O mundo em calções

O homem que escorregou...

Fazendo parte do Oitavo Exército comandado por Montgomery no Egito, Tom organizou um jogo no qual participou o futuro Omar Sharif


Finney. Tom Finney. Não sei se será o único homem do mundo a ter uma estátua a escorregar, mas não ficaria admirado se me garantissem que o é. A estátua tem o sugestivo nome de The Splash e foi baseada numa famosa fotografia em que Finney está à beira de se espalhar ao comprido num campo de futebol encharcado, espirrando água para todos os lados. A cena passou-se em Stanford Bridge em 1956, mas a estátua só foi inaugurada em 2004, da autoria de Peter Hogdkinson, e está instalada no exterior do Deepdale Stadium, junto à Tom Finney Stand, em Preston.

Muita gente pode nunca ter ouvido falar de Thomas Finney mas acreditem que não era nenhum saloio do Lencashire, nascido nas margens do River Ribble. Filho de um clérigo e sofrendo de raquitismo – aos 16 anos não tinha mais do que 1m45 – ficou bem cedo órfão de mãe no meio de mais cinco irmãos, o mais velho chamado Joe, e quatro raparigas de nome Madge, Peggy, Doris e Edith. Alf, o pai, ganhava pouco e gastava bastante nas apostas. Tom não teve outro remédio senão ir trabalhar ainda na infância como aprendiz de picheleiro na fábrica de Pilkington. Tal como o pai, a cabeça estava presa pelo jogo. Não o das apostas, mas o do futebol. Não vivesse ele a poucos metros do campo do Preston North End. Quando leu um anúncio de jornal no qual se assinalava que o Preston estava a recrutar jovens jogadores entre os 14 e os 18 anos, correu para Deepdale para reclamar a sua oportunidade. Com uma bola nos pés, tudo lhe saía a preceito. Tinha um dom. Os responsáveis do clube não correram o risco de o perder e ofereceram-lhe um contrato de dois anos a duas Libras e dez xelins por semana. Tom abriu um largo sorriso, de orelha a orelha, e assinou de cruz. Alf também sorriu: era tão louco por futebol como o filho. Encheu o peito de orgulho e a pança de cerveja comemorando o acontecimento com os seus amigos num pub.

Com os treinos, Finney finalmente saiu do casulo da sua frágil aparência física. Esticou e encorpou. Estava na calha para vir a ser uma das maiores estrelas da história do Preston mas um homenzinho de bigodinho grotesco e olhar porcino resolveu pegar fogo à Europa e a IIGrande Guerra atirou-o para as trincheiras.

Em 1942, Tom Finney estava no Egito, incluído no Oitavo Exército sob o comando do general Montgomery, ao qual os mais próximos se referiam por Monty. Nos tempos livres, entretinha-se a organizar jogos de futebol entre a malta do regimento. Conta a história que numa dessas brincadeiras à sombra das pirâmides, conheceu e fez-se amigo de um fulano que também tinha habilidade de pés, Michael Yusef Dimitri Chalhoub, mas que não queria seguir carreira nos estádios, preferindo tentar a sorte no cinema onde ficou famoso como Omar Shariff. Nunca ninguém desmentiu o episódio, embora nem Finney nem Chalhoub tenham feito particular barulho em volta dele. Do Egito, Tom seguiu para Itália, acompanhando o avanço dos Aliados, conduzindo um tanque de marca Stuart do 9.º de Lanceiros na Batalha de Argenta Gap que teve lugar entre 12 e 19 de abril de 1945 entre o V Corpo do Exército Britânico, comandado pelo tenente-general Charles Keightley e o LXXVI Panzer Corps comandado pelo general der Panzertruppe Gerhard von Schwerin. 

A guerra estava no fim. Em breve Tom Finney alegrava os adeptos do Preston North End com o seu futebol ofensivo e ágil e com os seus golos fulminantes, ganhando a alcunha de Plumber of Preston. Vinte e quatro dias depois da sua estreia pela equipa principal do Preston, Tom surgia também pela primeira vez com a camisola de Inglaterra. No dia 25 de maio de 1947 fazia parte do onze inglês que desfez a seleção portuguesa por 10-0 no Estádio Nacional, marcando um golo aos 21 minutos. Era cada vez mais uma estrela em ascensão. O Canalizador de Preston e as Suas Dez Gotas, brincavam os jornais. Em 1952 recusou transferir-se para Itália e para o Palermo pela quantia de dez mil Libras a receber em duas épocas. Ficou para sempre jogador de um só clube: o Preston North End, que caiu para a segunda divisão no ano da sua despedida dos relvados, em 1960, interrompendo a existência de uma dupla atacante aterradora ao lado de Tommy Thompson.

Finney não seria capaz de adivinhar que, depois de uma carreira simplesmente brilhante, alguém decidiria eternizá-lo enquanto escorregava. Bill Shankly, o pai do grande Liverpool, diria dele: «Tom Finney would have been great in any team, in any match and in any age ... even if he had been wearing an overcoat». Bem, talvez fosse melhor ainda se dispensasse o sobretudo e usasse uma gabardina.