O mundo em calções

Um súbito raio negro de luz

William Hubbard era um marrão. Mas, pelo caminho tornou-se no primeiro negro a ganhar o ouro olímpico pelos EUA


Na Coimbra da velha Cabra, essa Coimbra do Mondego onde a sombra da capa do Zeca Afonso deu no chão e abriu em flores, chamar-lhe-iam, certamente, um Urso. Na altura de mergulhar nas sebentas, não havia farra nem confraria, nem copo de bourbon ou amor de estudante, daqueles que não duram mais do que uma hora, que o fizessem tirar os olhos das palavras dos mestres. Marrava a fundo. E ninguém ficou surpreendido com o facto de ter sido um dos oito negros que se graduaram na Universidade de Michigan num total de 1546 alunos promovidos a doutores.

William DeHart Hubbard nasceu no dia 25 de novembro de 1903, em Cincinnati, no Ohio, num tempo em que os afro-americanos não eram propriamente bem vistos nessa terra de liberdade a que resolveram dar o nome de Estados Unidos. «God bless America, land that I love/Stand beside her and guide her/Through the night with the light from above...». e por aí fora, como no final dessa obra prima do cinema assinada por Michael Cimino, O Caçador, mas, sabemo-lo de cor e salteado, que a música não passava de um sonho ou, pior ainda, de uma propaganda barata na qual ninguém acreditava.

Hubbard já era um marrão na Walnut Hills High School e, ainda por cima, um atleta com particularidades extraordinárias. Foi mais por elas do que pelo seu cérebro intrincado que a Universidade de Michigan lhe ofereceu uma bolsa para que pudesse continuar nela os seus estudos. A conclusão do curso com honra e mérito no ano de 1927 surgia após a obtenção, três anos antes, de um tempo bastante impressionante nas pistas de atletismo: 9,8 segundos nos 100 metros. Juntou-lhe, pelo caminho, 7m53 metros no salto em comprimento. E com números como estes, apresentou-se nos campos de treino da Universidade de Harvard para tentar a sua sorte perante os selecionadores da equipa norte-americana que iria participar nos Jogos Olímpicos de 1924, em Paris. Foi aprovado, como não podia deixar de ser. William DeHart Hubbard estava destinado a ser um homem muito especial.

Ao mesmo tempo que Johnny Weissmuler se tornava Tarzan nas piscinas, arrebatando três medalhas de ouro e uma de bronze, só lhe faltando bater no peito com os punhos e soltar o inevitável iááááiááááá no momento de subir ao pódio, a sorte mantinha-se estranhamente apática no que dizia respeito aos esforços de Hubbard. O melhor que conseguira até aí no salto em comprimento fora três saltos nulos, com o bem visível pisotear da linha, e uma lesão no tornozelo esquerdo. Faltava-lhe ainda mais um salto, mas faltava-lhe ainda mais acreditar em si próprio.

Fazia um calor bruto no Stade Olympique Yves-du-Manoir, em Paris, no dia 8 de julho de 1924. Hubbard olhava em seu redor e observava as manobras de concentração dos 33 adversários, representando 21 países, que tinha de bater. Uma tarefa impossível, dir-se-ia. E foi precisamente isso que William disse aos seus botões enquanto esperava a chamada para o salto derradeiro.

Passava pouco das quatro da tarde. Hubbard partiu como um raio negro de luz: 300 mil quilómetros por segundo, e o seu voo foi perfeito. Por momentos parecia que pairava no ar como um beija-flor. Depois aterrou na caixa de areia a 7m4445, arrasando o seu compatriota Edward Gourdin, conhecido por Ned, um marrão como ele que não tardaria a completar o curso de Direito e a tornar-se Assistente do Procurador em Massachussets. Gourdin ficou-se pelos 7m225. De repente, a América acordava do seu pesadelo estúpido de puritanismo vitoriano serôdio e incompreensível – William DeHart Hubbard era o primeiro negro a ganhar uma medalha de ouro para os Estados Unidos. Um rapazinho de 21 anos provocava uma fratura num país cujos sulistas ainda exigiam a escravatura e mãos inferiores que sangrassem na apanha de algodão. Enquanto aStars and Stripes subia no mastro de Paris, Hubbard não ouvia o hino. Estava demasiado preocupado em regressar à Universidade para terminar o seu curso.

Nos dois anos que se seguiram, William continuou a competir, embora cada vez mais desinteressadamente.

Arrebatou vários títulos importantes, tanto em torneios indoor como ao ar livre. Em junho do ano seguinte, estabeleceu o recorde do mundo de salto em comprimento em 7m90 numa prova realizada em Chicago e, em 1926, igualou o recorde do mundo dos 100 metros com a marca de 9,6 segundos.

Com o canudo nas mãos, entrou na guerra pela igualdade rácica e aceitou o cargo meio confuso de directo do Department of Colored Work for the Cincinnati Public Recreation Commission. Teve uma vida longa e tranquila, esse homem que era longo e tranquilo. Quando George Gershwin compôs Porgy and Bess, sentava-se numa cadeira e ouvia como se o som brotasse do passado: «Summertime, and the livin’ is easy/Fish are jumpin’ and the cotton is high/Oh, your daddy’s rich and your ma is good-lookin’/So hush little baby, Don’t you cry». E as lágrimas corriam-lhe pela cara, impossíveis de prever.

afonso.melo@newsplex.pt