Opiniao

Ainda Sousa Mendes e o Panteão

Está escrito num tom ofensivo para mim, que ignorarei, e difamatório de meu Pai, José Hermano Saraiva. Nele aparece descrito como inventor e mentiroso a respeito da actividade de Leite Pinto no salvamento de refugiados.


Por Rodrigo de Sá-Nogueira Saraiva, professor universitário

No Nascer do Sol de 13 de novembro António Pedro de Moncada de Sousa Mendes (APMSM – não há agravo implícito no uso das iniciais, apenas economia de espaço) publicou, em direito de resposta ao meu artigo Sousa Mendes no Panteão: justifica-se? um artigo com o mesmo título. No dia 8 de novembro mandara eu uma correção ao meu artigo original, que transcrevo a seguir. Não foi publicado no dia 13 porque, com razão, foi dada precedência ao direito de resposta. Chamo a atenção para as datas: o que vai a seguir não é uma resposta ao artigo de APMSM mas uma correcção ao meu artigo original. A resposta vai no final.

«Ainda sobre Sousa Mendes e o Panteão – No meu artigo anterior, Sousa Mendes no Panteão: justifica-se? cometi um erro. Afirmei que, na primeira república, Sousa Mendes foi punido por causa de conduta irregular de cariz sexual. Isso não sucedeu. Foi punido mas por uma causa totalmente diferente. Assinalou-me este erro o autor de uma das obras que usei como fonte para escrever o artigo; o autor, com total honestidade e transparência, não apenas mo declarou como tenciona corrigir o seu erro de interpretação no futuro. Enganei-me, pois, e enganei quem me leu; mas agi como qualquer académico: baseei-me nos trabalhos publicados por um historiador profissional. Tenho de lhe agradecer a honestidade e lamentar aos leitores o meu engano.

Citei esse exemplo para ilustrar a impulsividade de que Sousa Mendes parece ter dado provas ao longo da vida e que explica, em parte, as suas acções de passar vistos, muitos deles sem valor legal, a muita gente. O erro que cometi não compromete essa interpretação: creio que Sousa Mendes agiu por impulso, provavelmente com generosidade mas de maneira irregular, e que, por isso, pode ter comprometido o difícil equilíbrio diplomático da época.
Outros diplomatas e responsáveis do Estado Novo agiram, também, a favor dos judeus mas dentro das regras e de acordo com o Estado português. Sousa Mendes não foi caso único: foi apenas mais espectacular porque mais emocional e mais desorganizado.

Este esclarecimento não invalida o núcleo da mensagem do meu artigo anterior. A escolha de Sousa Mendes e o silêncio sobre outros nomes (Sampaio Garrido, Liz-Teixeira Branquinho, ambos explicitamente homenageados na Hungria, Leite Pinto, Moisés Amzalak) que agiram no mesmo sentido e com total acordo do Estado Novo visa reescrever a história e apresentar o salazarismo como anti-semita e, portanto, próximo do nazismo. Trata-se de falsear escandalosamente a história. Além de reclamar Sousa Mendes para o campo democrático, a que não pertencia, é uma nova tentativa de manchar qualquer forma de conservadorismo associando-o, como nos tempos do PREC, ao nazi-fascismo.
Há presentemente consenso sobre que as democracias são preferíveis a regimes autoritários. A manipulação da história, como defendo ocorrer em todo este caso, não é digna de regímenes democráticos mas típica de regímenes autoritários: são esses que reescrevem a história. Um regimen democrático digno justifica-se a si próprio sem necessidade de recorrer a manipulações da verdade como defendo ser o caso presente.»

Foi este o artigo que enviei dia 8. Poderia dar muito mais informação sobre as várias pessoas mencionadas e referenciá-la como num artigo científico, mas considero que a mensagem está suficientemente clara. A única resposta que o artigo de APMSM, de dia 13, me merece é mais curta.

Está escrito num tom ofensivo para mim, que ignorarei, e difamatório de meu Pai, José Hermano Saraiva. Nele aparece descrito como inventor e mentiroso a respeito da actividade de Leite Pinto no salvamento de refugiados.

Aí sim, há razão para falar de crime contra a memória de pessoa falecida, com que APMSM por duas vezes veladamente me ameaça. Não faço ameaças, nem veladas nem explícitas. Espero não ter de recorrer aos Tribunais; o tom e o conteúdo do artigo de APMSM condenam-no suficientemente.