Retratos Contados

À descoberta de Torres Novas


Por Nélson Mateus e Alice Vieira

Querida avó,

Finalmente a tua exposição chega a Torres Novas, à Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes.No início do próximo ano, iremos organizar uma belíssima tertúlia no Auditório da Biblioteca. Espero que a casa esteja cheia de gente para nos ouvir falar do livro Diário de uma Avó e de um Neto Confinados em Casa. Mas, acima de tudo, para te ouvirem falar da tua infância e das tuas ligações a Torres Novas. 

Sempre que chegas a uma escola questionas os alunos se eles sabem quem foi, ou quem é, a pessoa que dá nome à escola.

Será que grande parte dos torrejanos sabe quem foi Gustavo Pinto Lopes, personalidade que dá o nome à Biblioteca?

Uma vez que, ao longo das próximas semanas irei várias vezes a Torres Novas, que me aconselhas visitar?

Já sei que tenho de visitar, com calma, o Castelo de Torres Novas, as Ruínas Romanas de Villa Cardílio, várias igrejas e capelas, e, claro está, o Museu Municipal Carlos Reis. Se tiver sorte com o tempo, quero ver se vou visitar a Reserva Natural do Paúl do Boquilobo. Já sei que tenho de contemplar o Rio Almonda, de que tanto falas, e ir visitar as Grutas nas Lapas. Existe alguma Casa Museu da Torrejana Maria Lamas?

Tudo isto deve ser muito bonito e estou cheio de vontade de palmilhar Torres Novas de uma ponta a outra. Só de pensar nisso já me abriu o apetite.

Que pratos regionais existem? E docinhos? Sabes que, apesar de magro, sou uma pessoa de boa boca. Quando fui a Torres Novas, pela primeira vez, descobri as broas de sabores variados e os deliciosos bolos de cabeça.

Preciso de arranjar reservas para partir à descoberta destas terras torrejanas. 

Conta-me tudo!

Bjs 

Querido neto,

Estou contente por te ver tão entusiasmado…Tenho pena de já ter passado o habitual almoço da Confraria do Feijão com Couves, porque tenho a certeza de que também gostarias de ter participado…

Tudo o que mencionaste é digno de visita – e tira muitas fotografias!! – mas hoje apetecia-me mais falar de pessoas. 
Tirando as grutas, o castelo, a fábrica dos meus tios e o rio Almonda, para mim Torres Novas era, e é, sobretudo as pessoas.

E havia uma família que, não sendo minha família de sangue, era como se fosse. A família do “Zé Carvalho”. O Zé Carvalho estava então à frente da sucursal do Banco de Portugal de Torres Novas. Vivia num enorme casarão no centro da cidade, com o pai, a mãe, a tia, a mulher, a filha, e creio que ainda com a avó que, desde que me lembro, esteve anos a morrer, num quarto no último andar da casa.

A tia do Zé Carvalho, uma velha pequenina, magra, de carrapito e sempre muito séria, chamava-se Piedade, mas todos a tratavam por Tipetá. De cada vez que saía connosco de carro, armava-se de papel e lápis e tomava nota de todos – mas absolutamente de todos – os nomes das terras (lugares, aldeias, vilas, etc.) por onde passava.

Acho que isso só lhe passou quando um dia a família se aventurou a um passeio maior até Pedrógão (cerca de 80 km!!!) e pelo meio encontrou a aldeia da Picha Mole. 

Adiante.

As termas de Caldelas eram o nosso poiso habitual no verão – embora só o Zé Carvalho tomasse águas. Mas bastava ele sugerir outro rumo e nós todos marchávamos atrás.

Lembro-me de um dia em que lhe apeteceu ir a Lourdes. Era por alturas do Natal, e lá foi tudo até França.

Ainda hoje recordo o ar dele diante de um cartaz logo à entrada da cidade, que anunciava «crèche avec 200 sujets»: «ó Joaquim, uma creche com 200 sujeitos? Eles matam-se todos uns aos outros!».

Era uma animação viajar com o Zé Carvalho, garanto-te…

Diverte-te a descobrir Torres Novas.

Vais gostar.

Bjs