Sociedade

País regressa às duas velocidades

Se há mais abertura no país, com algum regresso à ‘normalidade’, Lisboa afasta-se do desconfinamento, tendo mais pessoas internadas e os números a aproximarem-se dos 240 por 100 mil habitantes.


Se há mais abertura no país, com algum regresso à ‘normalidade’, Lisboa afasta-se do desconfinamento, tendo mais pessoas internadas e os números a aproximarem-se dos 240 por 100 mil habitantes. As notícias são tão contraditórias como surpreendentes. Se excetuarmos Lisboa, Braga, Odemira e Vale de Cambra, o resto do país passou a ter uma folga que não se via há muito, sendo a mais evidente a abertura dos restaurantes até à 1 da manhã e do comércio em geral que recuperou os horários antigos._Também os espetáculos desportivos e os casamentos e batizados ganharam outra folga, apesar de algumas restrições – nomeadamente a obrigatoriedade de testes negativos para se poder assistir ou participar. Tudo isto uns dias antes do previsto que era 14 de junho, e que o Governo decidiu antecipar para quinta-feira, Dia de Portugal.

Mas enquanto muitos podem bater palmas, outros só podem estar preocupados, pois em Lisboa, por exemplo, nas últimas semanas o número de internados mais do que duplicou, passando de 55 para 136, havendo ainda a registar entre os doentes alguns com vacinas tomadas, tal como o jornal i avançou em primeira mão. Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise da covid-19 da Ordem dos Médicos, que defendeu uma revisão da matriz de risco, é claro: «O aumento da atividade pandémica incide sobretudo nas pessoas não vacinadas, pelo que vemos faixas etárias que ainda não estão tão vacinadas, mas estamos a assistir com alguma preocupação a casos em pessoas vacinadas. Neste momento não levam a uma sobrecarga dos serviços de saúde, mas são casos que têm de ser avaliados. É algo que nos obriga de forma muito premente a analisar que tipo de vacinas fizeram, que esquema vacinal, que fatores do hospedeiro podem ter contribuído para uma menor eficácia vacinal e que tipo de variantes podem estar a condicionar esta situação».

 

10 concelhos em alerta

Mas não são só os quatro concelhos citados que não têm razões para sorrir. Sinalizados e em risco de não avançarem no processo de desconfinamento estão os seguintes concelhos: Albufeira, Alcanena, Arruda dos Vinhos, Cascais, Loures, Paredes de Coura, Santarém, Sertã, Sesimbra e Sintra. Se na próxima semana estes concelhos não baixarem dos 120 casos por 100 mil habitantes (240 nos concelhos de menor intensidade) vão ser obrigados a recuar e a ficar com as mesmas regras de Lisboa, Braga, Odemira e Vale de Cambra. Na capital o cenário é o mais complicado pois aproxima-se dos 240 casos por 100 mil habitantes, embora se acredite que não estará duas semanas seguidas com tais números – também não seja expectável que Lisboa possa avançar no desconfinamento antes de julho. «À partida, demorará pelo menos três semanas, até que a capital tenha menos de 120 casos por 100 mil habitantes, dependendo da adesão da população a medidas de controlo e prevenção», disse ao i Carlos Antunes, da equipa da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que faz a monitorização da epidemia.

Ao i, o investigador Carlos Antunes explicou ainda que os sinais de desaceleração do contágio que se notavam há uns dias não são agora tão intensos. A equipa da FCUL estima que o pico de casos na capital seja atingido já esta semana mas nem isso significa que a cidade esteja pronta para avançar no desconfinamento num futuro próximo.

No entanto, há sinais de que a população começa a preocupar-se com o aumento de casos, tendo havido um aumento de pessoas que começaram a ficar em casa. O índice de confinamento tinha atingido o valor mínimo desde o início da pandemia, com apenas 11% das pessoas a declararem que ficavam em casa, e esse número aumentou para 13%, de acordo com a monitorização feita Instituto Ricardo Jorge (INSA). Segundo os últimos dados, a maior preocupação vai para casamentos e aniversários, tendo Cascais ficado sob vigilância devido a dois casamentos, e Lisboa na situação em que está por numa festa de aniversário com mais de 500 pessoas onde já foram detetados 66 casos positivos, segundo avançou o Expresso.

 

Nova matriz de avaliação

A Ordem dos Médicos propôs ao Governo uma nova matriz para avaliação do crescimento epidemiológico nos próximos meses. De acordo com a proposta, a evolução da pandemia deve ser avaliada por concelhos em que estes passariam a verde, amarelo ou vermelho, não só em função da incidência cumulativa a 14 dias mas também avaliando a transmissibilidade (RT), que não tem sido divulgado por concelho, a taxa de positividade e número de testes, os movimentos de doentes em enfermaria e cuidados intensivos, a percentagem da população vacinada e a prevalência de novas variantes e peso destas nos doentes que dão entrada com quadros graves nos hospitais.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, adiantou que a proposta está a ser ultimada e vai ser enviada ao Presidente da República, sublinhando que a atual matriz não reflete a dinâmica de infeção uma vez que há cada vez mais pessoas vacinadas: «Temos de conseguir controlar a infeção, sabendo que estamos num contexto diferente mas agindo precocemente ao que forem indicadores de maior preocupação».

O médico defende que é diferente um concelho registar uma incidência de 240 casos por 100 mil habitantes e ter pessoas vacinadas ou não existir casos de falência vacinal associados a novas variantes, por exemplo.

No caso de Lisboa especificamente, Miguel Guimarães explica que o aumento da incidência, assim como de internamentos, inclusive de pessoas vacinadas é um sinal de alerta e as medidas podem não ser suficientes: «Atualmente, o país não está confinado, mesmo Lisboa, pelo que será difícil haver uma diminuição da incidência. Do ponto de vista dos serviços de saúde, nota-se um aumento de internamentos que não é de desvalorizar e tem de ser acompanhado». O médico relembra que é necessário «mais tempo e mais espaço» para se dedicarem aos doentes não covid.

 

As novidades que todos queriam

De acordo com a resolução do Conselho de Ministros publicada na passada quarta-feira, todos os concelhos do país (excetuando os supramencionados) podem a partir de agora ter o seu comércio a funcionar até à meia-noite para admissão de clientes e até à 1h00 para encerrar, e os espaços culturais podem estar abertos também até à 1h00.

Relativamente aos transportes públicos, a lotação pode passar a atingir os dois terços ou até mesmo a totalidade no caso de se tratar exclusivamente de lugares sentados. Nos táxis e semelhantes, é proibido o passageiro viajar no banco da frente.

Os eventos desportivos de modalidades amadoras podem passar a ter público, mediante lugares marcados e com uma lotação máxima de 33% do espaço. Os casamentos e batizados continuam com lotação máxima de 50% da capacidade total do espaço.

Passa agora a ser obrigatória a apresentação de teste negativo à covid-19 para se ter acesso a todo o tipo de eventos desportivos, culturais e familiares, no entanto, relativamente a estes últimos a apresentação do teste só é necessária a partir de um certo número de convidados, que será definido pela Direção-Geral da Saúde (DGS).

As empresas com mais de 150 trabalhadores no posto de trabalho passam a ser obrigadas a testar os seus funcionários e o teletrabalho deixa de ser obrigatório na maioria dos concelhos. As máscaras continuarão a ser de uso obrigatório em espaços públicos quando não houver a possibilidade de distanciamento até meio de setembro.

Relativamente aos quatro que ficam para trás, as regras mantêm-se as mesmas que existiam até agora: restaurantes, cafés e pastelarias podem funcionar todos os dias da semana até às 22h30, com o limite de seis pessoas por mesa no interior e 10 na esplanada; o comércio pode estar aberto durante a semana até às 21h00 e aos fins de semana até às 19h00; os espetáculos culturais têm como hora limite as 22h30; o teletrabalho mantém-se obrigatório sempre que assim for possível.

 

Um milhão de inscritos

De acordo com o coordenador da task-force de vacinação, Henrique Gouveia e Melo, já mais de um milhão de portugueses se inscreveram na plataforma de auto-agendamento. Apesar de admitir que este método já sofreu alguns problemas, o vice-almirante realça a importância da plataforma, considerando-a uma «coisa essencial» para acelerar o processo.

Gouveia e Melo reiterou que o objetivo é «substituir o agendamento manual por um agendamento mais automático», dado que são necessários recursos humanos para estar a vacinar. No entanto, tal não foi possível até agora uma vez que na fase inicial, a vacinação destinou-se principalmente aos mais idosos, pessoas à partida mais «infoexcluídas».

A plataforma, lançada a 23 de abril começou por permitir o auto-agendamento a cidadãos com idade igual ou superior a 65 anos já tendo descido até aos 40. No entanto, este não é um processo imediato pois a maioria das pessoas na faixa etária mais jovem terá de esperar aproximadamente duas semanas para que possa ser vacinada.