Internacional

Projeto Pegasus. Mais de 50 mil alvos sob possível vigilância

Investigação revela que centenas de jornalistas, políticos, ativistas e advogados foram selecionados por vários países para vigiar.


Milhares de jornalistas, ativistas, advogados e políticos de todo o mundo foram selecionados como alvo de uma tentativa de espionagem através de um software israelita, Pegasus, que permite aceder a mensagens, fotos, contactos e até ouvir as chamadas do proprietário. Esta operação – que ficou conhecida como Projeto Pegasus – foi revelada através de uma investigação publicada por um consórcio de 17 órgãos de comunicação internacionais, incluindo o Le Monde, o Guardian e o Washington Post, e que é baseada numa lista obtida pelas organizações não-governamentais Forbidden Stories e Amnistia Internacional.

A lista revelava cerca de 50 mil números de telefone selecionados por governos que são clientes da NSO Group desde 2016 para potencial vigilância, no entanto, de acordo com o Guardian, isto não significa que essas pessoas tenham efetivamente sido vigiadas.  

Este é um dos maiores casos de hacking já registados. “A dimensão desta lista é esmagadora quando comparada com tudo o que já tinha sido registado antes”, disse o investigador do ciberespaço da Citizen Lab, Bill Marczak, à Al Jazeera, acrescentando que uma operação anterior já tinha revelado cerca de 1400 contactos.

 

Os alvos

Entre as pessoas nesta lista encontram-se líderes de estado, primeiros-ministros, membros da família real árabe, diplomatas, ativistas dissidentes e executivos de negócios. E estão ainda incluídos, pelo menos 180 jornalistas, ligados a meios de comunicação como a France-Presse, Wall Street Journal, CNN, The New York Times, Al Jazeera, France 24, Radio Free Europe, Mediapart, El País, the Associated Press, Le Monde, Bloomberg, Economist, Reuters e Voice of America, informa o Guardian.

Muitos dos nomes selecionados encontram-se em países, cujos regimes identificaram esses jornalistas como “pessoas de interesse”, nomeadamente a Hungria, Índia, onde foram identificados, pelo menos, 38 jornalistas críticos do primeiro-ministro Naredra Modi (cujo rival político, Rahul Gandhi, também estava entre os potenciais nomes a serem vigiados). Já no Azerbaijão encontravam-se, pelo menos, 48 jornalistas que denunciaram casos de corrupção e de repressão. Cazaquistão, México, Arábia Saudita, Bahrain, Ruanda, Marrocos contam, pelo menos, com 38 jornalistas que denunciaram abusos de direitos humanos e corrupção do Governo. Nos Emirados Árabes Unidos surgem 12 jornalistas, incluindo um editor do Financial Times e um repórter de investigação do Wall Street Journal.

 

O que é o Pegasus?

O software israelita Pegasus é uma ferramenta utilizada para infetar telemóveis e roubar todo o tipo de informação do dispositivo e das suas aplicações. Desenvolvido pela NSO, empresa fundada em 2011, em Telavive, comercializa o spyware, um tipo de malware que regista secretamente informações e rastreia atividades online em computadores ou dispositivos móveis que, uma vez inserido no telemóvel permite aceder a mensagens, fotos, contactos e até ouvir as chamadas do utilizador.

“Quando um iphone é comprometido é feito de uma maneira que permite que o invasor obtenha os privilégios administrativos do dispositivo”, explicou o líder do laboratório de segurança da Amnistia Internacional, Claudio Guarnieri, ao Guardian. “Com o Pegasus o invasor pode fazer mais com o dispositivo do que o seu próprio proprietário”.

“As indústrias de vigilância trabalham sobre uma nuvem de escuridão, os seus produtos são concebidos para enganar e contornar a culpabilidade”, disse a assessora jurídica técnica da Access Now, Natalia Krapiva, ao Al Jazeera. “Esta indústria revelou que é incapaz de controlar e os governos escondem-se atrás da segurança nacional para desculparem estes abusos de vigilância. Precisamos de regulamentação, transparência e culpabilidade e precisamos dela agora”, rematou Krapiva.

Face a esta denúncia, o grupo NSO negou “fortemente” as acusações e afirmou que a investigação estava “cheia de falsas suposições e teorias não substanciadas”, escreveu a empresa no seu portal.