Cultura

Joseph Mengele. Uma onda levou o Anjo da Morte

Morreu afogado na praia de Bertioga, em São Paulo, Brasil, a 7 de fevereiro de 1979, um dos escroques mais abjectos que o nazismo produziu. Durante anos viveu clandestino na América do Sul, tendo visitado a Alemanha a despeito de ser um homem procurado por toda a gente como criminoso de Aushwitz.

No início de Fevereiro de 1979, Joseph Mengele, provavelmente o mais cruel e mais macabro dos assassinos de Aushwitz, estava apaixonado como um garoto. A ‘vítima’ chamava-se Elsa Gulpian Oliveira, uma empregada quarenta anos mais nova do que ele, basicamente a sua única companhia nessa altura em que, depois de ter sofrido um derrame cerebral em 1976, deixando-o de tal forma diminuído que o filho Rolf foi da Alemanha aoBrasil, a São Paulo, ao bairro de Eldorado para visitar o pai que aí vivia clandestinamente, com os elementos da Mossad a rosnarem-lhe aos calcanhares como cães raivosos. Rolf confessou mais tarde que apesar de o encontro com o pai ter reactivado alguns laços de sangue, e Mengele se ter mostrado feliz com a notícia de que iria ser avô, o seu espírito profundamente nazi continuava arreigado e não sentia qualquer tipo de remorso pelos crimes cometido durante a IIGrande Guerra. «De qualquer forma não entreguei o meu pai às autoridades», revelou Rolf a Gerald El Posner e a John Ware, aurores de uma muito completa biografia sobre o canalha. «No fim de contas era meu pai. Não podia ia dali avisar a polícia». E, no entanto, umas horas antes, numa conversa acesa entre ambos, Joseph dirigira-se a ele de forma brusca gritanddo: «Não me digas que tu, meu único filho, acreditas no que escrevem sobre mim! Pela alma da minha mãe, nunca fiz ,mal a ninguém!»

Enquanto a falecida velhota dava voltas no túmulo, Mengele continuava a viver numa ansiedade incontrolável que lhe desfazia o sistema nervoso. Usava o bilhete de identidade de um amigo que partira para Alemanha em 1971 e lho deixara: tinha o nome de Wolfgang Gehrard, e reduzira as suas relações sociais à companhia de um casal de apelido Bossert que lhe sugeriram mudar-se para uma zona mais agradável de forma a tentar desbloquear a sua depressão galopante. O problema é que a fixação por Elsa provocava-lhe borborigmos no estômago. Chegava ao ponto de chorar, ajoelhado em frente a Elsa e à mãe desta, suplicando-lhe para que fosse viver com ele. Não era assunto que Elsa quisesse sequer discutir. «Quando lhe disse que tinha um noivo, fartou-se de soluçar desesperado e disse que iria morrer em breve tal era o desgosto que sentia».

Joseph Mengele entrara numa espiral de debilidade psicológica e começou a caumular problemas físicos graves: hipertensão, uma grave infecção no ouvido interno, problemas na próstata e uma dolorosa doença de coluna. O canalha que torturara sem piedade milhares de pessoas em Aushwitz transformara-se num farrapo cujos lamentos se tornavam insuportáveis para os poucos que tinham contacto com ele. Arranjou uma nova empregada: Inez Mehlich. Também ela se fartou rapidamente das choraminguices de Joseph: “Ás vezes tinha estados de ansiedade terríveis. Batia à minha porta a meio da noite e depois dizia - “Desculpe mas só queria saber se está bem”».

Um homem perdido

Depois do Natal de 1978, Mengele encontrava-se num estado de inusitada ausência de espírito. Dizer que estava louco era suave para um homem que sempre tivera atitudes classificáveis como loucas. Era, talvez, um fantasma. Não tinha qualquer prazer na vida e sofria de uma angústia continuada e impossível de lidar. Acabou por aceitar o convite dos Bossert para ficar uns tempos na casa que o casal possuía na praia da Bertioga, uma estância balnear na zona de Santos, quarenta quilómetros a sul de São Paulo. Mas não deixou de afirmar: «Vou para a praia porque a minha vida está no fim».

Fazia, nesse Verão brasileiro, um calor de ananazes. Joseph Mengele viajou durante duas horas numa velha camioneta e chegou a casa dos Bossert a ferver de impaciência como se estivesse dentro de uma panela de pressão. Fechou-se durante dias num quarto, com as persianascerradas, numa verdadeira espécie de sauna. Finalmente, no dia 7 de Fevereiro, Wolfram e Liselotte convenceram-no a ir à praia. Às quatro e meia da tarde mergulhou na aparente calmaria do Atlântico. O filho dos Bossert soltou um grito: «Cuidado!A corrente é muito forte!» Joseph estava metido em sarilhos, debatendo-se em desespero. Wolfram atirou-se à agua  e foi em socorro do amigo. Foi assim que descreveu o momento: «Eu tinha de nadar com um braço e de o arrastar com o outro enquanto a maré a levar-nos para o largo. A muito custo, tentava manter-lhe a cabeça fora de água e nunca mais sentia a terra debaixo dos pés pelo que sabia que não nos estávamos a aproximar-nos da costa». De súbito, Mengele reagiu. Tentou nadar com um só braço. Tivera uma apoplexia ee ficara paralisado de um lado. «Mergulhei outra vez, pousei os calcanhares no fundo e mantive-o por cima da cabeça antes de voltar à tona. E foi assim que conseguimos chegar à costa».
Joseph não sobreviveu, a despeito da tentativa de um médico que testemunhara o acontecimento e tentou a respiração boca a boca e a massagem cardíaca. A noite caíra entretanto, Segundo o relatório do polícia Dias Romão, Liselotte manteve-se junto do cadáver com uma vela acesa, lamentando-se: «O Tio morreu... oTio morreu».

O negro Anjo Branco

Bem longe dali, na Alemanha, o estado de espírito de Rolf Mengele era bastante diferente mal soube da notícia: «Senti um enorme alívio. Eu vivia um problema com o qual não conseguia viver: por um lado tratava-se do meu pai; por outro lado havia todas as acusações, aquelas imagens de horríveis de Aushwitz. Um julgamento teria sido terrível».

Rolf tinha razão. Joseph Mengele, o Anjo da Morte, nascido em Günzburg no dia 11 de Março de 1911, foi um dos seres mais abjectos que o nazismo produziu. Obcecado pela genética, o SS-Hauptsturmführer vivia fascinado por gémeos. A tal ponto que fazia questão de esperar a chegada dos comboios e afastar do grupo dos condenados aos fornos todos os que iam encontrando. Em 1943 já tinha conquistado um estatuto em Aushwitz que lhe permitia decidir sobre a vida e a morte dos prisioneiros. Vestido impecavelmente com uma bata branca e usando luvas brancas, utiizava uma vara para conduzir as multidões de judeus como se fossem animais. Com um simples gesto, indicava quem deveria seguir para os crematórios, quem seguia para o trabalho escravo e quem passaria a ser sua cobaia no consultório médico onde realizava experiências tão aviltantes que nada tinham que ver com a medicina.
Os seus preferidos eram, como já se viu, gémeos. Mas também se deixava encantar por gente com defeitos físicos, como anões ou pessoas com o lábio leporino.

Uma das suas fontes de experiências era a mutação genética. Estava convencido de que poderia mudar a evolução da espécie com gestos tão profundamente imbecis como o de injectar tinta azul nas córneas das vítimas, procurando alterar-lhes a cor dos olhos. A barbárie era total, defendida pelo próprio com a justificação de que eram actos fundamentais para o avanço da medicina.

Como qualquer perfeito psicopata, conseguia incutir, inicialmente, nas crianças, uma sensação de protecção, alimentando-as decentemente, acarinhando-as e permitindo-lhes viver em condições minimamente decentes se comparadas com os restantes prisioneiros de Aushwitz-Birkenau. Depois, fascinado como era por gémeos, utilizava-os como porquinhos-da-Índia. Tirava sangue de um para aplicar no outro, fazia-lhes cirurgias a órgãos para perceber se, enxertados nos irmãos, eram bem recebidos pelo organismo, retirava-lhes os olhos sem anestesia pela simples curiosidade de perceber em que momento exacto em que os garotos perdiam a vista. Convencido que os gémeos eram a forma mais prática de aumentar a população ariana do país, dedicou-se a um programa de fertilização de gémeos, fazendo-os acasalar uns com os outros, às vezes irmãos com irmãs.

Outro dos seus ponto de interesse eram as grávidas. Depois de os bebés virem ao mundo, impedia as mães de as alimentarem para tirar notas sobre o tempo que demoravam a morrer. Certa vez decidiu geminar dois corcundas como se fossem siameses. Coseu-os costas com costas, da zona da marreca até aos pulsos.

A crueldade de Mengele não  tinha limites. Nem a sua imaginação, sempre direccionada para o mal. Além disso era de uma vaidade desmedida. Enviava as sua anotações para o Laboratório de Berlim, descrevendo os pormenores das experiências e as conclusões que tirava delas, algo que não passava de uma conversa fiada com laivos de medicina.

Nalguns documentos escritos por ele e que acabaram por ser encontrados, descreve com excessos de entusiasmo o dia 19 de Maio de 1944. Um dos seus funcionários veio avisá-lo excitadamente que chegara no último comboio uma família de nome Ovitz. Pai, mãe e nove filhos, naturais da Hungria, viajavam pela Europa apresentando um show musical. Mas o que deixou Mengele fora de si de tanta felicidade foi o facto de sete dos nove infantes serem anões. Separou toda a família do resto dos prisioneiros e iniciou um período pavoroso de oito meses que assinalou como Provas Científicas. O que os Ovitz sofreram às mãos do Anjo da Morte foi algo de indiscritível. Todos os dias pela manhã fazia uma recolha de sangue e repetia o comportamento várias vezes durante 24 horas, na tentativa de perceber quem reagia melhor aos sangramentos. Passou depois ao arrancar de dentes e de unhas, sempre uma teimosa tentativa de comparar as reacções dos irmãos, e perceber quais cicatrizavam primeiro, convencido de que aquelas brincadeiras macabras tinham muito interesse científico. Apesar de todo este massacre, os Ovitz sobreviveram a Mengele. E, no dia 17 de Janeiro de 1945, foi a vez de Joseph fugir à chegada do Exército Vermelho para nunca ser apanhado.

Assumiu a identidade de Fritz Hollmann. O filho Rolf, nascera um ano antes.Esteve durante algumas semanas prisioneiro dos americanos, registado com o seu nome autêntico, mas a desorganização dos arquivos valeu-lhe ordem de soltura que ele aproveitou para viver clandestinamente com a família numa fazenda em Rosenheim, na alta-Baviera. O cerco apertava-se, no entanto. O julgamento de Nuremberga trouxe o seu nome a público novamente. Fugiu para Génova escondido sob o pseudónimo de Helmut Gregor, do Comité Internacional da Cruz Vermelha, e foi com esse nome que arranjou forma de escapulir para Buenos Aires.
A não captura de Joseph Mengele foi tidaa como uma dos grandes falhanços da Mossad, a polícia secreta israelita, sobretudo depois de terem apanhado Adolf Eichmann, um dos cabecilhas da logística da deportação em massa de judeus para os campos de concentração, precisamente e Buenos Aires. Mais escorregadio, Mengele viveu no Paraguai e no Brasil e chegou a visitar clandestinamente a Alemanha para ver o filho Rolf a quem foi dito que se tratava de um tio.

Os Bossert fizeram os impossíveis para que ninguém soubesse que o cadáver de Wolfgang Gerhard, enterrado no cemitério de Nossa Senhora do Rosário, numa colina em Embu, 20 quilómetros a oeste de São Paulo, ao lado da cova que continha os restos mortais da mãe do verdadeiro Wolfgang, fosse alguma vez  ligado ao nome de Mengele. Só uma exumação do cadáver, feita seis anos mais tarde, confirmou a identidade do monstro de Aushwitz. Por seu lado, a família Mengele também preferiu manter-se em silêncio em relação à morte do Anjo Branco, embora em termos comerciais tivesse sido vantajoso para a Karl Mengele & Sons, empresa produtora de máquinas agrícolas, que se  veria assim livre de um nome peçonhento. Rolf voltou a São Paulo para recolher os objectos pessoais do pai. Nada de que  pudesse orgulhar-se. Mas fechava um capítulo na sua vida. O mais negro de todos eles.