Sociedade

Arouca: A vida nova com os passadiços

Os Passadiços do Paiva e a Ponte 516 Arouca deram uma nova vida ao município arouquense. Será o turismo rural no interior a chave para o desenvolvimento desta região?


A 60 quilómetros do Porto, Aveiro e Viseu, há uma localidade que atrai todos os anos milhares de turistas que procuram fugir dos centros urbanos e respirar ar puro. Trata-se de Arouca, o município que nasce no meio das montanhas, bem perto do rio Paiva, o mesmo curso de água que dá nome aos famosos Passadiços inaugurados em 2015, que se estendem ao longo de 8,7 quilómetros, com acesso a vistas únicas e várias praias fluviais.

Esta atração turística, ligada à exploração da Natureza e ao denominado ‘turismo rural’, é o apogeu de uma aposta económica que, ao longo dos últimos anos, tem aberto novas portas para diferentes localidades do país. Uma aposta que pretende «desconcentrar a procura turística e alargar a prática turística a todo o ano», explica ao Nascer do SOL fonte da Secretaria de Estado para o Turismo.

Uma aposta que permite a estas localidades aproveitarem a afluência de turistas para renovarem e melhorarem a qualidade de vida, com novas construções e investimento em negócios como alojamentos locais, bares e restaurantes.

E, como se os Passadiços do Paiva aliados ao Arouca Geopark não fossem já suficiente chamariz para o turismo no concelho de Arouca, eis que foi inaugurada uma nova atração, desta vez com exposição internacional: a Ponte 516 Arouca, considerada a maior ponte pedonal suspensa do mundo. Localizada sobre o rio Paiva, a poucos quilómetros dos famosos Passadiços, esta ponte começou a receber o público há pouco mais de 2 meses e é já uma parte icónica da região, onde também o mítico Mosteiro de Santa Maria de Arouca, no centro da vila com o mesmo nome, e as Pedras Parideiras, na Serra da Freita, formam um panorama de turismo rural único no país.

Os Passadiços e a Ponte 516 Arouca são apenas duas obras ilustrativas de um esforço nacional por investir no turismo na Natureza, procurando reavivar o turismo nacional, encontrando nestas pequenas localidades, muitas vezes abandonadas, novas oportunidades de negócio e de estimulação das economias locais. É um caso que vai, por exemplo, de mãos dadas com o programa Revive Natureza do Turismo de Portugal, dedicado à recuperação de antigos postos fiscais um pouco por todo o país, e com vários outros passadiços construídos de Norte a Sul do país.

 

As mudanças na região

Com novas atrações chegam novos desafios, e muitas mais oportunidades de desenvolver as regiões onde as mesmas se instalam. Em Arouca, os Passadiços do Paiva e a criação do Arouca Geopark foram o pilar que colocou o concelho do distrito de Aveiro, bem perto da fronteira com o distrito de Viseu, no mapa. É o resultado da dita aposta, que «além de valorizar os recursos existentes, [...] tem potenciado a integração destes territórios do interior em circuitos de procura internacional», defende o gabinete da Secretaria de Estado do Turismo. «O potencial de criação de pequenos negócios do turismo no interior tem sido também amplamente demonstrado nos últimos anos. Potenciando o crescimento em valor e a dinamização do setor em todo o território, o turismo tem sido um excelente exemplo, e continuará a ser, como fator para a coesão territorial», defende a mesma fonte.

Na vila, que estava já acostumada ao turismo devido à popularidade do seu mosteiro, ainda que não nas dimensões trazidas pelos passadiços, já se fazem sentir os efeitos nos negócios locais. No centro, o movimento e os vários cafés são o reflexo de uma vida reforçada, onde locais e turistas se sentam nas esplanadas lado a lado, muitos deles a preparar-se para fazer a viagem até aos passadiços que rodeiam o rio Paiva, ou para cruzar a colossal ponte sobre o mesmo.

No mesmo dia, ouvem-se espanhóis, franceses, alemães e até norte-americanos por entre os arouquenses, a deliciarem-se com uma bola de berlim ou uma fatia de pão de ló da pastelaria Arca Doce, ou com uma postinha à arouquesa no Café Arouquense, dois ex libris da vila, mesmo no centro da localidade.

Os timbres do sotaque local vibram a falar dos turistas, dos visitantes e os olhos estão postos em quem não é da terra. Esses mesmos visitantes que são a melhor receita para estes negócios, ou pelo menos é essa a mensagem que corre nas bocas dos comerciantes.

Com a chegada dos passadiços, garantiram ao Nascer do SOL vários locais, a vila mudou por completo. Se o efeito ainda se faz sentir, todos convergem num ponto: o primeiro ano foi o mais frutuoso, mas também o mais complexo. As filas de carros a caminho do início dos passadiços, a 14 quilómetros do centro de Arouca, marcavam um panorama nunca antes visto, e algum receio com possíveis incêndios ou desastres que pudessem pôr em perigo a vida dos visitantes, bem como dos próprios arouquenses. Depois, vieram os rios de excursões e visitas organizadas, que criaram todo um novo paradigma de turismo e de comércio na vila.

Aliás, esta é mesmo a visão confirmada ao Nascer do SOL pela própria autarquia arouquense. «O aumento significativo da procura despoletou o aparecimento novas unidades de alojamento, desde um hotel rural até ao alojamento local, o empreendedorismo em diversas áreas, quer mais ligadas ao turismo, como a animação turística, ou menos, como a aposta no artesanato. Estas infraestruturas possibilitaram ainda a captação de novos públicos, nomeadamente no caso da 516 Arouca com os interessados em engenharia», revela fonte da Câmara Municipal de Arouca, dando como exemplo um dos novos investimentos no concelho: a construção da futura unidade hoteleira a instalar na ala sul do Mosteiro de Arouca, ao abrigo do programa REVIVE.

Dos cafés aos hotéis e alojamentos locais, os benefícios do turismo na região alastram-se e fazem-se notar nos edifícios recuperados no centro da vila, prontos a servir de palco para as fotografias que tira quem os visita, bem como nas vias públicas e nos inúmeros jardins e parques.

Contactado pelo Nascer do SOL, o Hotel Rural Quinta de Novais, próximo das duas atrações em questão, fez questão de realçar o aumento no número de reservas que se fez sentir ao longo dos últimos anos, mitigado unicamente pelos efeitos da pandemia da covid-19.

 «Desde a abertura dos Passadiços do Paiva a afluência de turistas, essencialmente nacionais, aumentou 20 a 30%. A Ponte 516 Arouca teve e está a ter impacto no aumento de afluência, notando-se aumento na visita/estadia de estrangeiros, essencialmente espanhóis», começou por explicar a unidade hoteleira, situada a cerca de 20 minutos do início dos passadiços. Aliás, em termos próprios, os mesmos garantem que as atrações turísticas em questão significaram um aumento na taxa de ocupação média na ordem dos 15% (35% para 50%).

Como em todas as situações que envolvem turismo e viagens no ano de 2021, a pandemia global da covid-19 é tema constante. Ainda assim, em Arouca, e para os responsáveis da Quinta dos Novais, até nesse aspeto a região beneficiou do chamado ‘turismo rural’, já que, segundo explicam os mesmos, «Arouca tem sido um concelho com poucos casos Covid, e o turismo de natureza é aquele que apresenta menos riscos».

«Tudo isto faz com que, desde que não haja confinamento severo, a procura turística tem sido boa», acrescentam, colocando o grande ónus deste desenvolvimento nas atrações turísticas instaladas no concelho.

«Estas estruturas vieram dar peso a um turismo que já existia (turismo de natureza), alavancando um produto que já existia, ganhando escala, puxando pelo comércio local (restauração). Os passadiços e a ponte estão a ser o impulsionador de todo o fluxo turístico», conclui.

 

Nova vida para os taxistas

Não foram só os cafés, restaurantes e hotéis de Arouca que beneficiaram da chegada dos turistas. A região é escassa em formas de transporte público e o trilho de oito quilómetros dos Passadiços do Paiva torna uma viagem de ida e volta a pé uma opção só para os mais treinados. Assim, no fim do longo caminho, existe sempre uma fila de táxis à espera dos exaustos visitantes, que já só sonham entrar num carro e regressar aos seus quartos de hotel ou pousadas.

Da mesma forma, em sentido contrário, a praça de táxis de Arouca – que, para insatisfação dos taxistas, foi retirada do centro da vila – espera ansiosamente aqueles que pretendem fazer a viagem até aos trilhos que bordeiam o Paiva.

Desta forma, a vida para os taxistas arouquenses ganhou todo um novo movimento, num local onde os clientes eram poucos, passando agora a transportar diariamente vários turistas, nacionais e internacionais, desde uma das pontas dos Passadiços do Paiva, de volta para a vila de Arouca, e vice-versa.