Entrevista

Gonçalo Peixoto: "Quando quero, consigo ser muito chato e persistente"

Natural de Famalicão, o mais jovem designer português a representar o país na semana da moda de Milão apresenta amanhã a sua coleção na ModaLisboa. Aos 20 anos teve a sua primeira internacionalização, ainda antes de se estrear no país de origem, e aos 24 admite que ‘ainda há muita coisa para fazer, ainda não está nada feito’.

Nasceste em Famalicão. Como foi cresceres num sítio muito mais pequeno do que Lisboa ou o Porto, por exemplo? Eu nasci e cresci lá. Eu estudei em Guimarães, a partir dos 16 anos e aí senti um choque grande porque saí de uma cidade pequena e fui para outra um bocadinho maior, mas mesmo assim ainda pequena comparada com o Porto ou com Lisboa. Eu gosto muito de Famalicão. Eu vivo no Porto, neste momento, mas ainda vou todos os dias a casa e é mesmo uma cidade de que gosto muito por várias razões: em primeiro lugar porque é a minha cidade e faz todo o sentido para mim ir lá, tanto que até sou embaixador da cidade; em segundo lugar porque os meus pais vivem lá e terceiro porque grande parte do meu trabalho é feito lá, visto que no Norte é onde está grande parte da indústria, por isso volto a casa quase diariamente.

Quando é que começaste a interessar-te pela indústria da moda? Eu acho que foi algo muito gradual, mas a moda sempre fez parte de mim. Eu lembro-me muito daquelas coisas básicas do dia a dia e de sempre ter gostado de ser eu a escolher a roupa que ia vestir no dia a seguir e de ir às compras com os meus pais e dar a minha opinião. Quando foi altura de escolher acho que fez todo o sentido. Foi muito fácil perceber aquilo que queria estudar e onde poderia fazê-lo.

Como é que foi a transição de vir para Lisboa? Eu nunca vivi em Lisboa, mas comecei a vir trabalhar para cá porque achei que tinha de começar a aparecer. Quando não estás inserido numa plataforma é muito difícil que sejas notado, tanto por pessoas como por marcas. Por isso, vir para Lisboa foi um bocadinho a vontade e a procura da oportunidade e do sonho. Queria estar no sítio certo à hora certa e encontrar alguém que me conseguisse ajudar a começar nesta carreira. Depois percebi que nem tudo é assim tão linear, mas o vir para Lisboa representou esta procura por uma coisa que não acontece lá em cima no Norte. Por isso continuo a vir a Lisboa com tanta regularidade, porque acredito que é muito importante estar com pessoas e dar uma espécie de cartão pessoal de apresentação da marca. Este lado ainda não é possível no Norte, é aqui que as coisas acontecem. Não acho que se tenha de viver cá para as coisas acontecerem, mas, de facto, ajuda o processo.

Onde é que arranjas inspiração para as tuas peças? Varia muito. Eu sou um designer que gosta muito de ver e viajar e por isso acho que qualquer coisa me pode inspirar desde que eu tenha vontade de criar sobre aquilo. Obviamente que é mais fácil inspirar-me em viagens e idas a museus porque são tudo coisas visuais e que nos ajudam. Mas eu já fiz coleções inspiradas em frases e linhas de pensamento, por isso acho que tudo me pode inspirar desde que eu esteja para ali virado, a inspiração está em todo o lado.

Tu começaste a ter sucesso relativamente cedo. Foi fácil lidar com isso? Foi fácil porque foi tudo muito gradual, tive sucesso cedo mas não de uma maneira imediata. Eu já estou aqui há algum tempo e já trabalho há vários anos por isso, apesar de ser uma pessoa muito nova, fui-me adaptando. Faz parte do crescimento e das pessoas de quem nos rodeamos e com quem lidamos diariamente. No meu caso, não foi muito difícil, tanto que Portugal é um país pequeno e as coisas não acontecem a uma escala gigante como lá fora, sendo que nesse caso podem tornar-se mais difíceis de manusear. Foi um processo.

Tiveste a tua primeira internacionalização em 2017, aos 20 anos, ainda antes de estares presente na ModaLisboa. Como é que surgiu esse convite? Eu na altura ia fazendo coleções, sessões fotográficas e ia comunicando de uma maneira que eu achava que era bem feito para o que era produzido em Portugal. Uma scouter do London Fashion Week viu o meu trabalho e achou que fazia sentido eu estar lá, portanto esse foi mesmo o meu ponto de partida. Depois, quando volto para Portugal, a ModaLisboa faz-me um convite para eu estar presente e é aí que começo a apresentar cá.

O teu sucesso chegou numa altura em que é normal as pessoas começarem a sair à noite e passarem muito tempo com os amigos. Sentes que saltaste essa fase? Sinto que saltei essa fase e agora a faço demais. Na altura em que eu estava a tirar o meu curso profissional, do décimo ano ao décimo segundo, eu nunca saía à noite porque eu era realmente muito focado no meu objetivo, queria verdadeiramente fazer isto e ter a minha marca. Por isso, até aos 21 anos essa não era a minha prioridade, não queria sequer pensar nisso porque tinha outros objetivos. Agora que me sinto mais relaxado porque as coisas começam a ter uma estrutura e um caminho, posso aproveitar aquilo que não tive.

Tornaste-te o mais novo designer português na semana da moda de Milão. Como foi a preparação? Sentiste um peso acrescido nos ombros? Foi muito rápido, o convite apareceu cerca de um mês antes do desfile e por isso não estava de todo à espera. No entanto, estava preparado porque vou sempre fazendo as coisas com antecedência. Para mim foi mesmo muito importante porque a internacionalização da marca é algo que eu queria há muito tempo e para a qual trabalhamos diariamente. Quando se dá o desfile em Milão, existe realmente um peso que nos cai de algo muito importante está a acontecer. A preparação foi como se fosse para a ModaLisboa ou para as coleções que faço a cada seis meses, mas com o peso de que eu seria visto por muito mais pessoas e que, por isso, teria mesmo de ser muito bom.

Este ano o evento foi online. Sentiste que não aproveitaste tanto como poderias ter aproveitado? Foi uma experiência diferente, eu tento não pensar muito naquilo que poderia ter sido e aproveitar o momento. Até porque, depois, o feedback cá em Portugal foi tão bom que eu senti que foi quase como se tivesse estado lá. O feedback foi realmente muito bom, tanto cá em Portugal como lá fora, e de qualquer forma nesta altura que estamos a viver seria praticamente impensável ter sido de outra forma Então eu aceitei super bem a maneira como aconteceu e tentei nem pensar muito sobre isso.

Tanto artistas portugueses como estrangeiros já usaram peças tuas. Em Portugal, a atriz Rita Pereira foi a primeira a fazê-lo. Que impacto é que isso teve no teu crescimento? No princípio foi ótimo porque foi algo de que eu não estava à espera e trouxe-me um peso e uma vontade de crescer muito grande. Eu conheço a Rita Pereira há muitos anos, desde 2014 ou 2015, e sei que na altura não era usual as figuras públicas usarem marcas de novos estilistas portugueses, isto é uma coisa muito recente. Na altura foi um boom gigante e foi aí que o pessoal começou a perceber que existia um novo designer e que se calhar seria interessante estar atento. Foi quando eu senti que a minha carreira tinha começado.

Mais recentemente tiveste a cantora Rita Ora a usar um blazer teu. O que é que sentiste quando viste aquilo a acontecer? Foi ótimo por vários motivos: por um lado, a parte das internacionalizações é muito importante, mas complicada para um designer. Se eu comecei a trabalhar em Portugal em 2014 e hoje tenho uma carreira mais sólida, sinto que é mais fácil apresentar-me. Neste momento já não sou eu que peço às pessoas para usarem as minhas roupas, mas sim elas que me pedem a mim. Eu sinto que estou num sítio em que é muito fácil as pessoas chegarem até nós, as pessoas querem usar Gonçalo Peixoto e quando usam criam desejo tanto noutras pessoas como em marcas. Relativamente ao mercado estrangeiro, isto já não acontece.

Cá, eu sei que as pessoas que me seguem sabem toda a minha carreira e tudo aquilo que eu fiz e por isso não tenho me apresentar, lá fora tenho visto que as pessoas não sabem quem eu sou e não sabem aquilo que eu fiz, de onde venho e onde quero ir. Conseguir que alguém acredite em ti só pelas tuas palavras e pela imagem que passas pelo feed do Instagram, por um e-mail ou por um website é difícil. Eu tenho muitos amigos atores e isto faz-me lembrar um pouco aquilo que eles me dizem: mesmo que eles já sejam conhecidos em Portugal quando querem ir para fora ninguém sabe o trabalho que eles fizeram e tentam fazer castings e depois não conseguem.

A situação é a mesma: tens de chegar lá fora e provar novamente que não és o Gonçalo que toda a gente cá em Portugal já conhece, mas sim alguém que está a tentar chegar mais além na sua carreira e mostrar aquilo que já fiz, tal como outros designers que enviam peças o fazem e, de alguma maneira, tenho de me distinguir. A Rita Ora não usou uma peça minha à primeira tentativa e não foi a primeira pessoa que recebeu Gonçalo Peixoto e não usou e, portanto, estas tentativas de abordar figuras públicas demoram anos. Talvez agora seja mais fácil, visto que tenho ali uma porta aberta, mas até aqui tive de batalhar muito, ouvir vários “nãos”, voltar para trás e gastar dinheiro a enviar roupa para depois não acontecer nada.

Quando a Rita usou a minha peça, foi um momento muito especial porque também ela tem um peso importante naquilo que eu faço enquanto criador, ela a imagem daquilo que eu sou: uma figura pop, do século XXI, nova e divertida. Tanto que uma das frases da marca, “Sometimes i just wanna kiss girls”, foi inspirada nela, por isso estou mesmo muito feliz e orgulhoso.

Quais as características que tens que consideras mais importantes para sucederes no trabalho? A persistência, sou tão chato… Quando quero, consigo ser muito chato e persistente, além de que também trabalho muito para ter aquilo que quero. Às vezes nós temos uma ideia das pessoas diferente do que elas são verdadeiramente, aquilo que postamos nas redes sociais nem sempre ilustra da melhor maneira aquilo que se passa no dia a dia e eu invisto e trabalho muito para mostrar quem sou e para que as minhas coisas se realizem. Sou muito sonhador e persistente, portanto diria que estas são as minhas características mais fortes.

Como é que vês o teu sucesso relativamente à percentagem de trabalho versus percentagem de talento? Com o All Together Now, o programa que estou a fazer na TVI, ouvi muitas vezes várias pessoas a dizerem, em relação às vozes, que é necessário nascer com aquilo e que nem só com trabalho se vai lá. Eu, na moda, acredito que o trabalho é muito importante, claro que tem de existir um talento e uma sensibilidade para a estética e para o que se está a criar, se não as coisas não acontecem. Mas com muito trabalho, a verdade é que nos tornamos melhores, eu acho que sou muito melhor agora do que quando comecei. Isto é um processo e é uma viagem que nos vai diariamente acrescentando novas coisas. Todas as vivências e experiências por que passamos são também muito importantes mas a verdade é que “hard work its a talent”.

Este domingo  vais apresentar uma coleção na ModaLisboa. De onde veio a inspiração? Eu vou apresentar uma coleção de inverno, de 2021-2022, foi a mesma coleção que eu apresentei em Milão e que nos lembra um pouco a nostalgia do sair à noite, da diversão e das festas. Tem tecidos muito brilhantes com muitas cores, muita vida e muitos corpos à mostra. É uma coleção muito divertida, com silhuetas sexy e cool, que nos remete para aquilo que tivemos e demos por garantido, estar numa discoteca, com muitos corpos juntos e calor humano. É quase um pedido para que tudo que volte ao que era e uma nostalgia ao passado que tomamos por garantido.

Como avalias o setor da moda em Portugal? Eu acho que está a crescer e que estamos num bom caminho. Em primeiro lugar o setor da moda traz uma lufada do setor têxtil muito grande, que é uma indústria bastante grande no país. Temos indústrias ótimas, super qualificadas, com grandes instalações, tanto que existem imensas marcas internacionais que produzem cá. Este é mais um motivo para estarmos orgulhosos do setor têxtil português e daquilo que fazemos. Depois parece-me que estamos com uma grande vontade de criar e de levar o que é português avante. O setor da moda está a sofrer alterações tal como estamos todos nós, menos presencial e mais digital. No geral, acredito que estamos no bom caminho e que é muito importante continuarmos a trabalhar, até porque temos um pouco de tudo: desde o handmade, ao 100% reciclado e há coisas para todos os gostos.

Sentes que está a crescer o à-vontade das pessoas para se expressarem através daquilo que vestem? Sim, sem dúvida, e acho que é assim mesmo que deve ser. Nós somos o espelho daquilo que vestimos e o modo como nos vestimos e como chegamos diz muito de nós. Eu gosto muito de analisar isso e acho que isso transmite imenso acerca do outro. Quando alguém chega ao pé de mim das primeiras coisas em que o reparo é em como ela está vestida e como eu a posso interpretar através do que ela veste, ainda que sem qualquer julgamento. É importante para mim perceber do que é que aquela pessoa gosta e, com clientes, perceber como é que os posso ajudar a realçar os seus pontos fortes. 

Quem se veste como gosta, mesmo que isso seja diferente daquilo a que a sociedade está habituada, ainda é olhado de lado? Como é que Lisboa se compara com outras cidades europeias nesse sentido? Eu acho que em Portugal, especialmente em Lisboa e no Porto, que são as cidades maiores, isso já não acontece. Acho que já toda a gente se veste muito como gosta e refletindo aquilo que é. Acredito que desde que tu acreditas naquilo que estás a fazer e no que estás a vestir, já tens um à-vontade enorme para o fazer e acho que é isso que é o século XXI, a liberdade para fazeres o que queres e como quiseres.

O que é que a tua marca está a trazer de novo ao mercado português? Eu espero que esteja enquadrada nessa quebra de barreiras e no não pensar muito naquilo que vão dizer do que eu estou a vestir ou em quaisquer julgamentos. Eu acho que trago este empowerment feminino, apesar de não ser do género feminino, e trago esta vontade de unir o género, de evoluir e de que as pessoas se desapeguem do passado e sejam felizes com que querem e com o que gostam de usar, eu sou assim também.

Tem se falado cada vez mais do impacto que a indústria da moda e a fast fashion têm no planeta. Sentes que as pessoas estão cada vez mais dispostas para pagar um pouco mais por esta consciência ambiental? Sim, tal como acho que estão muito mais conscientes. Quem está a comprar moda portuguesa está a ser ecológico porque não está a comprar num fast fashion e isto por si só leva a pessoa a ser inconscientemente mais sustentável. As nossas produções não são gigantes como as das grandes marcas e muitas vezes são feitas com tecidos que estão parados nos nossos ateliers que podem não ter tido saída antes e agora estão a ter. Por isso eu acho que comprar marcas portuguesas é ser sustentável, visto que os designers tentam ter cuidado com as origens dos tecidos e quais os tecidos que vamos utilizar para as nossas confeções. As pessoas estão dispostas a pagar mais por uma boa peça e por uma peça com uma baixa pegada ecológica. A prova disso é que temos cada vez mais perguntas no nosso site e no Instagram acerca dos materiais que utilizamos.

Que projetos tens para um futuro próximo? Estou sempre a cozinhar coisas e gosto de fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo. Abri há pouco tempo um atelier, que era uma vontade que eu já tinha do passado, fiz uma linha de joias, que também já estava nos meus planos, vai sair uma linha de biquínis para a qual também estou muito entusiasmado. Agora acho que o importante é consolidar a marca, trazer novos artigos e novas parcerias e tornar-me bom naquilo que estou a fazer, que é criar uma marca grande, com vários segmentos e vários artigos dentro dela. A minha vontade agora é internacionalizar a marca, continuar a crescer, a consolidar e a ser bom.

Que sonhos tens, que estejam num futuro mais distante, mas que queres concretizar? Eu quero muito abrir várias lojas, quero vestir muita gente lá fora, quero ter uma agência de comunicação no estrangeiro a trabalhar comigo, quero estar em grandes lojas de renome lá fora, quero imensas coisas. Há muita coisa para fazer, ainda não está nada feito.