O Mundo em Calções

Penduraram Del Fontaine pela corda

Em 1931 atravessou o Atlântico num barco de carga de gado; quatro anos depois matou a amante a tiro e disparou sobre a mãe dela.


Hilda Meeks era tida pelo seu grupo de amigos como ‘flighty’, essa curiosa expressão inglesa que pode ser traduzida como leviana, se quiserem. Tinha 21 anos e mantinha com Raymond Henry Bousquet uma relação amorosa com altos e baixos há quase dois anos. Hilda nunca se preocupou com o facto de Raymond ser bastante mais velho do que ela, resultando a diferença de idades em praticamente uma década.

Raymond, instalado em Inglaterra para tentar ganhar dinheiro em combates de boxe que ia arranjando, aqui e ali, nunca sentiu necessidade de lhe explicar que lá de onde viera, Winnipeg, Manitoba, Canadá, mantinha mulher e um filho na sua dependência e na total ignorância daquilo que fazia ou deixava de fazer desde que chegara a Bristol, na Grã Bretanha.

De repente, no dia 10 de julho de 1935, tiveram notícias de Raymond, que dentro dos ringues era conhecido por Del Fontaine. E notícias muito pouco agradáveis, por sinal. Ciumento como Alfio da Cavalaria Rusticana, Raymond encontrara Hilda ao telefone numa conversa cheia de ademanes com um dos seus amantes eventuais, puxou da pistola, perseguiu-a pelos corredores, seguiu-a enquanto ela corria para a rua e desfechou-lhe um tiro a curta distância matando-a irreversivelmente.

Pelo caminho, irritado pelo facto de a mãe de Hilda se ter metido ao barulho, alvejou-a também, embora desta vez não mortalmente. Estava a carregar com os corpos para dentro de casa quando Sam Meeks, o pai de Hilda, regressava do trabalho e deparou com aquele espetáculo miserável. «Fiz isto para bem de Hilda e da velha», limitou-se Raymond a explicar. Quem o ouvisse, diria que era um garoto apanhado a fazer um disparate.

O disparate de Del Fontaine, que iniciara a sua carreira de boxeur convicto de que seria, em breve, campeão canadiano de pesos-médios, deu em pena de morte. Durante o julgamento, a defesa chamou uma testemunha abonatória chamada Ted Lewis, que já fora campeão do mundo na categoria de super-médio, e este considerou que o amigo não estava em condições de ser julgado porque caíra numa depressão terrível após a última derrota e tornara-se num bêbado incorrigível.

O magistrado, que prezava muito a vida, como o juiz do Jorge Palma, não ligou peva ao que Ted debitou na sala de audiências. Condenou Raymond à forca, bateu com o martelinho de madeira na mesa à sua frente, e deu por terminada a sessão.

Del Fontaine ainda teve uns longos dias de cárcere pela frente para poder remoer a sua triste existência. No dia 14 de agosto de 1925, acordara com a sensação única de que chegara a sua hora. Em Regina Saskatchewan, iria combater contra Harry Dillon durante dez rounds pelo título de campeão canadiano de pesos-médios. Aguentou com firmeza todo o combate, conseguiu atingir Dillon algumas vezes, mas acabou por perder aos pontos.

Raymond odiava perder. Demorou a engolir a desfeita mas, no ano seguinte, voltou a lutar pelo título, desta vez em Ottawa, contra Henry Henning. Acumulara dentro de si uma fúria surda que se concentrou nos punhos. Um gancho de direita deixou Henry KO e fez de Del Fontaine campeão. Começou a receber convites para combates nos Estados Unidos. O seu futuro no boxe parecia garantido.

Não se pode incluir Raymond Henry Bousquet na lista de grandes pugilistas da história, mas ele consta da lista de assassinos condenados à morte em Inglaterra antes da lei ser abolida, trinta anos mais tarde. O grande momento da sua carreira teve lugar no dia 16 de agosto de 1926 quando o boxeur galês Frank Moody fez questão de se deslocar ao Canadá para o defrontar.

Nunca se percebeu ao certo o motivo da fixação de Woody por Del Fontaine, a menos que tivesse algum poder de adivinhação em relação o que viria a acontecer em Bristol com a menina Meeks, mas o facto é que se meteu num avião, foi a Winipeg e deu uma tareia das antigas a Raymond, de tal ordem que este amuou mais do que era seus costume e ficou vários meses sem calçar as luvas.

Em 1931, atravessou o Atlântico num barco de transporte de gado, seguro de que era em Inglaterra que encontraria a sua independência financeira. Defrontou uma série de adversários britânico de nomeada, como Billy Bird, Jack Casey, Gipsy Daniels, Tommy Farr ou Jack Hyams e fartou-se de apanhar pancada. Bebeu para esquecer e esqueceu-se de parar de beber. Tornou-se um punch drunk, ou seja, uma vítima de encefalite traumática, dolorosamente degenerativa.

O que não explica, claro está, a ciumeira que o atacou quando resolveu abater a amante a tiro, quase levando a mãe dela pelo caminho. No dia 29 de outubro de 1935 escreveu uma pequena nota: «Hilda Meeks broke my heart I spent my last cent on her. She turned me against my own wife». O guarda da cadeia meteu-a no bolso e foi assistir ao seu enforcamento no pátio da prisão de Wandsworth.