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Raffaella Petrini. Quem é a primeira mulher a chegar a um cargo de topo no Vaticano?

O Sumo Pontífice tem vindo a dar crescente destaque às mulheres no Vaticano. Agora, entregou o segundo mais alto cargo, o da secretária-geral da Governação do Estado da Cidade do Vaticano, a uma mulher – a freira franciscana Raffaella Petrini – sendo a primeira vez que tal acontece.


No passado dia 4 de novembro, o Papa Francisco nomeou a freira franciscana e cientista política Raffaella Petrini como secretária-geral da Governação do Estado do Vaticano, marcando assim a história da Igreja Católica, já que esta é a primeira vez que uma mulher tem acesso a este cargo. A responsável era, até agora, funcionária da Congregação para a Evangelização dos Povos, tornando-se assim a primeira mulher a ocupar o cargo de “número dois” da Santa Sé.

Quem é Rafaella Pinitri? A nova posição de Petrini é comparável a ser vice-governador de um estado ou o segundo em exercício no cargo do executivo municipal. A secretária-geral da Governação do Estado do Vaticano supervisiona o funcionamento diário da Cidade do Vaticano, incluindo departamentos como a polícia, bombeiros, serviço de saúde, museus, manutenção e pessoal de escritório, estando neles incluídas mais de duas mil pessoas. Esta função sempre esteve, até ao momento, reservada a um bispo.

Petrini, de 52 anos, nasceu em Roma e pertence à Congregação das Irmãs Franciscanas da Eucaristia. É licenciada em Ciências Políticas pela Universidade Internacional Livre de Guido Carli e doutorada pela Pontifícia Universidade de San Tommaso d’Aquino, onde atualmente é professora de Economia do Bem-Estar e Sociologia dos Processos Económicos.

A freira franciscana assume que sabe “cortar custos e despesas desnecessárias e tornar mais eficiente a máquina administrativa”, tal como explicou no seu discurso na conferência do Instituto Camillianum onde mencionou também “a economia e a eficiência que o digital pode proporcionar ao público da saúde”.

Pinitri fala da “linha divisória que os economistas traçam entre crescimento e desenvolvimento”, ou seja, “a dicotomia entre crescimento económico e as transformações mais profundas no plano social e cultural”. “Um equilíbrio difícil de alcançar”, frisou. Já do lado do desenvolvimento, Petrini inspira-se no economista americano Jeremy Rifkin e no seu conceito de “commons colaborativos”, como explica no vídeo em que aborda a questão da eficiência na saúde por meio de ferramentas digitais e análise de dados.

Com esta nomeação, o pontífice busca “alcançar uma maior igualdade dentro da Igreja”.

A inclusão das mulheres nos cargos religiosos Em janeiro, o Papa Francisco, de 84 anos, alterou a lei para permitir que as mulheres possam ler a Bíblia na missa, dar a comunhão e ajudar no altar durante a liturgia. Um mês depois, nomeou a freira francesa Nathalie Becquart subsecretária do sínodo dos bispos, tornando-se, de facto, a primeira mulher da história a ter direito ao voto neste tipo de reunião (que aborda as principais questões da doutrina da Igreja). Também em fevereiro, nomeou a magistrada italiana Catia Summaria como a primeira mulher promotora de Justiça no Tribunal de Apelações do Vaticano.

Desde que o sumo pontífice criou em 2016 uma comissão para estudar a história das mulheres diáconos nos primeiros anos da Igreja Católica, os grupos reformistas mantêm a esperança de que possam haver mulheres a ocupar a função dos padres. Francisco, até ao momento, não abriu a porta para que possam ser ordenadas nessa função. Contudo, em 2020, concordou com a criação de uma comissão que poderia autorizar mulheres a se tornarem diáconas.

Diariamente, nas paróquias, os diáconos apoiam e substituem os padres. Numa Igreja confrontada com a crise vocacional, o diácono pode, como o sacerdote, celebrar batismos, casamentos ou até enterros. O diácono está, por isso, a meio caminho entre o leigo e o sacerdote – tornar-se diácono é uma etapa obrigatória antes do sacerdócio. Até agora, todos os predecessores do Papa Francisco, e em particular João Paulo II, se opuseram à ordenação de mulheres sacerdotes.

Mas é verdade que o Papa tem feito esforços para aumentar a presença feminina na Santa Sé. Em agosto, escolheu seis mulheres como especialistas leigas do Conselho de Economia. Uma delas, a professora Charlotte Kreuter-Kirchhof, foi nomeada vice-coordenadora deste conselho em setembro, outra a freira italiana Irmã Alessandra Smerilli que desempenha agora o cargo de secretária de desenvolvimento do Vaticano, que lida com questões de justiça e paz. Na mesma altura, o Papa nomeou várias mulheres cientistas para a Pontifícia Academia de Ciências, incluindo Emmanuelle Marie Charpentier, fundadora e diretora da Unidade Max Planck para a Ciência de Patógenos, em Berlim, e Prémio Nobel da Química 2020. Outra nomeada foi Donna Theo Strickland, professora de física ótica do Departamento de Física e Astronomia da Universidade de Waterloo e vencedora do Prémio Nobel da Física 2018 por ter inventado, em 1985, com Gérard Mourou, uma tecnologia de laser usada atualmente em milhões de cirurgias oculares.

De acordo com a Association Femmes au Vatican, as mulheres representam agora 22% dos funcionários do Vaticano, cerca de mil dos quatro mil funcionários ao serviço do Papa.