com uma capacidade e vivacidade que não pode ser descartada - e milícias armadas que chegam aos 250 mil homens. Estão face a forças federais com praticamente os mesmos números. É evidente que a Etiópia tem capacidade de mobilizar de um número de tropas muito grande, mas não estou a ver esses homens a irem para o Tigré de muito boa vontade».

É que não é só no Tigré que o complexo mosaico étnico da Etiópia está a quebrar. Além da revolta dos tigrínios, que são uns 6% dos 110 milhões de etíopes, os oromos, a maior etnia, quase 35% da população, também não estão satisfeitos. Desde junho, quando foi abatido a tiro o cantor e ativista Hachalu Hundessa, que a Oromia ferve com protestos e linchamentos, arriscando abrir mais uma frente contra o Governo federal.

Os únicos satisfeitos parecem ser os amaras, quase 20% da população, de onde veio a velha nobreza e as dinastias de reis etíopes, que reclamavam descendência da rainha de Sabá e controlaram o país até 1974, quando a monarquia foi derrubada por um regime comunista, o Derg. Por mais que Abiy - produto direto da Frente Democrática Revolucionária do Povo Etíope (EPRDF), na sigla inglesa), a coligação étnica criada e dominada pelo TPLF - promova o nacionalismo etíope, criando o seu Partido da Prosperidade, este «é um partido centralista, mas que é apoiado pelos amaras na medida em que eles vêm neste partido centralista a possibilidade de chegarem de novo ao poder. Ou seja, é um centralismo mas que nunca deixa de ser étnico percebe?», explica Manuel João Ramos.

«E quanto mais tempo durar a guerra, mais problemática é a posição do Abiy Ahmed face aos seus aliados tácitos, seja oromos ou amaras. E mais problemas haverá para manter o abastecimento logístico das tropas no Tigré», refere o investigador. «É evidente que o TPLF está a apostar que a guerra não se encerre nos tempos mais próximos».

«Com certeza que as forças armadas da Etiópia vão conseguir controlar Mekelle, e já parecem ter controlado as principais cidades de Tigré. Estão a beneficiar de vários apoios, diz-se que inclusive de membros das forças armadas da Eritreia», um velho rival da Etiópia, com quem só assinaram a paz o ano passado, lembra Alexandra Magnólia Dias, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-NOVA), especializada no Corno de África.

«Mas os líderes tigrínios têm muita experiência de conflito armado, podem bater em retirada e procurar refúgio nas montanhas, que conhecem muito bem depois de décadas de guerrilha contra o Derg», salienta a investigadora. «Repare, Tigré tem duas vezes e meia a dimensão de Portugal e é uma região inóspita. Pense nas imagens que chegam do Afeganistão, de Nagorno-Karabakh. Aquilo são montanhas, mais montanhas, com uma presença muito reduzida do Estado além do eixo rodoviário central que atravessa a região»

A probabilidade de sucesso do Governo federal dependerá muito do grau de apoio popular ao TPLF em Tigré. «Repare, ali naquela região a maior parte dos civis têm experiência de combate, porque sempre foi uma região muito fustigada por conflitos», refere Alexandra Magnólia Dias.

Não que esse apoio seja fácil de medir. «Podemos verificar um grande desenvolvimento da região. Agora, até que ponto este desenvolvimento beneficiou a população ou diminuiu as desigualdades sociais… Tenho as minhas dúvidas», salienta a investigadora do IPRI. «Nas últimas eleições regionais, de facto a maioria esmagadora votou no partido no poder. Mas não podemos esquecer que o TPLF esteve quase três décadas no centro de um regime autoritário, em que as eleições eram mera fachada. Nada nos confirma que não houvesse insatisfação», acrescenta, recordando a pesquisa que fez na região, em 2010 e 2019. «Se eu pude recolher impressões? Não, não pude, há um silêncio total. Aliás, quando estou no Tigré dizem-me que sou espia da Eritreia».

 

Perseguição às antigas elites

As raízes da atual guerra civil podem ser remontadas à madrugada de 29 de maio de 1991, quando rebeldes liderados pelo TPLF tomaram Addis Ababa ao Derg, após anos de combate. Avançaram pela cidade com longas colunas de tanques, rodeadas por guerrilheiros de calções e chinelos de plástico, que estabeleceram a ideia de federalismo étnico. É um sistema único do mundo, que dava autonomia às regiões em função da etnia, e até, pelo menos formalmente, o direito à autodeterminação. Nem o próprio líder dos rebeldes, Meles Zenawi, estava muito confiante que funcionasse. «Mas tentámos tudo o resto e isso não funcionou», explicou uns anos depois, citado pela Foreign Policy.

«O federalismo étnico foi instituído, em grande medida, como forma do TPLF dominar toda a política nacional, de dividir para reinar», explica Manuel João Ramos. «Deu a uma região minoritária controlo do sistema, com base em clientes que não eram tigrínios, eram clientes amara, clientes oromo. Mas eram dominados do topo pelo TPLF».

O novo regime, profundamente autoritário, tinha o EPRDF praticamente como partido único, entre perseguições políticas e recorrente fraude eleitoral, Os seus aliados no Ocidente fechavam os olhos aos abusos, receosos de destabilizar o Corno de África, ao lado do Mar Vermelho, umas das mais importantes rotas marítimas mundiais.

Entre os soldados tigrínios que tomaram a capital estavam familiares de Abraham, um médico nascido e criado em Adis Ababa, que continua lá a viver. «Muitos militantes do TPLF sacrificaram as suas vidas, incluindo gente da minha família, perdi quatro tios. Como povo, como etnia, sacrificamos muito para chegar aqui. Essa luta foi sequestrada por uns quantos corruptos», argumenta Abraham, que pediu ao SOL que não revelasse o seu apelido, Teme represálias, em tempos de guerra civil, quando os tigrínios são olhados com suspeição por vizinhos, colegas e até amigos, acusados de serem espiões a soldo do TPLF.

Aliás, muitos tigrínios perderam de imediato os seus empregos com o início das hostilidades, relatou a Human Rights Watch. «Até agora estou ok. Por causa da pandemia, o Governo precisa dos meus serviços como profissional de saúde. Existe assédio no dia a dia, mas não recebi nenhuma ordem oficial de demissão, como aconteceu com outros, sei que sou uma exceção. Consigo ir trabalhando, mas passo a maior parte em casa, com medo. Não sei o que pode acontecer», lamenta o médico tigrínio, por telefone.

«Alguns de nós ainda têm as suas contas bancárias, mas muitas estão a ser congeladas. Assumo que muitos estão a passar fome. Conheço uma mulher que morreu porque o marido foi preso e ela não conseguiu pagar os tratamentos médicos», conta, com uma tristeza notória na voz «O foco são os que têm uma vida melhor, querem-lhes tirar os bens, as casas. Estamos a ser visados, denunciados, impedidos de sair do país, acusados judicialmente, postos em prisões ou campos de concentração. Chamamos-lhes campos de concentração porque não sabemos o que se passa lá», ressalva. «Sentimo-nos caçados».

 

Muitas histórias, um país

Se há coisa que move a política etíope é a desconfiança e o ressentimento. Os tigrínios temem a vingança pelos seus anos no poder, a queda das suas elites. Os amaras não esquecem que dominaram o país desde os tempos da Abissínia, glorificada como o único império africano que sobreviveu ao colonialismo europeu. Os oromos sonham com o dia em que possam ter uma influência que reflita a sua maioria, recordam as invasões por imperadores amaras, o rapto das suas mulheres e o roubo dos seus cavalos, que vêm como uma forma de colonização - nos protestos após a morte de Hachalu Hundessa, foi derrubada uma estátua equestre de Ras Makonnen, pai do último imperador, Haile Selassie, uma ação que traz à memória os protestos do movimento Black Lives Matter. Mas nem sempre houve uma tensão étnica, sobretudo no que toca à convivência do dia-a-dia.

«Esta ideia de que há etnias definidas na Etiópia, que são o critério principal das alianças e identidades políticas das pessoas, foi expandida artificialmente, por reflexo das etnizações políticas em África, de que a colonização europeia é muito responsável», considera Manuel João Ramos. «À exceção de diferenças na língua, até à instauração do regime federal, não havia grandes distinções regionais ou étnicas. Sendo que a ideia de Estado etíope é uma concepção amara e tigrínia, e que eles o dominaram desde a Idade Média, mas na verdade os os oromos não estiveram ausentes».

«O problema é que a federalização impôs identidades diferenciadas. As pessoas amara que viviam na Oromia deixaram de poder ter emprego lá, isso levou a grandes deslocações. Também levou à construção um bocado artificial de línguas, com ensino em línguas diferentes - dantes o amárico era a língua oficial - e deixou de haver história comum, passou a haver leituras regionais da história nacional», explica o investigador.

«Anedotas e gracejos sempre houve, é um bocado como dizer que os minhotos são assim, os alentejanos são assado», exemplifica. «Mas não me parece que houvesse mais incómodo em relação a um tigrínio em Gonda que em relação um amara do sul da região. Não vi isso nem no Tigré nem em Amara. Os tigrínios só passaram a ser, de alguma forma, um alvo, por causa das elites do TPLF».

«Que os tigrínios têm uma maneira de ser um bocadinho diferente dos amaras é natural. Os tigrínios são muito eficientes, rápidos. Os amaras são muito mais desconfiados, mais lentos, diz-se que gostam de burocratizar, ver os vários lados das coisas. Os oromos têm fama de estar sempre em conflito uns como os outros... Quer dizer, o que é ser oromo? É um rótulo que não corresponde à enorme diversidade desta população».

Contudo, no último mês, com o eclodir da guerra civil, esse processo de fragmentação acelerou brutalmente. E isso sente-se na pele, conta Abraham. «Deixei de falar com muitos amigos amaras. As conversas que tens são muito duras. Contaram-lhes histórias diferentes quando cresciam, que eles eram o povo dos reis e das rainhas, que outros como os oromos eram escravos. Querem uma Etiópia monolítica, que só fale amárico», acusa o médico. «Não dá sequer para confiar em amigos e colegas, porque as coisas de que falam à tua frente são demasiado brutais. Imagina que as pessoas à tua volta apoiam um ataque ao teu povo. No meu trabalho houve um tipo a celebrar o início da guerra, não dá para explicar o que te passa pela cabeça quando vês isso. Mas não posso reagir, tenho medo de acabar na prisão. Fico calado».

 

Duas faces da mesma moeda

Para quem observa com atenção a política etíope, esta guerra é uma tragédia anunciada, que sucede a enormes esperanças de reformas, com a chegada ao poder de Abiy Ahmed, em 2018. Após anos de contestação maciça contra o regime, sobretudo na Oromia, quando parecia que a repressão violenta, os massacres e prisão de opositores não chegava para manter o controlo do TPLF, a solução encontrada foi Abiy, um tenente-coronel das secretas, especialista em criptografia e antigo guerrilheiro, um homem de ascendência oromo e amara, convertido ao protestantismo mas com família cristã ortodoxa e muçulmana.

Rapidamente ficou claro que o objetivo de Abiy, a longo prazo, era pôr de lado os veteranos tigrínios, a quem foi retirando o controlo das empresas estatais, dos vastos recursos naturais do país e dos enormes investimentos internacionais, vindos sobretudo da China e das monarquias do Golfo. Algo que o pôs em rota de colisão com o TPLF de Debretsion Gebremichael, que ganhou fama como operador de rádio na guerrilha, especializando-se a bloquear as comunicações do Derg, escondido nas cavernas de Tigré. Gebremichael acabou a liderar da Ethio Telecom, o conglomerado estatal que tem o monopólio das telecomunicações na Etiópia.

«Curiosamente, tanto o Tigré como o Estado federal são liderados por dois homens especialistas em comunicações e serviços secretos, que fizeram a sua vida dentro da estrutura do mesmo partido, o EPRDF, precisamente no mesmo setor», refere Manuel João Ramos. «Tanto um como o outro sabem do que o outro é capaz. E o TPLF, durante os 27 anos em que controlou o Estado federal, criou uma rede extensíssima de obtenção e gestão de informação que não perdeu desde então».

«Importa lembrar que os serviços secretos ainda são parcialmente dominados por tigrínios. Ou, não sendo tigrínios, por etíopes a soldo do TPLF. Por outro lado, também são compostos por muitos oromos, ou gente ligada aos oromos, que são geridos pelo Abiy Ahmed», salienta. «Na verdade, é como se houvesse dois serviços secretos em competição. É uma situação completamente paranoica, como se um Estado estivesse em guerra com outro Estado, sendo que o Estado é o mesmo».

Tudo escalou quando o Governo federal exigiu o cancelamento das eleições regionais do Tigré, devido aos receios da pandemia. Gebremichael recusou, mas o seu tempo começava-se a esgotar. O Governo já começava a preparar a retirada de efetivos militares de Tigré, onde estava colocado o grosso das forças etíopes, ao longo da fronteira com a Eritreia. Prestes a perder o seu grande trunfo, o TPLF ficou cada vez mais desesperado. E lançou um ataque militar a bases no norte, matando militares e apoderando-se de armamento crucial, como lança-foguetes e mísseis, para contrapor à aviação federal.

Contudo, «isto não é uma ação impulsiva, a extinção do TPLF era um plano em cima da mesa de Abiy Ahmed há muito tempo. É um cerco que é tecido há pelo menos dois anos, com a Eritreia e o Sudão», assegura o investigador do ISCTE. É que «as linhas de comunicação via Sudão são essenciais», acrescenta Alexandra Magnólia Dias. «A outra via de comunicação para o TPLF implicaria chegar a Djibuti através de território afar»

«Uma parte da intelligentsia etíope até se pergunta porque é que ele demorou tanto tempo a atacar. Mas ele demorou porque precisou de criar esta rede de alianças internacionais, por um lado», continua Manuel João Ramos. «Por outro, precisou de apaziguar os impulsos autonomistas e independentistas nas outras regiões todas».

«Aquilo que não podemos esquecer é que o Abiy era uma figura relativamente secundária, tal como Gebremichael, dentro da estrutura tentacular que era o EPRDF. E os dois, por razões diferentes, foram impulsionados para o palco político por dentro das estruturas do partido», reforça o antropólogo. «Nenhum deles tem medalhas de independência ou de oposição ao que o EPRDF e o TPLF sempre representaram. Ou seja, estruturas de dominação política de caráter totalitário».