Retratos Contados

Ponte Sobre o Tejo


Por Nélson Mateus e Alice Vieira 

Querida avó,

Sabias que a Ponte Sobre o Tejo fez ontem 55 anos.

Tu, que já não vais para nova e já somas 60 anos de jornalista, deves ter bem presente nas tuas memórias, como era feita a travessia antes da existência da ponte. Bem como memórias da sua inauguração, da polémica em torno da mudança de nome da ponte e muito mais.

A ponte começou a ser construída em 1962 e foi inaugurada em 1966. ‘Apenas’ 4 anos para construir uma obra tão complexa. Estiveram envolvidos 3 mil trabalhadores diários (imagina as dificuldades na logística). A Ponte está a 70 metros de altura da água, e o seu ponto mais alto tem 190 metros! No total, mede cerca de 2,2 km. 

Sabes que a sua construção custou à volta de 11 milhões de euros? Para a época não foi nada mau. Será que houve derrapagem nas contas? Se fosse hoje…

Inicialmente, a ponte foi batizada de Ponte Salazar, em homenagem a António de Oliveira Salazar (embora exista quem diga que o senhor nem queria que a ponte tivesse o seu nome). Mais tarde, depois da Revolução de Abril de 1974, a ponte foi rebatizada com o nome que hoje conhecemos. O que ainda hoje continua a ser uma polémica. 

Efetivamente, penso que a ponte não deveria manter o nome antigo, mas também não devia ter o nome atual.

Desde o início do projeto que estava previsto a ponte suspensa ser rodoferroviária. Ou seja, a ponte comportar um tabuleiro para carros e outro para o comboio Mas só em 1999 os comboios chegaram à ponte.

A nossa ponte sobre o Tejo é ‘irmã’ da Golden Gate Bridge, em São Francisco: são semelhantes, ambas são suspensas, e têm em comum a cor. Mas a verdadeira inspiração vem de outra ponte na mesma cidade, a Bay Bridge, que apesar de ser branca é ainda mais parecida com a nossa. 

Quando vieres à capital atravessamos a ponte para irmos almoçar à Margem Sul, à beira-rio.

De regresso vamos contemplando a maravilhosa vista da cidade de Lisboa, vista da ponte.

Bjs

Querido neto,

Obrigada por me recordares que ‘já não vou para nova’. A inauguração da ponte foi um acontecimento nacional! Lembro-me de ter ido com os meus tios, e tenho pena de ter perdido uma fotografia desse dia, em que eu estava – como então era moda entre as raparigas – com um vestido igual à das atrizes no filme Música no Coração, que tinha estreado em 1966… Sainha de flores, corpete, blusa branca com mangas em balão.

E numa coisa estou de acordo contigo: ainda hoje não entendo por que lhe chamaram ‘Ponte 25 de Abril’.

Evidentemente que não queria Ponte Salazar, mas ao tempo que ela existia quando veio o 25 de Abril. Para mim será sempre Ponte Sobre o Tejo (e não há engano nenhum porque a outra ponte também sobre o Tejo chama-se Ponte Vasco da Gama).

Mas para mim a ponte está ainda ligada a outra coisa. A um miúdo estrangeiro, dos seus 7, 8 anos, que às vezes andava por Cascais. Podíamos falar português com ele porque andava na Escola Americana e arranhava umas coisas.

Chamava-se Bryan Adams, e passou cá a sua infância e adolescência, porque o pai era embaixador. Um dos funcionários da embaixada, engenheiro de profissão, foi um dos muitos engenheiros estrangeiros que acompanharam a construção da Ponte Sobre o Tejo. Mas o miúdo gostava era de cantar – e aos 15 anos deixou a escola e fez-se à vida no Canadá.

Como já deves ter percebido trata-se do cantor Bryan Adams, que fez enorme sucesso. Hoje está meio retirado das cantorias, e dedica-se mais à fotografia, com alguns álbuns já publicados. Mas ainda fala português!

Voltando à ponte. Durante muito tempo não a utilizei – e ainda hoje, quando tenho tempo, o barco é o transporte que uso. 

E está combinado: assim que pudermos, vamos de barco até ao Ginjal, e abancamos no ‘Atira-te ao Mar’ diante de uma caldeirada de bacalhau com camarões e poejo a admirar a ‘Ponte Sobre o Tejo’.

Beijinhos e bom fim de semana.