O mundo em calções

Quando a matéria atrai matéria...

Por entre os pingos de chuva uma dura bola de críquete despencou do céu fazendo estragos na moleirinha do Príncipe de Gales


Quando, pelo simples motivo de matéria atrair matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias, a grossa bola de críquete despencou lá das alturas na cabeça de Frederick Louis – o filho mais velho do rei George II de Inglaterra e de sua esposa, a rainha Caroline – foi como se um raio se abatesse sobre a monarquia britânica. Aos 44 anos, o Príncipe de Gales, herdeiro do trono, entrava numa prolongada doença traumática de uma forma, posso dizê-lo e sublinhá-lo, nada digna de um infante.

Frederick nascera em Hannover – não se esqueçam que, apesar da bem engendrada Casa de Windsor, a família real da Inglaterra fervilha de sangue alemão, por muito que isso os incomode – sob o muito germânico nome de  Friedrich Ludwig of Brunswick-Lüneburg. Seria, no mínimo, fastidioso entrar aqui pelas manigâncias da ascensão ao trono de seu pai. Por isso vamos diretos ao assunto. Em 1714, Griff, como era tratado pelos parentes mais próximos, foi viver na Grã-Bretanha por via da coroação do seu avô, George I. Durante dois anos andou numa roda viva, tantas foram as jovens que tentaram impingir-lhe como noivas, desde a sua prima  Wilhelmine da Prússia, a Lady Diana Spencer, antepassada destoutra mais recente e mais famosa, ou a Sarah, Duquesa de Marlborough e a Lady Anne Churchill, naturalmente antepassada de Winston.

Frederick procrastinou o mais possível qualquer tipo de compromisso. Aprendera que as moçoilas inglesas eram bastante mais atrevidas do que as que deixara ficar para trás em Hannover e, apesar da sua tenra idade, foi um reconhecido tarado sexual que não podia ver um rabo de saia sem que os fluxos hormonais desatassem a tomar conta do seu corpo que ia ganhando formas de desportista.

Pela mesma altura que Frederick se instalou na Grande Ilha para lá da Mancha, o críquete ganhara uma popularidade irresistível. Que também mexeu com o jovem príncipe.

Por uma crónica publicada no dia 28 de Setembro de 1731, ficamos a saber queFrederick participou de forma entusiástica e valorosa numa partida de críquete levada a cabo em Kennington Common, um dos grandes parques de Londres. Naturalmente, o Príncipe de Gales defendeu as cores da equipa de Londres que defrontava a seleção do Condado de Surrey e, segundo os testemunhos ainda intactos, descreve-se uma das melhores partidas algumas vez disputadas e a forma distinta como sua alteza participou nalguns dos momentos mais excitantes do jogo.

Daí para diante, as presenças de Frederick em desafios de críquete eram amplamente anunciadas nos jornais, mesmo que só interviesse no papel de espetador. Em 1733, deu a volta à casaca, e tornou-se num dos mais ferventes adeptos da equipa de Surrey, chegando ao ponto de oferecer a cada jogador da equipa um guinéu pela vitória sobre a seleção do Condado de Middlesex. Uns meses mais tarde, o seu mecenato cresceu consideravelmente ao pôr em jogo um valiosíssimo troféu de prata num encontro que opôs as equipas unidas de Surrey e Middlesex contra a do Condado de Kent, tida como a mais forte do país. Os patrocínios atribuídos àquele desporto tão profunda e maçadoramente britânico fazia com que cada vez houvesse mais gente a juntar-se à horda de praticantes. Frederick pode nunca ter chegado a ser rei, mas nada o retirará do trono dos primórdios do críquete.

Eis-nos, portanto, nessa tarde amaldiçoada. O príncipe assistia, com o profundo prazer habitual, a uma compita de críquete quando, por entre uns pingos de chuva, uma bola lhe caiu um cheio na moleirinha. Sentindo-se muito abalado, recolheu de imediato ao seu palácio de Leicester House onde um médico, ao aperceber-se de que, entretanto, um grande abcesso lhe ocupava parte do crânio, resolveu sangrá-lo, segundo os costumes dos esculápios da época. A cabeça de Frederick desinchou um bocado, mas a única frase que se lhe ouviu, em sussurro, foi: «Je sens la mort» (assim mesmo em francês porque apesar de ter uma família alemã no trono, os ingleses falavam francês na corte, o que ainda hoje lhes provoca azias monumentais). Parece que a mãe, Caroline, não lamentou a morte daquele que definia desta forma finíssima: «The greatest ass and the greatest liar and the greatest canaille and the greatest beast in the whole world». Lá teria as suas razões, afinal fora ela que o trouxera ao mundo. Mãe é sempre mãe...

afonso.melo@newsplex.pt