O mundo em calções

Bertolt Brecht e o filho do açougueiro

Bertolt Brecht escreveu sobre ele: «Al McCoy/O pior dos campeões dos pesos médios/ – Só sabia apanhar/Finalmente, em 1917/Mike O’Dowd mandou para o tapete/Esse crânio de ferro/E arrancou-lhe o título». Quem lê Placa Comemorativa para Nove Campeões do Mundo não deixa de sentir pena por McCoy. E fica com a ideia que O’Dowd lhe arrancou o título de pesos médios como quem lhe arranca um dente.

Nesse dia 14 de novembro de 1917, em Nova Iorque, no Clermont Avenue Rink, O’Dowd só precisou de seis assaltos para deixar McCoy estendido no chão completamente KO. Não se pode dizer que O’Dowd só soubesse apanhar, mas apanhava bastante, isso é certo. Até discutir, aí, o título mundial de pesos médios vinha de uma assustadora série de resultados. Depois de três derrotas seguidas, a primeira frente a Billy Miske e as duas seguintes face a Jack Britton, conseguiu finalmente uma vitória contra o mesmo Britton para, logo a seguir, ser severamente espancado em dois combates contra Kid Lewis. Nada de muito convincente. A questão é que McCoy era McCoy. Quero dizer, tinha defeitos a mais para ser um verdadeiro boxeur.

Para começar, McCoy não nasceu McCoy. Nasceu Alexander Rudolph, em 23 de outubro de 1894 em Rosenhayn, Deerfield Township, New Jersey. Em garoto ajudava o pai a talhar carne no açougue kosher que abriu em Brooklyn, e ensaiava uns movimentos meio desajeitados no ginásio local. Presume-se que o McCoy foi inventado pelo seu manager, Charley Goldman, que queria esconder as suas raízes judias de forma a não criar atritos na família que era contra todos os géneros de violência.

Brecht bem pôde escrever que Al McCoy só sabia apanhar, mas contra números não há argumentos: nos seus primeiros nove anos de carreira realizou 139 combates e venceu-os todos. Também é verdade que, nesse tempo, os combates ganhos aos pontos eram muito desvalorizados, até porque os juízes tinham uma certa tendência para combinar as votações não garantindo o mínimo de equidade e eram, na sua maioria, os repórteres dos jornais presentes que, por vezes, entre o final de um combate e a saída da edição já tinham alterado o nome do vencedor. O povo que ululuva por sangue em redor dos ringues adorava os campeões que deixavam os adversários completamente grogues ou mesmo sem sentidos. A queda de um homem no tapete era a única coisa que contentava tanto os adeptos como os apostadores.

A raridade dos KO que entraram na lista de vitórias de McCoy buliram, e muito, com a sua popularidade. Brecht não foi o único a embirrar com ele. Al sentia que precisava de um título para se impor num mundo que não tinha muita pachorra para ver os dois competidores chegarem ao gongo final em pé e com as caras pouco amassadas e os sobrolhos intactos. De um dia para o outro, um combate que tinha marcado com Joseph Chip, em abril de 1914, tranformou-se numa possibilidade sem igual. Joseph caiu de cama, doente, e o seu irmão, George, assumiu a vontade de combater pela honra da família. Com a ligeira diferença de que George era o campeão do mundo de pesos médios e o título passou a ser posto em causa desde que Al derrotasse o seu opositor por KO. Algo que não passava sequer pela cabeça de George. Nunca aquele fedelho de 19 anos seria capaz de derrubar uma montanha como ele.

Charlie Godman sabia uma ou duas coisas sobre boxe. Aconselhou o seu rapaz que só teria hipóteses de bater George Chip se atacasse logo desde início, prevendo que Chip, tranquilo nas suas tamanquinhas, quisesse conduzir o combate para uma conveniente distribuição de pontos. McCoy era esquerdino e tinha um estilo muito pouco ortodoxo. Um minuto e 50 segundos do primeiro round decorridos, encolheu-se como se fosse pousar o joelho esquerdo no chão e ergueu o punho com o apoio de toda a força do corpo. O murro acertou em cheio nos queixos de George que rodopiou antes de ficar de borco no tapete. Como ninguém levava Al muito a sério, a sala do Broadway Sporting Club de Brooklyn estava praticamente vazia. O combate não despertara interesse por aí além. Robert Edgren, do Pittsburgh Express, deixou este naco de prosa quase poético: «McCoy’s left fist started somewhere near his knees. He brought it up with all his strength. His body swung upward with the blow as though he had been swinging at a bag. His fist landed fairly on the point of the crouching champion’s unguarded chin». Já o New York Evening World, desprezou a façanha com o cinismo de Brecht: «Tecnicamente, McCoy pode ter ganho o título, mas como campeão é algo de ridículo».
Al encolheu os ombros e esteve-se nas tintas para o que escreveram sobre ele. Pôs o cinturão em jogo por 14 vezes e bateu todos os adversário. O filho do carniceiro manter-se-ia campeão até novembro de 1917. Finalmente, seis assaltos contra O’Dowd extirparam-lhe o título. Foi ao tapete seis vezes. Valeu-lhe um naco de um poema de Brecht...