O mundo em calções

Dentes voando em redor do quatr’olho

Jef Jurion, que jogava sempre com óculos de massa, foi o primeiro a chegar junto ao companheiro que parecia ter sido atacado por rinocerontes


No dia 30 de setembro de 1964, no Bosuilstadium, em Antuérpia, havia dois moços que sentiam ligeiramente deslocados. O primeiro chamava-se Guy Delhasse, tinha 31 anos, e era guarda-redes. Nunca foi grande espiga, assinale-se, mas ainda assim pôde orgulhar-se por ter representado a seleção belga por sete vezes. As coisas não lhe correram de feição e dos sete perdeu seis jogos, sofrendo nada menos de 15 golos, mais do que um por partida, algo que, como se calcula, não o mergulhou num oceano de popularidade.

Nesse tal dia de setembro, iniciou o encontro contra os agora oficialmente designados por Países Baixos, como se o diacho da Bélgica fosse algum tipo de Países Altos, carregados de montanhas nevadas e de vales repletos de glaciares. Seria o penúltimo jogo de Guy pela Bélgica e tinham-lhe feito a vida negra na noite anterior com uma série de partidas e de pilhérias de levar ao desespero o mais pachorrento dos frades capuchinhos enviados para oCongo do Rei Leopoldo em serviço de missionário. A razão era infantilmente simples: Delhasse pertencia ao FCLiégeois e os outros dez que o treinador Constant Vanden Stock anunciara para entrarem em campo como titulares – George Heylens, Laurent Verbiest, Jan Plaskie, Jan Cornelis, Pierre Ranon, Jef Jurion, Jaques Stockman, Johan Devriendt, Paul Van Himst e Wilfried Puis – faziam parte da equipa do Anderlecht.

A despeito de os companheiros o fazerem sentir mais deslocado do que nunca, Guy engoliu as larachas e as ironias e foi-se a jogo com a coragem que costumava fazer parte da sua idiossincrasia. O encontro foi rijo, a raiar a violência, algo próprio de vizinhos que olham de esguelha um para o outro. Ferveu canelada, o árbitro italiano Lo Bello, um dos mais conceituados da sua era, ia fazendo reparos a todo o instante, mas as orelhas moucas de belgas e holandesas iam tornando a tarefa de dirigir o encontro cada vez mais difícil. 

Estávamos em cima do intervalo quando Hennie van Nee, um avançado trapalhão do Heracles, de Almelo, entrou pera grande área belga com a delicadeza de uma manada de rinocerontes. Guy Delhasse nunca fora homem para se encolher, muito menos numa altura em que andava há dois dias a sofrer a galhofa por parte dos companheiros vaidosamente bruxelenses. O joelho de van Nee entrou-lhe pela placa dentária frontal espalhando em redor um incisivo central, um canino, o primeiro e o segundo pré-molares e um terceiro molar, deixando-lhe o beiço de baixo ao pendurão, agarrado à cara por uma ligeira fita de pele e o septo nasal numa posição deveras curiosa.

Guy não queria acreditar no que lhe tinha acontecido. Decorria o último minuto da primeira parte e começou a perspetivar toda a panóplia de cirurgias a que teria de ser submetido. Para o seu lugar entrou mais um jogador do Anderlecht, como se está mesmo a ver, um tal de Jan Trappeniers. Os olhos de Guy encheram-se-lhe de lágrimas reconhecidas enquanto a maca que o conduzia para fora do relvado ia sendo rodeada pelos seus companheiros folgazões, já sem muita vontade de rir, e dispostos a distribuir-lhe toda a solidariedade que, de repente, se soltara das suas almas arrependidas. Um gesto bonito, bem ao contrário da cara com que Guy passou a usar depois das diversas intervenções cirúrgicas.

O primeiro dos seus colegas a dirigir-se ao local em que Guy Delhasse vertia sangue como se lhe tivessem aberto as torneiras das carótidas, foi uma espécie de companheiro de desventuras – Jef Jurion. Era o capitão de equipa, mas não escapava, de forma alguma das facécias que os camaradas prepararam requintadamente para ele e para a sua galopante miopia. 

Armand Joseph Jurion nasceu no dia 24 de janeiro de 1937, em Sint-Pieters-Leeuw. Aos cinco anos já não enganava ninguém: era a estrela da miudagem do Ruisbreck e não tardou a assinar contrato com o Anderlecht, ganhando a titularidade mal cumpriu 16 anos. Ainda me recordo de o ver jogar, aqui e ali, nas raríssimas transmissões televisivas que a RTP dava à malta à laia de rebuçados. Fortemente míope, Jurion não passava despercebido a ninguém dentro do relvado por ser o único jogador que utilizava óculos, daqueles de massa ou de casca de tartaruga.

De tempos a tempos, aproveitando o seu sono mais profundo, o caixa d’óculos ficava sem a caixa e sem os óculos, o que o impedia de jogar. A deficiência nunca minou a sua autoridade sobre os companheiros que, rapidamente, faziam voltar ao normal o mau feitio que a qualquer momento despontava. Depois, de óculos postos, gerindo o jogo como um médio de enorme qualidade, estava-se nas tintas para que lhe chamassem quatr’olhos. A bola era toda dele, mesmo que não a visse muito bem.