Sociedade

O Natal da pandemia

O Natal vai ser diferente: a segurança das famílias é a prioridade e evitar riscos desnecessários é o melhor presente num ano em que não vamos conseguir juntar todos à mesa


Joana Schenker. Natal minimalista

Vou ter que ser sincera, gosto do Natal mas não sou uma pessoa muito natalícia, sinto até uma enorme contradição dentro de mim. O Natal é muito e é pouco ao mesmo tempo. Uma celebração de luzes, bonita e cheia de amor mas também consumista e materialista. Gosto de uma mesa cheia de comida boa e de juntar a família, mas aflige-me ver o desperdício, o exagero e o consequente enjoo que resulta de comer demais. Mas acredito que, com um pouco de bom senso e criatividade, podemos ter um natal cheio e pleno. Porque menos é o novo mais. No meu caso, será um Natal minimalista, em que vou comprar menos mas melhor; uma mesa com mais qualidade e menos quantidade (obviamente livre de animais), papel de jornal para embrulhar as prendas e uma árvore de natal feita de paletes - que já me serviu muitos anos -, perto da lareira. Acredito que num ano como este, com a covid-19, é possível avaliar o que, afinal, é importante na vida. Ter um Natal mais simples em coisas e mais recheado em significado, atitudes, gestos e palavras nunca fez tanto sentido – e não perderá uma pitada de magia! E, claro, vou manter a tradição que repito todos os anos: uma bela surfada no dia 25, antes do almoço de natal. Feliz Natal!

Manuela Eanes. Minimizar riscos desnecessários 

Começo por felicitar o semanário “Sol” pelo nome atribuído à sua nova revista: “Luz”, uma palavra com tanto significado e importância nas nossas vidas, sempre, mas sobretudo nesta época de Natal, em que se celebra o nascimento de Jesus, a Luz do Mundo. Desejo, sinceramente, que esta Luz ilumine o coração de todos, e a todos desejo um Santo Natal.

Pedem-me que partilhe como será passado o Natal na nossa família, neste ano atípico, e em que todos temos de fazer a nossa parte para cuidar dos outros. 

Dado o contexto atual, passaremos este Natal só eu e o meu marido, no dia 24,  reunindo filhos, noras e netos, noutras datas. Uns dias antes, teremos a visita da nossa neta mais velha, a Joana, que vive no Porto, e vem a Lisboa visitar os avós. Uns dias mais tarde, estaremos com os mais pequenos, o António e a Madalena.

Pensamos que desta forma poderemos partilhar alguns momentos, de carinho e ternura, com aqueles de quem gostamos, minimizando riscos desnecessários para todos.

Em nossa opinião, o que importa não é passar a noite ou o dia de Natal em família. O mais importante é manter a família presente e unida ao longo de todo o ano.

 

António Bagão Félix. A magia do Natal permanece

O Natal não é apenas uma data. É um tempo. Não é apenas chegar. É ir ao encontro. Não é apenas ter. É sobretudo ser. Não é apenas consumismo. É evitar a consumição. Não é apenas ansiedade. É serenidade. Não é apenas luz dos néones. É luz dentro de nós. Não é apenas o império de mensagens em catadupa e de votos de circunstância. É a oportunidade para reforçar a autenticidade das relações. Não é apenas uma contabilidade de presentes. É uma vivência pela qual quem os recebe está sempre antes do que se dá. Não é apenas um Natal vivido como um tempo de fora, que nos comanda. É um tempo de dentro, que nós comandamos. Não é uma data administrativa ou de mera festa. É uma data que celebra a alegria o Advento e a Vida.

Mesmo neste ano tão estranho, o essencial do Natal permanece. Mudam, porém, as circunstâncias. Com renúncias e imposições. Será um Natal mais desigual e mais fragmentado do ponto de vista familiar e geracional. Onde a solidão não querida e a saudade não antecipada doem até às profundezas da alma. 

Em qualquer caso, é um Natal onde importa preservar a magia e a esperança da criança que há dentro de cada um de nós. E que aqui sintetizo na pergunta que a Maria, a minha neta mais nova, fez à mãe: “este ano, o Pai Natal também vai ter uma máscara, como a nossa?”.

 

P. Vítor Melícias

Desde que em 1223 S. Francisco montou em Gréccio, na Itália, o primeiro presépio do mundo, o Natal é, para os franciscanos, a maior festa de todo o calendário celebrativo do ano. Para celebrar a Humanidade de Deus e a centralidade de Cristo na História da Salvação, em todos os conventos franciscanos e nas instituições a eles ligadas pelo Natal tudo é festa e alegria. E é assim que eu o tenho vivido em rezas e cantos, mas também em festivos convívios com Irmãos, benfeitores, amigos e familiares. É Natal, é Natal!

Este ano, porém, em razão da pandemia e em defesa da saúde pública, o meu Natal e os dos meus Irmãos Franciscanos aqui no convento de Varatojo vai ser muito diferente. Não no espírito e intensidade religiosa, mas no modo e manifestações exteriores. 

Assim, quer a nossa sempre muito concorrida Missa do Galo, seguida de uma festiva canjinha conventual de acolhimento aos benfeitores e à população, quer a nossa participação em   celebrações nas comunidades desta região serão limitadas ao mínimo, com máscaras e distanciamentos, em rigoroso respeito pelas instruções e recomendações sanitárias quer das autoridades civis quer das religiosas.

A própria ornamentação do Convento com a montagem de lindíssimos presépios, que a população das redondezas costuma visitar em família com seus filhos e netos, este ano para evitar concentrações de pessoas ficará limitada ao clássico presépio permanente no exterior da Igreja conventual.

Haverá, é claro, a tradicional Consoada com o bacalhauzinho que uns benfeitores já tiveram a generosidade de nos oferecer, e, certamente, com as filhós, a aletria e as rabanadas, que são os doces de tradição das terras de origem dos Irmãos residentes.

Depois, imediatamente antes da Missa do Galo, faz-se o “Despertar do Menino”, antiquíssima cerimónia franciscana na qual o Guardião acompanhado de acólitos com círios acesos, vai na escuridão da noite,  bater à porta da cela de cada um dos Irmãos cantando-lhe “Christus natus est nobis” (Cristo nasceu para nós) e dando-lhe a beijar a imagem do Menino levado em jubilosa procissão de luminosos pavios e ao som repetidamente cantado desse “Christus natus” para o presépio junto do altar da Igreja onde se celebrará a Missa da noite santa. Coisa linda de se ver e mais ainda de se viver!

No dia 25, depois da missa de festa, os Irmãos são autorizados a irem celebrar com os seus familiares. É o que também eu costumo fazer. Este ano, porém, eu e os meus, vamos celebrar em contatos à distância, precisamente para que todos sintamos que o melhor convívio natalício das famílias é não as pôr minimamente em risco. Não se deve facilitar, porque a coisa é séria e este ano o Natal para ser Natal deve mesmo ser diferente, celebrando-se como verdadeira Festa de Família, em que, por amor, todos nos protegemos uns aos outros. Santo e Feliz Natal e Ano Novo em segurança.

 

Vasco Vilaça. Natal sueco em vez do bacalhau 

Como vivo e treino na Suécia, costumo viajar para Portugal para passar o Natal com a família, com a minha irmã, tios, primos e avós e também com os meus pais, que são obrigados a viajar para o nosso país, já que por razões profissionais a minha mãe vive na Suécia e o meu pai na Finlândia. Devido à pandemia reconsiderámos a habitual celebração, por causa dos riscos que implica viajar nesta altura e também porque nos iríamos juntar com outros membros da família, nomeadamente os meus avós. Assim, vou reunir-me apenas com os meus pais e a minha irmã. Desta vez, trocamos o bacalhau com todos e celebramos a quadra festiva em casa da minha mãe, que vive numa cidade sueca a 200km de onde vivo. Claro que seria preferível que estivesse a família toda reunida, como habitualmente}, mas tendo em conta os perigos a que estaríamos expostos, ou na possibilidade de colocar outros em situação de risco, tomámos esta opção, esperando que este Natal sueco, sem as iguarias nacionais, seja só desta vez!  De qualquer forma, mesmo durante a altura das festas, a exigência de treinar todos os dias continua, o que pode incluir, por exemplo, nadar cerca de 6000 metros de manhã, e depois de uma breve sesta, a seguir ao almoço, ainda fazer um treino de ciclismo de uma hora, seguido de mais uma hora de corrida. 

 

João César das Neves. Natal transformador 

Este ano, no Natal, não temos lugar na hospedaria. A pandemia perturba tradições, impede as reuniões, complica as festas, presentes, até cancela a Missa do Galo. Sem dúvida que este ano seremos obrigados a passar o Natal na estrebaria, com os animais. Por isso, este Natal, se nos abrirmos a ele, pode ser mais verdadeiro, profundo, transformador, mais próximo do Menino, deitado na manjedoura.

Este ano, todo ele, tem sido alucinante. Mas no Natal as coisas sentem-se mais. Porque o Natal é sempre igual. A nossa vida tem muitos tombos, percalços, novidades, mas no Natal voltamos sempre ao habitual, à verdade que não muda. Por isso, as dramáticas mudanças deste ano sentem-se mais no Natal. Aí é onde custa mais mudar.

Mas isso mesmo pode ajudar-nos a chegar à verdade. Porque o Natal não é, antes de mais, a festa da família, da tradição, da solidariedade. É a festa do inesperado, do inimaginável, do impossível real. Aquilo que o Natal de 2020 diz é que Deus quer nascer no meio da nossa pandemia.

 

João Rebocho Pais. O Natal do confinamento 

 

Na origem, fazendo fé nas imagens que nos foram ensinadas, pintadas em tela ou esculpidas em figuras de barro, nesse tempo eram três em casa acabanada, o pai José, a mãe Maria e Jesus bebé recém-chegado, juntando-se-lhes alguns animais por companhia, um burro, uma vaca, mais ainda um céu estrelado, todo o conjunto aguardando a chegada de três Reis Magos, que guiados por estrela sábia aportariam com oferendas em homenagem ao filho do deus pai.

Natal, tempo de família.

Porque nestes tempos de tempos contados, de pressas compartimentadas, faz-se família e ceia, perú, bacalhau e embrulhos, de costumadas viagens e correrias acima e abaixo, numa ida e volta entremeada por abraços de uma saudade que durante o ano pouca luz do dia conheceram.

E veio o vírus sem aviso, veio o vagar de pessoas por casa, veio o desnorte de tempo a mais para dias repetidos, para dias sem pressas, dias de vida lenta e vagarosa.

Mas que não tema o trio familiar original, mais o burro e a vaca, tão pouco os reis que chegarão, pode o ano ser longo e dolorosamente lento, podem os meses parecer iguais, as semanas tão demoradas que parecem quinzenas, pode tudo isso, e os nossos em seu sítio, que deles nos lembraremos, por eles batalharemos um sorriso e uma memória em nosso confinamento natalício.

Desculpem-me a heresia e a sugestão.

Desconfinemo-nos do calendário.

Estando lá com quem é afinal parte de nós.

Porque o Natal, é quando um vírus quer.

 

Ana Rita Cavaco. O Natal é todos os dias.

Sempre gostei de celebrar o Natal. Tenho um presépio muito grande do meu bisavô, ocupa metade da sala. Gosto de o fazer, das luzinhas, de todos os preparativos, mas o espírito do Natal é o que vive dentro de nós todos os dias. É estarmos todos os dias com quem gostamos, dizermos a essas pessoas que gostamos delas. Incomoda-me as pessoas que nesta altura mandam mensagens desenfreadamente, às vezes nem sei quem são. Prefiro falar, estar com os meus. 

Este Natal vai ser diferente. Somos uma família muito afetiva e ainda custa mais. Não abraço o meu tio desde março. A minha mãe vive há muitos anos na casa de saúde da Idanha e é a primeira vez que não a vou trazer para estar connosco. Seria um risco para ela e para as outras senhoras. Não haverá espaço para todas as pessoas que vão a casa dos seus familiares fazerem a quarentena no regresso e mesmo que fizesse um teste rápido no dia 25, podia ter sintomas passados dois ou três dias e infetar as outras pessoas. Do ponto de vista de saúde pública não tem qualquer efeito prático. Se calhar é uma forma de as pessoas sossegarem as suas consciências, mas estão a fazer mal. E assim vamos ser poucos, seis, numa casa grande, com espaço, com jardim. Os desejos para este Natal são também os mesmos dos outros dias do ano. Se as pessoas não estão mais humanas e solidárias, e aprendeu-se pouco com tudo o que vivemos, que o possam ser. Que os enfermeiros, exaustos, sejam acarinhados e valorizados. Infelizmente, em Portugal, continua a não ser uma profissão dignificada, independentemente de quem governa, porque já passaram vários governos. Para 2021 temos um orçamento do Estado que prevê um reforço maior para a TAP do que o para o SNS. O país continua a ter as prioridades trocadas e gostava que estivessem no sítio certo. 

 

 

Miguel Guimarães. Renascer no Natal

Se revisitarmos a etimologia da palavra Natal, ela remete-nos para “dia de nascimento”. Para crentes ou não, a verdade é que esta época do nascimento de Jesus se tornou numa altura que é vivida de forma especial em família, e em que deixamos as correrias e arrufos do ano inteiro esquecidos ou, pelo menos, adiados. Neste ano difícil, em que a pandemia abalou as nossas vidas pessoais, profissionais e a saúde de todos nós, ou dos que nos são próximos, é compreensível que estejamos mais sensíveis e com maior necessidade de nos juntarmos.

Contudo, é essencial que saibamos renascer neste Natal e que nos reinventemos, reencontrando outras formas de afeto e dando mais tempo à ciência para voltarmos a estarmos juntos. Os portugueses foram um exemplo, antecipando-se até ao poder político em algumas medidas necessárias. Neste Natal, a prudência e cuidado devem estar no centro das nossas mesas de consoada, para que não haja espaço para o vírus entrar sorrateiramente nas nossas famílias, como já provou que é capaz de fazer.

Proteger os que amamos é o presente que devemos querer em todas as casas, o que implica fazer escolhas difíceis e não arriscar reunir muito mais do que o nosso núcleo familiar principal. Não há um número mágico, mas, para ficarmos com uma ideia, há países a colocar as dez pessoas como um limite máximo. Outros recomendam que não se junte na mesma casa mais do que quatro pessoas que não costumem ali viver. A fotografia de família do Natal de 2020 será certamente mais pequena e com adereços como máscaras e álcool gel por perto. Será a fotografia certa para dentro de um ano continuarmos todos juntos. Da minha parte o Natal será cumprido em segurança adotando as recomendações que todos devemos seguir e, no meu dever de médico, estarei de escala na equipa que assegura o transplante renal no CHUSJ.