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Fernando Medina não é competente

Medina não solucionou em seis anos nenhuma das grandes questões estruturais que fazem de Lisboa aquilo que é. 
Não há motivos para acreditar que o faça no futuro


Quis o destino que nos últimos doze anos tivesse consagrado grande parte da minha vida profissional à autarquia de Lisboa. Consegue-se, olhando para a cidade, definir algumas linhas de força que se mantêm constantes: Lisboa é a capital do país, de um país que continua fortemente concentrado, numa área metropolitana onde vive cerca de um quarto do total da população. Diariamente, entram na cidade quase 400.000 carros pelas duas pontes, pelo norte, pela A5 e demais entradas. Lisboa é muito marcada pelo rio e pelo mar. Caracteriza-se ainda pela existência de um aeroporto dentro da cidade. 

Nestes doze anos, essas características não se alteraram, permanecem desse modo. Verificou-se a grande crise económica de 2009 com subsequente intervenção da Troika (2011-2014), o extraordinário boom turístico (2014-2019) e a crise pandémica desde 2020 – as quais não modificaram em nada as constantes e as linhas de força enunciadas. 
Os movimentos pendulares dessas centenas de milhares de carros, tornam penosa a vida das pessoas e famílias que os fazem, colocam pressão na vida dos residentes de Lisboa e causam tremenda poluição. Em geral, retiram horas, saúde e anos de vida e, no entanto, nada de estrutural se faz em relação a isso. As décadas passam e os residentes de Almada, da Amadora, Oeiras, Odivelas, ou Loures continuam a sofrer diariamente para entrar em Lisboa e ganhar o sustento. 

Os movimentos pendulares abrandaram na crise da Troika e pararam na pandemia, mas foi conjuntural, voltam ao mesmo rapidamente. É bastante óbvio que a macrocefalia da capital é a responsável em grande medida: é forçoso descentralizar, retirar muitos serviços de Lisboa. Também é forçoso desenhar a rede de transportes de forma eficiente para que quem vem de fora trabalhar não se veja forçado a trazer o automóvel.

Quanto à relação com o rio, houve a grande revolução à beira Tejo com a Expo 98 e o nascimento do Parque das Nações, mas pouco foi feito desde então. Aliás, à medida que o tempo passa, crescem as queixas de má descontaminação dos solos com resíduos e cheiros e perigo para a saúde publica. A nova urbanização na Matinha, com centenas de habitações, aparece agora como uma interrupção da Avenida Infante D. Henrique por onde se serpenteia por curvas e contracurvas sem lógica alguma, cortando o acesso ao rio. O mesmo se pode dizer do novo hospital CUF em Alcântara. A relação de António Costa, Fernando Medina e Manuel Salgado com o rio Tejo é tudo menos líquida e transparente. Ao mesmo tempo, ninguém se decide se Lisboa é, ou não, uma cidade portuária enquanto isso, o porto definha. 
A questão do aeroporto Humberto Delgado dentro da cidade é, à portuguesa, um daqueles dossiers que se arrasta há meio século sem solução à vista. No apogeu do turismo os aviões aterravam de minuto a minuto e sem respeito pelo período noturno. A situação ficou suspensa durante a pandemia, mas voltará ao mesmo quando aquela passar.

Fernando Medina não solucionou em seis anos nenhuma das grandes questões estruturais que fazem de Lisboa aquilo que é. Não há motivos para acreditar que o faça no futuro.