Sociedade

Portugal pode chegar a zona de risco da covid-19 em duas semanas

Os números de infetados e de mortos pelo novo coronavírus aumentaram, mas os internados diminuíram. O índice de transmissibilidade sobe e alerta especialistas.

No dia em que o Parlamento aprovou o 15.º estado de emergência, o número de infeções e óbitos por coronavírus aumentaram. Na véspera da revisão da terceira de quatro etapas de desconfinamento, Portugal continua a administrar a vacina da AstraZeneca somente a maiores de 60 anos, mas já recebeu os primeiros lotes da vacina da Johnson&Johnson. Todavia, a Comissão Europeia não vai renovar os contratos com as farmacêuticas AstraZeneca e Johnson &Johnson.

Mais óbitos em Lisboa e Norte

Foram registados, nas últimas 24 horas, 684 casos do novo coronavírus e oito óbitos, de acordo com o mais recente boletim epidemiológico da Direção-Geral da Saúde (DGS), divulgado nesta quarta-feira.

Em relação à véspera, há um aumento de 276 infeções e três óbitos. O Norte, à semelhança dos últimos dias, é a região com mais novos casos registados: mais 265. Segue-se Lisboa e Vale do Tejo com 188. São também estas as duas regiões onde se constata o maior número de vítimas mortais, isto é, dos oito óbitos verificados, cinco ocorreram em Lisboa e Vale do Tejo e três no Norte.

Por outro lado, o Centro e o Algarve contabilizaram 66 infetados cada e o Alentejo 43. Nos arquipélagos da Madeira e dos Açores há 33 e 23 novas infeções, respetivamente.

Segundo o boletim, Portugal tem uma incidência de 73,4 casos por 100 mil habitantes nos últimos 14 dias, constituindo um aumento face aos 70 registados na última atualização, e Portugal continental de 69, um aumento de 1,4.

O índice de transmissibilidade, Rt, situa-se nos 1,06 em Portugal e nos 1,05 Portugal continental. Na última análise da DGS, partilhada na segunda-feira, este valor era de 1,04 e 1,03, o que revela que o país está prestes a entrar na zona amarela da matriz de risco definida pelo Governo, ou seja, daqui a duas semanas.

A seu lado, o número de internamentos voltou a descer e há agora 447 pessoas com sintomas da covid-19 internadas nos hospitais, menos 12 do que no dia anterior. Em Unidades de Cuidados Intensivos há 116 doentes, menos dois.

É de lembrar que, nesta quarta-feira, em declarações ao i, o epidemiologista Manuel Carmo Gomes confirmou que, embora não participe nas reuniões no Infarmed, apresentou antes do encontro à ministra da Saúde e à ministra do Estado e da Presidência a recomendação de que o país não avance para a terceira etapa de desconfinamento na próxima segunda-feira. O especialista já se tinha mostrado preocupado com o calendário para avaliação das etapas de reabertura.

Vacina da Johnson&Johnson chega a Portugal

O país recebeu, na tarde de ontem, as primeiras 31.200 doses da vacina da Johnson & Johnson. No entanto, as mesmas ficarão armazenadas em Montemor-o-Velho, no distrito de Coimbra, enquanto decorre a investigação da Agência Europeia do Medicamento (EMA) aos casos reportados de coágulos sanguíneos nos Estados Unidos.

Ao todo, sabe-se que Portugal espera receber um milhão e duzentas e cinquenta mil doses desta vacina de dose única este trimestre e mais 4,5 milhões até ao final do ano.

Recorde-se que, na terça-feira, as autoridades de saúde dos Estados Unidos recomendaram “uma pausa” na administração da vacina da Janssen, a companhia farmacêutica da Johnson&Johnson, para permitir investigar relatos de coágulos sanguíneos potencialmente associados à toma do fármaco.

Por este motivo, a Comissão Europeia não vai renovar os contratos com as farmacêuticas AstraZeneca e Johnson&Johnson para a vacina contra a covid-19, no próximo ano, sendo que esta informação foi avançada pela agência Reuters, que citou uma fonte do Governo italiano ao jornal La Stampa.

Entre a aposta e o desinvestimento na vacina da AstraZeneca

A vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca, em conjunto com a Universidade de Oxford, contra a covid-19 tem sido alvo de controvérsia devido à possível ligação entre a formulação de coágulos sanguíneos e a administração do fármaco.

Em território nacional, até ao passado sábado, já foram reportados mais de 3.600 casos de reações adversas associadas às três vacinas que estão a ser administradas e, destas, 15% dizem respeito à vacina da AstraZeneca.

Neste sentido, a Agência Europeia do Medicamento anunciou que, a pedido da Comissão Europeia, está a rever os dados sobre a vacina Vaxzevria, mas frisou novamente que os benefícios do fármaco da AstraZeneca superam os riscos.

Se em Portugal a vacina não está a ser aplicada a indivíduos com menos de 60 anos – decisão tomada também por países como a Estónia, as Filipinas ou a vizinha Espanha – desde a semana passada, são seguidas outras diretrizes pelo mundo fora.

A título de exemplo, na Austrália, desde 8 de abril que se recomenda às pessoas com menos de 50 anos que recebam a vacina da Pfizer em detrimento da AstraZeneca. No Brasil, as autoridades anunciaram que não limitarão a utilização da vacina e o Reino Unido pede que seja fornecida uma alternativa sempre que possível a pessoas com menos de 30 anos.

Países como a Áustria, a Bulgária, o Chipre, a Islândia, a Indonésia, a Lituânia, a Roménia, a Coreia do Sul voltaram a administrar o fármaco após um período de suspensão.

Porém, a vacina foi suspensa nos Camarões, na Dinamarca – devido aos efeitos secundários “raros, mas graves” –, e na Noruega – que prolongou a suspensão da vacina por mais três semanas enquanto aguarda desenvolvimentos no âmbito da investigação sobre os efeitos secundários raros.

Mais 50 milhões de vacinas da Pfizer

A presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, anunciou que a Pfizer/BioNTech vai fornecer 50 milhões de doses extra da sua vacina contra a covid-19 à União Europeia (UE), sendo que o fornecimento das mesmas ocorrerá no segundo trimestre do ano.

“Estas 50 milhões de doses estavam inicialmente previstas serem entregues no quarto trimestre de 2021, e agora vão estar disponíveis no segundo”, disse, sublinhando que a Comissão Europeia está em negociações com a Pfizer e a BioNTech para um novo contrato de 1,8 mil milhões de doses a serem entregues em 2022 e 2023.