Desporto

Miguel Maia e Miguel Maia Sá. Uma herança de família

Miguel Maia ultrapassou há muito o que nos habituámos a chamar de lógica. Aos 49 anos, o ex-atleta olímpico continua a pisar o palco principal do desporto nacional. Ao serviço do Sporting, partilha agora o balneário com Miguel Maia Sá, o sobrinho, quase três décadas mais jovem. Esta é a história de uma herança de família que promete continuar a dar-nos mais capítulos para escrever.

Não será certamente fácil encontrar quem coloque as ‘mãos no fogo’ pela longevidade bíblica de Matusalém, como não será igualmente fácil encontrar quem – nos dias que correm tão velozes – ainda consiga transportar a memória para a primeira vez em que ouviu falar (ou viu jogar) Miguel Maia, nome incontornável do desporto e do voleibol português. O mesmo Miguel Maia que completa meio século de vida na próxima primavera, não sentado no sofá, a rememorar o passado, com álbuns de fotos e recortes de jornal ao colo, mas no cenário onde sempre habitou aos olhos de, pelo menos, três gerações de portugueses.

Encontramo-lo, hoje, sentado nas bancadas despidas pela pandemia do pavilhão João Rocha, casa do Sporting (clube por que torce desde pequenino), como se se tratasse do guardião involuntário de um tempo ‘congelado’ em recordações – como são sempre as figuras intemporais que nos acompanham pela vida. Está sempre disponível para conversar sobre o passado, é certo, mas vai logo avisando continuar mais interessado a abordar o presente e o futuro.

Qual é, afinal, o segredo de Miguel Maia? O distribuidor que, aos 49 anos, continua a ser a grande referência da equipa de voleibol do Sporting, candidata ao título de campeão nacional. «Sempre tive muito respeito pela minha carreira. Fui muito regrado, descansei muito. Aliás, sempre coloquei o descanso, com disciplina, acima de qualquer outra coisa. Havia quem descansasse para jogar, enquanto eu descansava para treinar. E é por isso que consegui sempre apresentar-me a 200% em todos os momentos da minha carreira», explica.

Falar com Miguel Maia é muito fácil, pois há muitos capítulos por onde escolher. Veja por si mesmo o leitor: 16 títulos de campeão nacional, nove Taças de Portugal, seis Supertaças e ainda uma Taça CEV. E isto apenas no pavilhão (ficando por contar a outra metade da história. Mas já lá vamos...).

«É óbvio que, hoje, a minha condição física é muito diferente. Já nem comparo com os outros jogadores da equipa, muito mais jovens, mas com o que era e sou capaz de fazer. O meu salto já não é o mesmo, a minha velocidade já não é a mesma, o meu tempo de recuperação já não é o mesmo», admite. Nada que, no entanto, o impeça de se manter no topo da modalidade. É assim desde 1987, quando, com apenas 17 anos, começou a dar os primeiros passos na equipa principal da Académica de Espinho. Entretanto, passaram 33 anos de carreira – uma vida completa –, repartida por quatro emblemas portugueses (Sporting de Espinho, Sporting, Académica de Espinho e Esmoriz) e um italiano (Pallavolo Reima Crema), onde esteve uma época. É possível, passado tanto tempo, manter o mesmo foco e a mesma motivação?_O mesmo brilho nos olhos quando se pisa a quadra ou se enfrenta a rede? Miguel Maia garante que sim: «Continuo a sentir a mesma paixão pelo voleibol. É verdade, há dias em que não apetece ao atleta treinar, mas isso acontece com 49, com trinta ou com vinte anos. É perfeitamente natural, faz parte da vida do atleta. O importante é que continuo a divertir-me, a sentir-me bem como jogador. E os clubes e equipas onde joguei até agora continuam também a sentir que sou uma mais-valia para o grupo. Só assim é que faz sentido».

É precisamente alimentando-se do presente e do futuro que Miguel Maia encara cada treino e cada jogo. Esperando fazer sempre mais e melhor, conquistar sempre mais. «Esse é um dos meus grandes segredos: nunca vivi, e não vivo, à sombra daquilo que conquistei ao longo da minha carreira. Assim que ganho um jogo ou um campeonato, essa vitória passa a pertencer ao passado. E logo no dia seguinte, começo a olhar para o futuro. O meu objetivo é, ainda hoje, ser cada vez mais vitorioso. E estou no sítio ideal. A equipa onde estou luta por títulos, e torna-me possível continuar a lutar por títulos. Por isso, a minha meta mantém-se e passa por ganhar cada jogo e cada competição em que estou inserido», afirma.

E nenhuma derrota lhe retirou a força necessária para deixar de suster a bola no ar? Para deixar de a fazer passar para o lado de lá da rede? «Não, nunca». E os Jogos Olímpicos? Que foram três – Atlanta’ 1996, Sydney’ 2000 e Atenas 2004 –, com dois quartos lugares (em 1996 e 2000), mesmo à beirinha das medalhas, com o país todo a ver e a sofrer pela dupla completa com João Brenha, companheiro de sempre, na areia e não só. «Os Jogos Olímpicos são, de facto, uma mágoa, sobretudo porque nas duas meias-finais estivemos muito perto de ganhar, de conseguirmos passar à final e ter acesso às medalhas. Não foi possível. A derrota faz parte da vida de um desportista. E apesar de os Jogos Olímpicos serem uma desilusão, fiz como faço sempre, fechei essa etapa logo no dia seguinte às derrotas. Comecei imediatamente a olhar para o futuro, de cabeça erguida», sublinha Miguel Maia.

Enquanto conversamos, os olhares dos seus colegas vão-se cruzando com o seu, naquele misto de respeito e admiração. E como é ter Miguel Maia como companheiro de balneário? «Os colegas ficam surpreendidos, é óbvio. Não é normal um atleta jogar com a minha idade. Tenho consciência que sou uma referência, que as pessoas olham para mim com respeito, admiração e carinho. Pelo atleta que sou, mas também pela pessoa que sou. E fico muito feliz por isso, por servir de exemplo, e poder transmitir a minha experiência aos mais novos. É um orgulhoso».

 

Atração (fatal) pelo voleibol

No círculo de jogadores que ouvem a palestra de Gersinho, treinador brasileiro, há outra camisola com o nome ‘Maia’ inscrito nas costas. Trata-se de Miguel Maia Sá, 20 anos, ex-Sporting de Espinho, que chegou esta época ao reino do leão. Miguel Maia Sá é sobrinho de Miguel Maia e, hoje, vive um daqueles sonhos improváveis que se guardam numa caixa secreta (e silenciosa), ao longo da infância e juventude. «Nunca imaginei que fosse possível jogar com o meu tio, mas era um sonho que tinha. Nos jantares de família, lembro-me perfeitamente, a determinada altura comecei a pedir-lhe para ele aguentar só mais um bocadinho (risos)».

Miguel Maia Sá começou, a exemplo do tio – a sua grande referência (poderia, porventura, ser de outra maneira?) –, a praticar voleibol na Académica de Espinho. Antes, ainda jogou futebol, pequenino, na escola d’ Os Baixinhos - ADF Anta, bem pertinho de casa. Os pontapés na bola duraram onze anos, mas Espinho, capital nacional do voleibol, conhece os seus como ninguém, e não tardou que Miguel Maia Sá fosse ‘recrutado’, e mudasse de opinião: «Gostava muito de jogar futebol, mas houve um treinador da Académica de Espinho que me desafiou para experimentar o voleibol. Ainda consegui conciliar as duas modalidades durante um ano, mas chegou uma altura em que tive de optar. No final da primeira época, acabei por escolher o voleibol».

Depois da passagem pelo Sporting de Espinho (onde se sagrou bicampeão nacional de juniores e participou nas conquistas da Taça de Portugal e da Supertaça), Miguel Maia Sá concretizou o sonho de partilhar o balneário com o seu tio. Como foi ou, melhor ainda, como está a ser a experiência? «É uma alegria enorme», dispara, sem hesitar, de forma simples e direta. E, na verdade, neste caso é tudo aquilo que basta dizer. «Eu não ligava muito ao voleibol, mas lembro-me que comecei a ter contacto com a modalidade quando ia à praia com o meu tio. Ele jogava e eu também comecei a jogar com ele. Depois, ele começou a ensinar-me muitas coisas, comecei a estar mais atento, a interessar-me. Quando comecei a vê-lo jogar comecei a tentar imitá-lo, a tentar fazer as coisas que ele fazia», conta. E conseguia? «Não... (risos) mas tentava».

O talento para o voleibol parece ser herança de família. Normalmente, com o talento, vem também uma responsabilidade acrescida. E uma maior pressão. «Não sinto essa pressão, sinceramente. Já me mentalizei que não posso estar a tentar ser igual, ou a seguir as pisadas do meu tio. Ele teve a carreira dele, mas eu tenho de seguir o meu caminho, continuar a trabalhar para construir a minha própria carreira», diz Miguel Maia Sá.

E o tio? O que tem ele a dizer sobre o assunto? «É exatamente assim. O Miguel, mas também o Guilherme e a Ana, têm de seguir os seus próprios caminhos. E não tentarem colar-se àquilo que fiz. Tento ajudar todos os jovens e, é óbvio, que quando se trata de família a preocupação é maior. Como estou mais tempo com eles também tenho oportunidade de lhes ir transmitindo mais alguns conselhos», diz Miguel Maia. Que deixa ainda uma dica para todos os jovens jogadores: «Os mais novos, por vezes, quando chegam aos seniores, acham que já fazem o suficiente, mas para crescerem têm sempre de dar mais do que aquilo que já dão nos treinos. Eu próprio, com 17 anos, quando comecei, no final de cada treino pedia umas bolas extra e continuava a trabalhar mais um bocadinho. E só assim aprendi e evoluí».

Por esta altura, estará o leitor atento a perguntar-se quem são os novos e inesperados protagonistas desta história introduzidos acima pelo próprio Miguel Maia. Pois bem, trata-se de Guilherme (Maia), 18 anos, jogador da Académica de Espinho, e Ana (Maia), de 16, do Porto Vólei. Filhos do próprio Miguel Maia. Também têm talento para o voleibol? «Sim, têm», responde o pai. Mas deixemos este tema para outro capítulo. Quem sabe, a escrever em breve.