O Mundo em Calções

Quatro cavalos e um português

Ruy Lopez, um dos grandes do xadrez de todos os tempos, aprendeu muito com Pedro Damião, um boticário de Odemira que teve de fugir para Roma...

Zafra não fica longe e vale a pena lá ir. É assim como ir a Badajoz, virar à direita e descer um bocado. Chamam-lhe a Pequena Sevilha. Quando o Papa Pio IV resolveu chamar a Roma Rodrigo Lopez de Segura, mais conhecido por Ruy, este não deixou de revelar algum espanto. A missiva só indicava: «Assuntos eclesiásticos». Gaspacho! Cabia um nunca mais de coisas em assuntos desse género. Fez-se à estrada. Afinal Papa era Papa e, em 1559, podia esperar-se tudo de um Papa, até uma ordem azeda de um desanque valente de chicote no lombo. Ainda por cima, Pio IV não era apenas Papa, era um Medici, Giovanni Angelo Medici, da Casa dos Medici, de Florença, gente que nascera sem nobreza acoplada mas fizera fortuna à base do comércio de têxteis e acabaram por se tornar líderes hereditários do Ducado de Florença, pouco tempo depois elevado a Grão Ducado. Não valia a pena embirrar com um Papa, ainda por cima Medici, vamos e venhamos. E sair da modorra de Zafra também não deixava de ser uma aventura para um rapaz como Ruy que tomara recentemente as vestes de pároco e estava à beira dos 20 anos.

Os seus pais não nadavam em dinheiro. Eram comerciantes acomodados, com um palacete na Plaza Grande, e o jovem Rodrigo ia-se entretendo com as confissões das moças da zona na sua função de clérigo da paróquia de Candelabria. Veio a descobrir, já em Roma, que o apelo papal não tinha grande coisa a ver com a sua maior ou menor proximidade com Deus, com Cristo, com o Espírito Santo ou com os Santos Óleos. Pio IV queria era que Ruy Lopez lhe ensinasse os segredos mais profundos do jogo que apaixonava a Europa da época – o xadrez.

Ruy Lopez é um nome que não escapa a nenhum amante da arte dos 64 quadrados brancos e pretos (e se alguém não gostar que chame pretos aos quadrados pretos, procure arranjar um tabuleiro com quadrados de outra cor) e o livro que publicou em Alcalá de Henares, no ano de 1561, é obra obrigatória para estudiosos e não só: Libro de la Invención Liberal y Arte del Juego del Ajedrez, Muy Útil y Provechosa Para los que de Nuevo Quisieren Aprender a Jugarlo. O Papa leu-o, mas não percebeu grande coisa, o que não revela propriamente tacanhez na compreensão mas talvez distrações a mais. Além disso, não fazia tensões de desafiar o padre Ruy. Queria, isso sim, pô-lo a jogar contra Giovanni Leonardo di Bona, também conhecido como Giovanni Leonardo da Cutri e apelidado simplesmente de Il Puttino, O Menininho, considerado o melhor jogador de toda a Itália.

Imagina-se que Pio IV tenha ficado ligeiramente desapontado por Ruy Lopez haver ganho facilmente a Giovanni. Uma vitória inequívoca de um fulano que estudara profundamente a obra de um dos seus antecessores, português de gema, nascido em Odemira em 1475, Pedro Damião, ou Damiano de Odemira, um estratega de altíssimo calibre e um dos primeiros problemista de xadrez, isto é, criador de situações complicadas sobre o tabuleiro que exigia aos seus alunos que resolvessem. A vida correu-lhe mal do Guadiana para cá. Boticário, cristão-novo, escapuliu-se sem dar cavaco para Roma, fugido dos sicários de D. Manuel, onde o deixaram à vontade para trabalhar noutro livro importantíssimo e que Rodrigo sabia praticamente de cor: Questo Libro e da Imparare Giocare a Scachi: Et de Belitissimi Partiti (1512).

Inconformado, Pio IV voltou a colocar Ruy Lopez e Il Puttino frente e, mais uma vez, o resultado se repetiu. Ao perceber que o seu representante mais encarniçado se deixava enlear pela magia da Abertura dos Quatro Cavalos, conhecida por Abertura Ruy Lopez ou Abertura Espanhola, o Papa, teimoso como um Papa, fez avançar Paolo Boi, Il Siracusano, filho de gente rica, afilhado preferido do Duque de Urbino, e que esteve em Lisboa, em 1577, para demonstrar na corte de D. Sebastião toda a sua sagacidade na movimentação das pedras. Rodrigo não fez cerimónias e bateu-o com uma perna às costas. Então, Pio IV desistiu. A ideia, parecia-lhe agora, não fora das tais coisas...

1575: eis que Felipe II resolve, como dizem os italianos, stuzzicare o Papa. Isto é, dar-lhe umas bicadas. Em Madrid, no Escorial, reuniu os quatro maiores xadrezistas da Europa para um torneio. Apresentaram-se os inevitáveis Ruy Lopez de Segura, Leonardo da Cutri e Paolo Boi, aos quais se juntou Alfonso Céron, um sacerdote de Granada que também deixou um livro entretanto desaparecido, escrito em latim: De Latrunculorum Ludo, algo como ‘Do Jogo de Xadrez’. Muitos consideram que esse foi o primeiro campeonato do mundo de xadrez. Da Cutri rebelou-se e saiu vencedor. Recebeu mil ducados de prémio, uma capa de arminho e o seu lugar de nascimento foi poupado a impostos durante vinte anos. A Abertura Espanhola de Ruy fora derrubada pelo Gambito do Rei de Il Puttino. Pio IV podia morrer descansado não se desse o caso de já ter entregue a alma ao criador dez anos antes. Partiu antes do tempo.