O mundo em calções

Voando como só um finlandês sabe...

Houve um dia em que alguém lhes chamou Finlandeses Voadores. Em inglês ficava bem: Flying Finns. Em finlandês já era o diacho: Lentävä Suomalainen. Mas em finlandês não há nada que pareça fazer sentido para quem não arranhe nem um bocadinho da língua. Isto foi muito antes de aparecerem os pilotos de ralis e de Fórmula 1, como Timo Mäkinen, Markku Alén, Keke Rosberg, Henri Toivonen, Ari Vatanen, Mika Häkkinen, Kimi Räikkönen e por aí fora, que acabaram por herdar o nome dos seus compatriotas que surgiram praticamente no início do século passado. A primeira vez que a designação pegou foi à custa de Juho Pietari Kolehmainen, mais conhecido por Hannes, o Sorridente, por andar sempre com os dentes à mostra. Nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, o seu sorriso já de si tão sorridente que parecia esfregado diariamente com paus de areca, tornou-se ainda maior, de orelha a orelha: levou para casa três medalhas de ouro e dois recordes do mundo. Magro como um pau de virar tripas, Pietari só comia vegetais e era tijoleiro de profissão. Nasceu em Kuopio, na Savónia do Norte, e ganhou as provas de corta-mato, de 5 e 10 mil metros. A prova dos 5 mil metros ficou para a história por via do duelo feroz entre o sorridente e o sisudo Jean Bouin, que usava um bigode à mexicano e era tido como o melhor fundista do seu tempo. Hannes bateu-o por 0, 1 segundos, algo que para uma distância de cinco quilómetros não vale um pelo de moustache. Depois veio a IGrande Guerra e Piatri dedicou-se mais aos tijolos do que às corridas. Ainda assim, nos Jogos de Antuérpia, em 1920, ganhou a maratona quase com uma perna às costas, ao mesmo tempo que outro finlandês começava a voar e de que maneira. Chamava-se Paavo Nurmi, e além de ser, provavelmente, o mais famoso do clube dos Finlandeses Voadores, também tinha a alcunha muito própria de ‘O Fantasma’, talvez por vencer muitas provas sem que se desse muito por ele e pela sua figura ainda mais raquítica do que de Hannes.

Os finlandeses levavam as provas de fundo muito a sério. Paavo não se limitou a ganhar as medalhas de ouro dos 10 mil metros, de corta mato e de corta mato por equipas em Antuérpia como, quatro anos mais tarde, em Paris, aboletou-se com o ouro nos 1500, 5000, corta mato individual e coletivo, além da dos 3000 metros por equipas. Em Amesterdão, 1928, somou mais uma medalha dourada nos 10 mil metros, tendo acumulado pelo caminho outras três de prata, nos 5000 (1920 e 1928) e nos 3000 obstáculos (1928). A Finlândia, sempre tão silenciosa lá no topo leste da Escandinávia, descobrira uma mina.

Com nomes tão difíceis de decorar como a totalidade da Tabela Periódica moderna, que deu cabo dos simpáticos e simples 33 elementos químicos de Lavoisier, é natural que a memória coletiva, em geral com tendência para a preguiça, tenha atirado muito bom finlandês voador para o poço fundo do olvido. Um deles, seguramente, foi Vito Eino Ritola, camponês de Seinäjoki, bem ao norte, e nascido na simpática cidade de Peräseinäjoki como 14.º filho de uma fileira de 19 irmãos. Bom amigo do sorridente Hannes, acabaria por emigrar para o Estados Unidos em 1913 e foi preciso haver uma quotização na comunidade finlandesa da América para o enviar aos Jogos Olímpicos de Paris. Dinheiro bem empregue: trouxe de lá o ouro nos 10 mil metros, nos 3000 obstáculos, nos 3000 por equipas e no corta-mato por equipas, e a prata nos 5000 e no corta mato individual. Em Amesterdão foi medalha de ouro nos 10 mil metros e de prata nos 5000. 

Já o voador Volmari Fritijof Iso-Hollo, que tinha o diminutivo de Vomma, foi mais do que campeão. A sua primeira medalha de ouro foi conquistada nos Jogos de 1932, em Los Angeles, nos 3000 obstáculos. Bateu o recorde do mundo, mas não valeu. O juiz da prova estava mais interessado nalguma garota que lhe acenava das bancadas e não esteve nem aí para a prova de Vomma. Por isso, ele continuou a correr e a correr até, finalmente, o mandarem parar e o considerarem vencedor. Tinha percorrido 3460 metros em 10.33.4. Hollo encolheu os ombros. No ano seguinte, em Lathi, bateu finalmente o recorde do mundo da distância – 9.09.4. Depois voltou a batê-lo, nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, com o ouro à mistura: 9.03.8. No dia seguinte entrou na prova de 10 mil metros e ficou em terceiro.
Militar, Iso-Hollo era uma maníaco do exercício físico. Ainda jovem foi assolado pela maldição do reumatismo e do lumbago. Mesmo contra as ordens dos médicos, continuou a correr como se se alimentasse a quilómetros. Em 1945, entorpecido, empenado, teimava em participar em provas mesmo que soubesse de antemão que não tinha hipótese de ganhá-las. Gastou o coração aos 62 anos. Ainda hoje deve correr lá nos campos verdes onde mora a saudade eterna. Ou, se calhar, não corre e voa apenas, daquela forma que só um finlandês sabia fazer.