O Mundo em Calções

Um copo em honra de Giuseppe Meazza

No intervalo das críticas que escrevia sobre vinhos, Luigi Veronelli contava jogadas de Meazza que nem o próprio vira.


Peguemos num italiano médio, sem grandes peneiras, se isso for possível, mas também sem pena de si próprio como uma personagem de Ettore Scola. Se lhe estabelecermos uma lista de prioridades no que a gostos respeita, começará muito provavelmente pela mãezinha. Não há italiano médio ou de outra classe qualquer que não ponha a mãezinha no topo das preferências. Na sua maioria confundem a mãezinha gorda com as mãos enfarinhadas de fazer gnochi com a Madonna e isso já obriga o mamífero a dar voltas ao bestunto para perceber ao certo o que se pretende com o suposto inquérito.

Tenho diversos amigos italianos, uns mais típicos do que outros – no Porto diriam mais castiços – e no geral as suas listas de preferências começam com a mãezinha e com a Madonna, tanto faz, e prosseguem com carros, mulheres, spaghetti al dente, limoncello, mais carros e mais mulheres, nem sempre por esta ordem e geralmente carros vermelhos e mulheres ruivas – ou de olhos como piscinas de águas negras como os da Claudia Cardinalle –, sem faltar o calcio, ou uma visão muito especial que têm do futebol, nem sempre simples de entender. 

Não são de falsas modéstias, Deus lhes perdoe. O futebol italiano é, sem dúvida, o melhor, mais belo e mais bem jogado do mundo, além de exibir uma superioridade tática sobre todos os outros como consequência de longos estudos sobre a matéria. Houve tempos em que, por pilhéria, consideravam o futebol francês como o futebol mais bem escrito do universo: tinham as prosas mágicas de Jacques Ferran, Gérard Ernaud, Gabriel Hannot, ou do meu querido amigo Jean-Philippe Retacker, puseram em marcha a Taça dos Campeões e a Taça das Nações, que se transformou em Campeonato da Europa de Futebol, mas as suas equipas a sua seleção ganhavam zero.

Vai daí, os franceses, sempre preocupados historiadores de tudo o que rodeia os fenómenos desportivos, responderam com uma dureza excessiva. Isto é, nada o que se publicava no Tuttosport, na Gazzetta dello Sport ou no Corriere dello Sport era para levar a sério, pelo menos de imediato. Até certo ponto tinham razão. Além de grandes especialistas em mãezinhas, os italianos são os príncipes florentinos dos exageros floreados.

Uma das boas tranquibérnias abertas pelo exagero de um autor italiano, teve como protagonista vários pesos pesados. Primeiro o próprio autor da prosa, Luigi Veronelli, intelectual, crítico de gastronomia e de vinhos, ensaísta político, um daqueles homens para os quais nada havia no mundo que se comparasse a um produto italiano. Nesse caso, o produto foi Giuseppe Meazza, o grande jogador do Inter que deu nome ao Estádio de San Siro e ainda passou duas épocas pelo Milan.

Da pena de Veronelli saiu esta pérola digna dos pescadores em apneia do Ceilão: «Eu vi jogar Pelé. Estava muito longe do elegante estilo de Meazza. Certa vez, mesmo à minha frente, vi Pepe Meazza fazer algo que nenhum outro jogador do mundo seria capaz de repetir. Parou a bola no ar com um pontapé de bicicleta no qual, em vez de a chutar, se limitou dominá-la. Ergueu-se a cerca de dois metros de altura.

Depois regressou à terra com a bola colada ao pé direito, fintou um defesa completamente estupefacto, e marcou um golo ao seu jeito, num daqueles remates perfeitos e sardónicos». Sabendo-se da atração que Veronelli tinha por uns bons copos de Valpollicela Amarone, de Barollo e de Nobile de Momtepulciano, pode muito bem desconfiar-se, assim à primeira, deste relato de um gesto único que mais ninguém parece ter testemunhado.

Luigi tinha um feitio complicado e era melhor não correr o risco de o contrariar, sobretudo após as libações. Vendo bem, sob a latada fresca da sua casa em Isola, nos arredores de Milão, estava no direito de dizer o que lhe desse na real gana enquanto os seus convidados despejavam garrafas de tinto acompanhadas de prosciuto crudo e borratina, sem que faltasse o pão e, de tempos a tempos, um grito claro. «Ma, per la Madonna, que Santa Lucia mi rube la luce degli occhi si questo qui raconto non è la pura realtá!». E, em seguida, mentiam até à protérvia. 

Luigi Veronelli passou a vida a escrever sobre comida, vinho, política e Giuseppe Meazza. Conseguia contar proezas de Il Balila, o Garotito, como lhe chamavam os colegas por ser tão frágil fisicamente, que nem a sua própria mãezinha, como toda a boa vontade de concordar com o que dissesse il figlio não engoliria de maneira nenhuma. Diz-se que foi Luigi que inventou o golo à Meazza, basicamente um lance em que Giuseppe ia passando por todos os adversários que lhe iam surgindo pela frente até deixar a bola dentro da baliza.

Também terá sido ele e a sua florescente imaginação que lançou a imagem do penálti à Meazza: Pepe corria devagarinho para a bola, dava a sensação que chutaria para um lado, tombava o guarda-redes e dava-lhe um toque ligeiro para o lado contrário. Depois, e copo de vinho na mão, assombrava os amigos: «Esta disse-me o próprio Meazza – não há nada mais frustrante do que ver um penálti ser defendido por um guarda-redes tão burro que nem percebia o meu truque».