Opiniao

Dando porrada na tristeza

José Adilson dos Santos ganhou alcunha de gorila do desenhos animados: Maguila. Doía-lhe a falta de reconhecimento.

Diziam que só batia em fracos. E ele não gostava, claro. Enchia o peito e exclamava: «Sou cabra muito macho!». Deu um livro: Maguila: A Saga de um Cabra-Macho Campeão, de Carlos Alencar. Mereceu-o. José Adilson Rodrigues dos Santos não era de levar desaforo para casa, como gostam de dizer os brasileiro. Ainda criança, em Aracaju, onde nasceu no dia 12 de junho de 1958, arreava forte na miudagem que gostava de se meter com ele por causa do jeito mal formado de braços compridos, mãos batendo quase nos joelhos, peitaça de dar medo e feitio pachola como o personagem dos desenhos animados à qual foi buscar a alcunha, o Gorila Maguila de Hanna Barbera, um macacão que mora na loja de animais de Mr. Peebles e passa o tempo a ser exibido na vitrina. Volta e meia, alguém o compra e leva para casa, mas acaba por devolvê-lo pouco depois, ou porque come demais ou porque é bruto de derreter paciências, não por maldade mas por brutalidade pura e dura.

Era essa a imagem que Maguila, o não gorila, queria dar no ringue. Um bruto desalmado capaz de desfazer quem tivesse o distinto atrevimento de querer combater contra ele. A infância de José em Aracaju foi curta. A família emigrou para São Paulo em busca de trabalho remunerado. A infância de José na vida praticamente não existiu. Era um menino ainda quando arranjou emprego na construção civil, carregando baldes de cimento e vigas de aço como se fossem feitos de penas. Tamanha força deu nas vistas, como não podia deixar de ser. Não tardou a treinar-se em ginásios manhosos onde socava pneus velhos em vez de sacos de areia. Mas pobre também tem direito a ter sorte. E a sorte de Maguila foi ter conhecido Luciano do Valle Queiroz, locutor, apresentador de televisão e empresário. Luciano entregou José nas mãos mágicas de Angelo Dundee, que não satisfeito por ter sido treinador de Mohammad Ali, ensinou uma ou duas coisas a_Sugar Ray Leonard e George Foreman, entre outros. Foi como se tivessem aberto a jaula ao Cabra-Macho.

Há quem diga que Maguila foi o mais carismático de todos os pugilistas brasileiros, Eder_Joffre incluído, e há quem diga que Luciano do Valle construiu a sua carreira em cima de combates contra pugilistas menores e facilmente espancáveis. Este era um argumento que punha Maguila a fumegar pelos ouvidos. Ainda por cima quando lhe era recordado, logo a seguir, que os seus combates mais importantes tinham sido relatados na rádio, em direto, por um tal Luciano do Valle. «Ele não estava lá dentro do ringue, pois não?», perguntava furioso. «Quem estava era eu! E quem derrubou James Quebra Ossos Smith?! E quem deu um naucaute a Daniel Falconi?! Eu ou Luciano? Fui eu. Eu, o Cabra-Macho. Ele só tinha de me arranjar os combates e eu ia lá e combatia...».

Pois, era esse mesmo o problema. Quebra Ossos e Falconi não eram decididamente boxeurs para ficarem na história, nem mesmo pelo caudal de derrotas que foram colecionando. Quebra Ossos Smith foi, com certeza, o adversário mais categorizado que Maguila bateu, mas há que acrescentar que o combate decorreu numa altura em que Smith estava bem mais preocupado com os estudos do que com murros na tromba de um brasileiro façanhudo. Perdeu no ringue mas ganhou um diploma universitário que lhe permitiu vir a ser professor.

José Adilson dos Santos tanto sarrazinou a cabeça de Luciano que conseguiu uma digressão pelos Estados Unidos durante a qual defrontou George Foreman e Evander Holyfield. Apanhou forte e feio, mas saiu feliz por se ter batido com os melhores dos melhores, ultrapassando o mito de que Luciano construíra o seu ranking à custa de combinações com pugilistas de meia-tijela que fazia com que os próprios brasileiros desprezassem os seus títulos de campeão sul-americano e de latino-americano.

«A dor é minha em mim doeu/A culpa é sua o samba é meu», cantava João Gilberto. A dor de Maguila nunca passou. Ficou lá dentro, mastigando-lhe as vísceras, repisando-lhe o cérebro, torturando-o com a falta de reconhecimento a que os compatriotas do devotaram, na sua grande generalidade.

Quando perdeu por KO para Daniel Frank, a 29 de Fevereiro de 2000, decidiu que chegava de apanhar. Luciano, esse, já tinha decidido o mesmo há muito tempo, abandonando-o à sua sorte. José Adilson dedicou-se a ser comentador televisivo. Não de boxe, mas de economia. Em seguida, foi cantor e editou um álbum chamado Vida de Campeão. Não levava jeito por aí além, mas lá foi trauteando: «Eu vou dar é porrada na tristeza/Aqui com nós não tem tristeza não/Aqui é só alegria/Dei um soco na preguiça/Pra moleza não baixei a guarda/Nocauteei a tristeza/Encarei a minha estrada...». Depois veio o Alzheimer de esqueceu a letra.

afonso.melo@newsplex.pt