Internacional

Chauvin está preso. Qual é o próximo passo?

O governo dos EUA já fez reformas, mas continuam a registar-se mortes de afro-americanos às mãos de polícias.

Desde o movimento pelos direitos civis nos anos 1960 que os protestos contra a injustiça racial não assumiam tamanhas proporções.

Agora que o ex-polícia Derek Chauvin foi considerado culpado de três acusações de homicídio pelo seu envolvimento no homicídio de George Floyd, o que representa esta condenação para o sistema de justiça norte-americano e para a comunidade afro-americana?

Há sinais de mudança, aponta o New York Times: foram introduzidas novas leis que pretendem reformar as forças de segurança e os seus comportamentos violentos, grandes empresas doaram mil milhões de dólares a causas que promovem a equidade racial e políticos e funcionários públicos, desde mayors a chefes de departamentos de bombeiros, foram despedidos depois de fazerem declarações racistas ou obrigados a ingressar em treinos antirracistas.

Imediatamente após a condenação de Chauvin, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou que iria abrir uma investigação à polícia de Mineápolis com o objetivo de determinar se tem usado sistematicamente força excessiva, incluindo contra manifestações legais, e caso seja comprovada a existência de práticas ilegais, o departamento comprometeu-se a aplicar procedimentos que obriguem esta esquadra a reformar os seus procedimentos.

O jornal americano cita ainda que o movimento Black Lives Matter fez com que muitos americanos mudassem de opinião em relação a questões raciais. Tornou-se muito mais provável, por exemplo, que os americanos brancos afirmem agora que a discriminação racial é um dos maiores problemas do país ou que confirmem um uso desproporcional de violência policial contra afro-americanos.

A congressista Karen Bass afirmou que este era o momento ideal para aprovar o projeto de lei Ato de Justiça Policial George Floyd, que procura reforma a intervenção policial, nomeadamente proibindo estrangulamentos e detenções sem mandatos.

Apesar destas mudanças positivas, as mortes de afro-americanos por forças da autoridade, desde Eric Garner, Laquan McDonald, Michael Brown, Breonna Taylor e, inclusive após o homicídio de George Floyd, como Rayshard Brooks ou, mais recentemente, Daunte Wright, nos arredores de Mineápolis, motivaram novas manifestações nesta cidade enquanto Chauvin estava a ser julgado e deixaram a comunidade negra reticente quanto à existência de uma mudança real.

«Como assistimos nas últimas semanas, as reformas policiais nos Estados Unidos foram insuficientes para impedir que mais pessoas de descendência africana fossem assassinadas», disse Michelle Bachelet, líder dos direitos humanos das Nações Unidas, citada pelo Al Jazeera. No mesmo artigo, Paul O’Brien, diretor executivo da Amnistia Internacional, afirmou que a condenação de Derek Chauvin foi «a exceção e não a regra».

«A América é um país profundamente racista, mas que está progressivamente a ficar melhor – são duas afirmações verdadeiras», disse David Bailey, diretor da ONG Arrabon, que trabalha na reconciliação racial de Richmond, ao New York Times. «Estamos a falar de um problema com 350 anos que só há pouco mais de 50 anos é que se começou a trabalhar na sua correção».