Internacional

Giuseppe Garibaldi. Uma camisa vermelha e uma mulher portuguesa

Anita Ribeiro da Silva, cujos pais eram dos Açores, era muito mais nova do que Garibaldi mas lutou a seu lado na América do Sul. As camisas terão sido uma das maiores contribuições do revolucionário para a História da Humanidade, embora sem importância da aventura contínua da sua vida.


A camisa vermelha de Giuseppe Garibaldi é, muito provavelmente, a sua mais pequena contribuição para a história da Humanidade mas certamente aquela que enganou a passagem do tempo e chegou até aos dias de hoje. Houve uma época em que foi moda. A fama do revolucionário chegou a um ponto que as garibaldinas, que os ingleses apodaram de Garbaldi Shirt, ganhou lugar no guarda-roupa feminino: camisa de decote alto, abotoada à frente, presa com um cinto, costura do ombro bastante baixa para manter as mangas infladas. O tom era, geralmente, o vermelho. Vermelho-Garibaldi, ou Camisi-Russi. Havia nesse vermelho um toque de desplante que veio a fazer inveja ao velho Enzo Ferrari, o homem do Vermelho-Ferrari. Que aliás tinha tanto respeito pela figura de Giuseppe que resolveu apelidar todos os pilotos jovens e corajosos, dispostos a correr riscos sem medo, de garibaldinos. Por seu lado, a revista Godey’s Ladie’s de Janeiro de 1862, publicava este texto no mínimo curioso: «Notável entre as novidades da estação em Paris, e aparentemente capaz de produzir uma mudança análoga à revolução no guarda-roupa feminino, está a Camisa Garibaldi, que pode ser feita em flanela estampada, merinó, musselina, cambraia estampada, piquê ou lã foulard. A sua forma é obtida da mesma forma que a camisa masculina, com pregas frontais a partir da cintura, mangas cheias, colarinho pequeno e punhos dobráveis combinando com o colarinho, sendo tudo feito do mesmo material; as barras devem ser feitas de modo a ficaram em baixo da saia e permitirem uma folga de tecido em toda a volta da cintura, produzindo um efeito gracioso. É a mais bela e elegante peça que uma mulher pode vestir de manhã, para o café, e já é grandemente requisitada nos círculos fashion».

Nessa mesma altura, nos Estados Unidos, a Camisa Garibaldi era popular como nunca. A Guerra Civil Americana, que durou de 1861 a 1865, viu os militares adotarem aquela peça de roupa de forma praticamente unânime. É evidente que havia razões práticas para que tal acontecesse: para começar, carregava um espírito revolucionário que servia de tónico para os mais tímidos; em seguida, havia a questão económica – geralmente peça de roupa que vá para uma frente de batalha não regressa de lá passada a ferro e vincada: os tecidos utilizados na sua composição eram lisos e resistentes, como a lã – havia outras em seda e em algodão –, e quando se desgastavam eram substituídos facilmente por outras peças. É preciso recordar que, no seio das mais altas patentes militares da época, a vaidade no trajar era um facto indiscutível. E uma das características mais marcantes das famosas Camisas Garibaldi entregues ao exército era a facilidade com que suportavam as decorações belicistas feitas de cordão, passamanarias ou trancelim. O tema da cor, esse, foi sempre motivo de discussão. Os mais ortodoxos não aceitavam que as camisas fossem de outra cor se não o vermelho com bordados pretos; outros, mais ligados ao desenho do que à cor, aceitavam que fossem brancas ou azuis. Enfim, um tema para o qual o próprio Garibaldi se estaria, certamente, e neste caso concreto, positivamente nas tintas.

 

Entre França e Portugal

Giuseppe Maria Garibaldi seria francês se tivesse nascido no último século já que foi parido em Nice, na Côte d’Azur. Mas, no dia 4 de Julho de 1807, quando abriu os olhos para o azul mágico do Mediterrâneo, Nice pertencia ao Reino da Sardenha que fora absorvido pela França na altura da I_República, em 1792. O Giuseppe seria imposto pela sua rebeldia posterior já que, no momento de ser batizado e benzido pelos santos óleos, o seu nome foi registado como Joseph-Marie. A família Garibaldi tinha fortes raízes no comércio marítimo e Giuseppe seguiu pelas estradas do mar. A sua primeira missão como responsável por um navio foi a de carregar com umas toneladas de laranjas a bordo do Clorinda com destino a Taganrog, no Império Russo. E Taganrog tornou-se um local fundamental para o desenrolar da sua existência pois foi aí que criou laços de forte camaradagem com um sujeito chamado Giovanni Battista Cuneo, natural de Oneglia, um emigrante politicamente muito ativo e membro da organização Nuova Italia, um movimento criado por Giuseppe Mazzini. Mazzini era um defensor fanático da união da Itália sob um governo liberal, pondo fim ao estranho puzzle de pequenos reinos que recortavam a península em dezenas de fronteiras quase impercetíveis, reinos esses demasiado vulneráveis perante a voracidade crescente dos vizinhos franceses e austríacos. Garibaldi deixou-se encantar. Era um romântico por natureza e não tardou a fazer um solene juramento que o amarrava à luta armada pelo objetivo de uma Itália reunificada.

Em Novembro de 1933, Giuseppe estava muito feliz. Conhecera pessoalmente o seu homónimo Mazzini e mantiveram longas diatribes. A relação entre ambos foi longa e atribulada. Garibaldi juntou-se à Carbonária, foi preso durante a sublevação do Piemonte, conseguiu fugir, mas foi julgado à revelia. Pouco lhe importava. Nessa altura já estava em_Tunis, sob a proteção do bei – que tanto jeito deu a Eça de Queiroz para tapar buracos na literatura – e preparado para atravessar o Atlântico em direção ao Brasil e gastar as suas infindáveis energias no auxílio aos rebeldes do Rio Grande do Sul que proclamaram a independência do Império do Brasil no dia 11 de Setembro de 1836. Comandados pelo general Antônio de Sousa Neto, os gaúchos abriram hostilidades naquela que ficou conhecida pela Revolução da Farroupilha. A República Riograndense foi reconhecida somente pela França, Grã-Bretanha e Uruguai, mas avançou com uma constituição própria e não tardou a formar uma confederação com outro grupo de rebeldes concentrados na República Juliana.

Giuseppe Garibaldi participou alegremente na Guerra dos Farrapos, ou Farroupilhas, e deixou-se encantar por uma rapariga portuguesa chamada Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva, mas que toda a gente tratava coloquialmente por Anita. Quando, em 1839, outra revolta republicana rebentou no Brasil, desta vez em Santa Catarina, com o objetivo de fundar a República Santacatarinense, Garibaldi não perdeu tempo e meteu-se a caminho. A bordo do navio Rio Pardo, batendo-se bravamente nas batalhas navais de Imbituba e Laguna. Anita estava a seu lado.

 

Corações acesos!

Anita Garibaldi nasceu no dia 30 de Agosto de 1821, em Laguna, atualmente conhecida por Morrinhos, no município de Tubarão, no Estado de Santa Catarina. Terceira de uma fileira de dez filhos, era descendente de um casal que viera dos Açores e se dedicava à agricultura. O pai morreu-lhe cedo, o dinheiro escasseava, e a mãe, Maria Antônia, tanto insistiu que conseguiu casá-la com um fulano bem posto na vida, Manuel Duarte de Aguiar. Três anos depois da boda, Anita estava outra vez sozinha. Aguiar decidiu que tinha de fazer parte do exército imperial e devolveu-a à casa materna antes de partir para a sua vida de caserna.

Anita tinha apenas 18 anos. Rapariga plena de energia, não ficou indiferente às movimentações independentistas e tratou de criar laços com alguns dos revolucionários. Um deles, em particular, chamou-lhe a atenção: tinha 32 anos e era italiano – Giuseppe Maria Garibaldi. Juntaram-se para a nunca mais se separarem. Combateram lado a lado no Rio Grande do Sul e no Uruguai e tiveram quatro filhos. Garibaldi escreveu sobre ela nas suas memórias: «Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna. A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-nos reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência. Saudei-a finalmente e disse-lhe: ‘Tu tens de ser minha!’. Eu falava pouco de português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor».

Qualquer pé-rapado escreveu textos e textos sobre Giuseppe Garibaldi mas, na maior parte deles, obliviaram a importância de Anita na fase mais excitante da sua vida. Em 1847, já ela estava em Itália na companhia dos filhos e de Maria Rosa Nicoletta Raimondi, a mãe de Giuseppe. Passaram igualmente uns tempos em Nice enquanto esperavam o regresso de Garibaldi da América do Sul. Toda a península italiana estava em pé de guerra. Nas diversas repúblicas, bem como na Sicília, intelectuais e pensadores organizavam movimentos e reunificação e o rei da Sardenha e do Piemonte, Carlos Alberto, tomou a dianteira desse ambiente irreversível com o apoio do Papa Pio IX, o chefe de governos de alguns Estados Papais do centro do país. Declarou guerra à Áustria, que dominava uma enorme fatia da Itália do norte, mas foi completamente derrotado na Batalha de Novara. As relações entre Carlos Alberto e Giuseppe nunca foram boas, pelo que este resolveu viajar até Roma de forma a participar da revolta que declarara a República Romana. No comando dos rebeldes, derrotou as muito mais numerosas forças francesas de Luís Napoleão e suportou, em seguida, o terrível cerco de Roma. No momento delicado em que muitos dos romanos estavam prontos a render-se, soltou a sua frase notável: «Ovunque noi saremo, sarà Roma – Estejamos onde estivermos, será Roma». Mas a primeira Guerra da independência Italiana estava perdida.

Sempre acompanhado por Anita, agora grávida do seu quinto filho, Giuseppe Garibaldi regressou à América, primeiro aos Estados Unidos, depois ao_Peru onde se tornou responsável por um barco que fazia recolha de guano. Atravessou o Pacífico em direção à China, esteve na Austrália e nas Filipinas, instalou-se em Londres. Em 1854, estava à frente de um batalhão de guerrilheiros conhecidos pelos Cacciatori delle Alpi. A II Guerra de Independência de Itália estava em curso, mas o divisionismo era de tal ordem que prejudicava qualquer estratégia militar. Garibaldi voltou ao mar. Comandando dois navios, Il Piemonte e  Il Lombardo, à frente de um grupo de mil homens desembarcou no ponto mais a oeste da Sicília, Marsala. Com os seuss Il Mille, ou Camisi Russi, declarou-se rei da Sicília em nome de Vítor Manuel II. Atravessou o estreito de Messina e marchou para norte. No dia 7 de Setembro de 1860 tomou a cidade de  Nápoles. A 26 de Outubro encontrou-se com Vítor Manuel e o seu exército sobre a ponte de Teano, na Campania. Foi o momento mais importante da História Moderna da Itália. Garibaldi usava uma camisa inconfundivelmente vermelha.