Cultura

Zygmunt Bauman: 'Um governo mundial seria o pior totalitarismo'

O autor de Modernidade Líquida acredita no futuro da Europa.Mas alerta: vivemos num estado de interregno e é preciso encontrar uma forma de recasar poder e política.

tem pensado as democracias mundiais e referido o conceito de interregno. que momento vivemos?

é um termo que tenho usado nos últimos três anos. é um conceito antigo, usado por tito lívio, historiador da roma antiga. rómulo morreu após 37 anos de reinado. que era a esperança média de vida dos romanos desse tempo. poucos se lembravam do mundo sem rómulo, ficaram perdidos quando ele morreu. as antigas regras já não tinham autoridade. e as novas ainda não tinham sido inventadas. estamos no mesmo estado de interregno, porque não temos a eficácia das formas habituais de controlar o funcionamento da sociedade.

política e poder estão afastados?

sim. política é a capacidade de decidir o que deve ser feito, poder é a capacidade de o fazer. nos últimos anos poder e política estavam nas mesmas mãos. o governo tinha o poder e era responsável pela política. se soubesse o que fazer, estávamos certos de que o faria. já não acreditamos nas promessas dos governos, que perderam a sua autoridade. as pessoas estão desesperadamente à procura de formas alternativas de gerir as coisas. como a democracia do facebook, das praças públicas. estamos a experimentar formas de recasar poder e política. até agora ninguém o conseguiu. estamos a testar novas ideias apenas para nos desapontarmos. o divórcio entre poder e política persiste. o poder é global e expresso por variações das bolsas. o primeiro-ministro da alemanha e o presidente de frança decidem o que fazer mas no dia seguinte as bolsas reabrem e têm que verificar se a decisão é ou não realista. o poder está lá fora, a política está cá dentro, habitam em dimensões diferentes. até os recasar, tudo o resto são soluções temporárias que serão substituídas por outras.

nasceu em 1925, passou por uma guerra, pelo nazismo, pelo comunismo e viu a europa unir-se. agora parece estar a desfazer-se.

é prematuro dizer que se está a desfazer. há muita tensão mas não penso que seja forte o suficiente para ultrapassar tudo o que foi atingido. a grande conquista europeia foi deixar para trás todos os conflitos, ódios e antagonismos entre os seus países. a hipótese de uma nova guerra é mínima. a questão é a dominação económica. as divergências são económicas, não militares. a europa já não está no topo da criação, já não é o mais importante centro económico. é um dos jogadores, como os brics. nem os_eua têm total soberania. a questão não é o que fazer mas quem irá fazê-lo. mesmo chegando a um acordo para uma solução, não se saberia quem a poria em prática.

consegue imaginar quem pode ser?

não penso num governo mundial. seria o pior totalitarismo imaginável, não haveria para onde fugir. a solução é criar uma nova arte de viver com as diferenças. acreditou-se que seriamos iguais, que as maiores conquistas civilizacionais e culturais seriam universais. não é assim, nem seria desejável. a capacidade criativa é maravilhosa pela diversidade.

mas não são as diferenças que nos colocam em confronto? na europa o discurso acentua as diferenças entre o norte e o sul.

há suspeitas mútuas baseadas em pouco conhecimento. não nos conhecemos. vivemos juntos, viajamos, mas fazemos pouco para ganhar com a nossa diversidade. quando a polónia assumiu a presidência da ue fez-se um congresso de cultura, onde se lançou a ideia, infelizmente deixada a apodrecer, de criar uma biblioteca de alexandria europeia. apaixonei-me por saramago, um tesouro feito de ideias. li tudo o que escreveu. todos os países têm algo assim que desconhecemos. a ue devia usar parte do seu orçamento para esta biblioteca. traduzimos para 27 línguas decisões burocráticas, podíamos traduzir as obras literárias. não leio português. se saramago e pessoa não estivessem traduzidos não os teria lido.

acredita num futuro para a europa?

acredito. nem há outra solução. ou vivemos alegremente uns com os outros ou afundamo-nos. estamos dependentes uns dos outros. não há como escapar a isso. temos que elevar as nossas formas de acção à enormidade da tarefa.

parece haver uma ditadura da finança. como ultrapassá-la?

os poderes financeiros estão incontroláveis. as finanças viajam livremente. podemos estar na madeira e mudar as condições de vida na índia. o que permite aos decisores económicos não assumir responsabilidade pelo impacto que têm na vida de outra pessoa, pelas consequências éticas e morais das suas decisões. daí o período de interregno. parece não haver regras. é urgente juntar de novo poder e política. como? não tenho imaginação. não pode ser uma repetição do que já foi feito com os estados-nação. tem que ser uma democracia, mas diferente. temos que inventar qualquer coisa global. mas não pode ser uma representação proporcional. um pensador norueguês colocou a questão num encontro em veneza, sobre um parlamento mundial. vamos imaginar: mil chineses, 800 indianos, 50 italianos, cinco noruegueses. não se viu entusiasmo. tem que ser uma democracia diferente mas que execute as mesmas funções.

há uma identidade europeia?

não há um movimento organizado. mas há práticas individuais. um milhão de polacos vive nas ilhas britânicas. quando jornalistas lhes perguntaram se queriam voltar à polónia, não perceberam a questão. porque não é um problema. quando saí da polónia, há 50 anos, havia uma cortina de ferro, não podia voltar. agora podemos ir para onde quisermos na europa. essas famílias podem voltar para a polónia ou ir para portugal. mesmo que apenas na prática, consideram a europa a sua casa. no médio prazo, irá nascer um sentimento de que estamos todos no mesmo local. a europa é a nossa ostra. há muita ansiedade e incerteza no curto prazo. um optimismo moderado no médio. e muito optimismo no longo prazo.

rita.s.freire@sol.pt